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Ex-olavistas voltam a cortejar guru russo em nome da “multipolaridade”

02/07/2025 - Atualizado em 03/07/2025
em Artigos EN
Tempo de Leitura: 4 mins de leitura
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O canal de ex-olavistas Estúdio 5º Elemento voltou a entrevistar o guru neofascista russo, Alexander Dugin, ampliando ainda mais a exposição da proposta multipolar capitaneada pelo eurasianismo de Dugin para o público de mais de 160 mil inscritos do canal. Dugin vem se tornando popular entre conservadores órfãos de intelectuais, políticos e orientação espiritual. Até poucos anos atrás, o conteúdo do 5º Elemento buscava identificar-se com o público de alunos do filósofo Olavo de Carvalho, uma primeira etapa comum a diversos movimentos que buscaram parasitar o segmento de direita nos últimos anos.

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Em 2022, o canal já havia feito uma entrevista com o guru russo, além de Leonid Savin, nome importante do Kremlin. O site do Instituto Estudos Nacionais apontou o fato como relevante alerta a conservadores, especialmente católicos, sobre as influências reais do ideólogo que pertence à corrente neofascista esotérica e profundamente anticatólica, questionando ainda sobre as intenções por trás da divulgação dessa pauta por canais a um público conservador. Na época, como resposta houve críticas indiretas ao trabalho do Instituto, como se estivéssemos vendo “chifres em cabeça de cavalos”. Afinal, perguntavam eles: qual o problema de se ouvir um ideólogo? Isso não significaria, em tese, o apoio de sua ideologia. Essa premissa, extremamente liberal em sua base, não poderia ser aceita sem alguma falsidade pelo ideólogo assíduo utilizador das ideias de Heidegger, Foucault e René Guénon. Bem, agora essa desculpa de indiferentismo e suposta neutralidade não funcionaria, pois ficou claro o compromisso do canal com a tese multipolar, igualitária, espiritualista, anarquista e revolucionária em sua base. Bastava que seus promotores lessem algum material fartamente publicado neste site para compreender do que se trata. Mas isso pareceu difícil e tedioso. Ou contraproducente aos negócios.

Sobre a situação dos ex-olavistas, escrevemos recentemente um texto maior na Coluna EN.

A entrevista foi feita por Arthur Machado, que viajou para Moscou de onde fez diversos vídeos para o canal. Mas a militância do canal não se restringe à Rússia. Vai também no caminho de outros parceiros do bloco. Em outro vídeo recente, o 5º Elemento questionou a comum consideração de que a China era um governo comunista, ressaltando o conservadorismo moral de certos costumes chineses. Para conservadores atentos apenas às questões morais sociais, como o identitarismo, até mesmo a União Soviética passa a parecer conservadora, o que é um indicativo claríssimo sobre o estado de desconhecimento sobre a mentalidade revolucionária, tão tratada por Olavo de Carvalho. Nos últimos anos, o foco do canal tem sido quase exclusivamente a crítica à cultural woke, pauta escolhida por influenciadores que atuam em favor das pautas russas, já que essa crítica é facilmente percebida como conservadora e alinhada aos valores da maioria da população. A cultura woke tem recebido diversos reveses recentemente, resultado de uma nova conjuntura do globalismo internacional, como temos apontado.

O alinhamento à Rússia fica evidente em diversos vídeos, o que é feito por meio da corrente de um antissistemismo alternativo e de tom anarquista que tem sido cada vez mais adotado por conservadores. Em resposta às suspeitas de serem uma espécie de “agentes russos”, membros do canal costumam usar o seu afiado humor para “alimentar” essas suspeitas, sem citar sua origem, na tentativa de caracterizá-las como caricatas.

Na entrevista, analisada em parte aqui, Dugin adaptou seu discurso aos liberais envergonhados, deslumbrados pela retórica mítica de uma proposta épica contra o Ocidente travestida em linguagem de análise geopolítica. Não por acaso, muitos discípulos de Dugin têm se aproximado de outros canais da direita pós-bolsonarista, como o de Kim Paim, apresentando-se como observadores neutros ou tidos como representativos, sem qualquer filtro sobre suas propostas ideológicas.

O processo de aproximação da direita com correntes esotéricas é o resultado de uma politização maior desses movimentos antes relegados ao ocultismo, neonazismo e doutrinas marginais da internet. O trabalho de Dugin tem sido eficaz em repolitizar essas instâncias apagadas anteriormente pelo sistema penal internacional. No caso dos conservadores brasileiros, setores que optaram pela linguagem niilista ou de terra arrasada trilham mais rápido o despenhadeiro da loucura poética e retórica de Dugin. Órfãos de intelectuais, políticos e líderes religiosos, esses conservadores não encontram outra saída senão aliar-se a um inimigo que sabe se disfarçar de amigo. Com a morte de Olavo de Carvalho, as derrotas de Bolsonaro e a crítica reiterada à hierarquia católica por parte de movimentos como Centro Dom Bosco e outros, tem crescido o número de apostasia formal, cisma declarado ou enrustido, sob a forma de um anseio por “tradição”. Dugin traz a resposta perfeita a isso sob a forma da tradição primordial de Guénon, com a mistura do radicalismo de Heidegger, Julius Evola, além das correntes pós-modernas como ferramenta útil.

Alerta inútil ou inconveniente?

Em 2011, Olavo de Carvalho desmascarou Dugin em um debate publicado em livro, o que constrangeu muitos simpatizantes do russo que ainda circulavam no meio olavista. Mesmo assim, o crescimento da influência duguinista a partir dali parece ter superado a capacidade de leitura atenta do alerta feito por Olavo. Na ocasião, o filósofo explicou a natureza maliciosa da ideologia duguinista, como parte da estratégia russa que oferece uma clara continuidade do movimento revolucionário internacional.

Recordar desses alertas, porém, soa como inconveniente, tanto para os duguinistas de carteirinha, seja pelo novos adeptos egressos do olavismo órfão ou do pós-bolsonarismo perdido. Para alguns, o presente alerta pode gerar até mesmo prejuízo financeiro.

Desde 2005, porém, Dugin vem se tornando um dos mais influentes cérebros por trás do resgate das ideologias de terceira posição no mundo, que têm formatado programas políticos de movimentos da chamada “nova direita” em diversos países. Como resultado, essa nova direita vem unindo-os a neonazistas, muçulmanos e toda sorte de adeptos de espiritualismos alternativos disfarçados sob o guarda-chuvas da multipolaridade. Uma das chaves de compreensão para a união entre os diferentes está no papel um tanto discreto, mas fundamental, da Escola Tradicionalista de René Guénon, que também vem sendo divulgado no Brasil mesmo após os alertas de Olavo de Carvalho.

Em nome da luta contra o globalismo, a cultura woke e o identitarismo, o 5º Elemento tornou-se um típico exemplo da aposta de setores da direita no uso de uma estratégia singular: usar o igualitarismo revolucionário de movimentos neofascistas contra o globalismo liberal do Ocidente. A contradição inerente a essa estratégia parece, no entanto, desapercebida.

Dugin defende uma nova ordem mundial que recupera o tom igualitário do globalismo, salvando-o, porém, da premissa liberal que começou a se tornar incômoda a partir da Pandemia, quando a censura e a perseguição das redes sociais enfraquecia a velha bandeira da liberdade e igualdade dos esquerdistas culturais. Na sua Quarta Teoria Política, base sobre a qual deverá transcorrer a famigerada utopia da “Ordem multipolar igualitária”, como já foi mencionada por Dugin, o russo defende a união entre Socialismo e Fascismo (incluindo, é claro, o neonazismo e o islã radical) contra o liberalismo. Sendo, portanto, uma “quarta” teoria a união de todos contra a primeira, segundo ele base de todo o mal.

Evidentemente, Dugin sabe ocultar certas crenças a depender do público com o qual se comunica. O ouvinte da entrevista não verá ele repetir seu apoio à maçonaria anticatólica na Polônia para limitar o catolicismo romano. Também não verá ele dizer que, contra o Ocidente, deve-se apoiar toda causa que possa desestabilizar a sociedade, inlcuindo movimento como Black Lives Matter, Antifa e outros, ambos apoiados por oligarcas russos, como mencionamos recentemente em nosso site.

Por fim, a tese duguinista e ortodoxa da Terceira Roma necessita de especial atenção dos católicos. Já explicada inúmeras vezes neste site, o apoio a essa tese pode levar o fiel católico a uma situação canônica no mínimo preocupante. Afinal, o novo Código de Direito Canônico (1986) que segundo seus críticos “omite” a Maçonaria por um generalismo, na verdade, acaba abrangendo movimentos que “conspiram contra a Igreja”, sejam eles heréticos ou claramente cismáticos. Será que os católicos estão prontos para abraçar uma militância fora da Igreja e, portanto, contra ela?

O site do Instituto Estudos Nacionais é o único que acompanha de perto este movimento que se tornará, em breve, o maior movimento de poder global, graças ao trabalho de grandes Idiotas úteis (título de nosso último livro). 

Autor

  • Cristian Derosa
    Cristian Derosa

    Jornalista e escritor, autor do livro O Sol Negro da Rússia: as raízes ocultistas do eurasianismo, além de outros 5 títulos sobre jornalismo e opinião pública. Editor e fundador do site do Instituto Estudos Nacionais

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