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Da Cristandade ao neopaganismo: a história das matrizes do nacionalismo

25/09/2025
em Artigos EN
Tempo de Leitura: 5 mins de leitura
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Por que os revolucionários insistem em rotular todo tipo de nacionalismo como manifestação de ideologias fascistas típicas da modernidade? Os católicos que defendem legitimamente as suas nações acabam, por desconhecimento, flertando com elementos perigosos de modelos falsos de nacionalismos e dando munição à esquerda que deseja, no fundo, criminalizar uma parte inconveniente do próprio nacionalismo revolucionário. Para entender eficazmente essas distinções, precisamos conhecer a história dos modelos de nacionalismos existentes.

De maneira geral, existe um nacionalismo original, de base católica, e mil outros modelos surgidos depois para concorrer e imitá-lo falsamente. Estes últimos estão sendo agrupados, hoje, no que se chama “multipolaridade“.

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Nacionalismo católico: a Pátria Celeste

O nacionalismo ocidental tem sua raiz profunda na Europa cristã e católica. Durante a Idade Média, a ideia de comunidade política estava inseparavelmente ligada à Cristandade, que era a efetivação da Cidade de Deus harmonizada com a Cidade dos Homens: a nação era vista como o fruto do trabalho humano para a manutenção de uma ordem universal sob a Igreja, orientada pelo Papa, e sustentada por monarquias de direito divino, baseadas na ideia de que todo poder emana de Deus. Afinal, de fato o poder humano é, em vista do Poder de Deus, uma mera potência que deve prestar conta ao “lastro” do poder, Aquele que criou o Céu e a Terra.

O reino espanhol dos Habsburgo, o Portugal missionário ou mesmo a França capetíngia eram exemplos claros de Estados em que o “rei e a pátria” estavam unidos pelo vínculo da fé. Esse modelo correspondia a uma ortodoxia católica em que a identidade nacional não podia ser concebida fora do horizonte cristão. Isso era o resultado da vitória da Igreja Celeste na esfera militante, um prêmio dado por Deus após as graças compradas com os primeiros mártires: o Império que matava cristãos se tornou a capital da Igreja Militante, que espalhava-se pelo Ocidente usando as mesmas estradas usadas pelos césares para o domínio e subjugação da Europa.

A harmonia entre Cidade de Deus e Cidade dos Homens, doutrina de Santo Agostinho, era fundamental para compreender o verdadeiro estabelecimento de uma ordem divina no mundo, pois era o reflexo perfeito da harmonia que deve haver entre Criador e Criatura, entre corpo e alma. A nação, dessa forma, era parte de um corpo, a Igreja, que a dava o sentido e unia as almas na única fraternidade universal que é o catolicismo. Não se trata de um ideal de pacifismo, mas de estabelecimento da Paz de Cristo.

Modernidade: Babel dos nacionalismos

Com a modernidade, porém, esse fundamento começou a se fragmentar até levar à progressiva separação cartesiana, uma nova queda humana que deu origem à diversidade de critérios para novos nacionalismos.

A partir das revoluções do século XVIII, sobretudo a Francesa, surge o nacionalismo liberal-burguês, que desloca a soberania do trono e do altar para a do “povo-nação”. A pátria já não é a comunidade dos fiéis unidos pela fé católica, reflexo da Pátria Celeste ou aspecto da Igreja Militante, mas a somatória de cidadãos livres, autônomos e legisladores de si mesmos. Essa transformação marca a primeira ruptura radical com a tradição católica, pois retira a mediação religiosa da vida política, substituída pela consciência individual. Essa consciência, porém, ainda ancorada sobre os valores morais, abriu a porta para a dinâmica entre subjetividade e identidades nacionais.

Esse processo teria sido impossível sem uma ruptura ocorrida com a Reforma Protestante, movimento de caráter político e nacional alemão, mas que levou a uma primeira revolução no âmbito religioso na Europa.

No século XIX, uma segunda matriz de nacionalismo se afirmou: o romantismo cultural. Inspirado por pensadores como Herder e Fichte, esse movimento de ideias defendia que a essência da nação não estava na fé comum, mas no “espírito do povo” (Volksgeist), expresso na língua, no folclore e nas tradições populares. Embora menos hostil que o liberalismo à ideia de transcendência, esse nacionalismo acabava por deslocar a identidade nacional para elementos culturais e míticos muitas vezes pré-cristãos, abrindo espaço para releituras neopagãs e esotéricas, resgatando muitas vezes elementos das heresias medievais e do cristianismo primitivo que haviam sido abafadas na Idade Média. O gnosticismo, linguagem herética e diabólica que pode ser considerada a doutrina da própria Serpente do Éden transmitida aos homens, vai ganhando uma nova diversidade de manifestações, justificada pela ideia de diversidade e liberdade do homem diante de Deus.

Isso abre uma nova porta para erros ainda mais perigosos em um movimento descendente que se dirige do culto da Cidade dos Homens, contra a Cidade de Deus, para o núcleo de um culto ao próprio mal à medida que o culturalismo étnico dos elementos pagãos vai sendo enriquecido pelos elementos gnósticos em novas teorizações místicas esotéricas, surgimento de sociedades maçônicas etc.

Ainda no tenebroso século XIX, sob influência do darwinismo social e de teorias racialistas, floresceu o nacionalismo étnico-racial, que substituía a religião pela biologia como fundamento da nação. O sangue e a raça tornavam-se a medida da pertença nacional, culminando nas ideologias totalitárias do século XX, como o nazismo. Essa matriz representava uma contradição ainda mais profunda com a fé católica, que sempre reconheceu a unidade do gênero humano criada à imagem de Deus. Na verdade, o nazismo surge da ariosofia, adaptação germânica da teosofia de Helena Blavatsky, que via na diversidade religiosa e espiritualista uma “sabedoria secreta” comunicável através de raças sagradas que aguardariam o aparecimento de uma raça superior espiritualmente. Era um prato cheio para os alemães que buscavam há séculos uma identidade espiritual depois de terem sido apartados da tradição verdadeira. (Na mesma época, a mesma doutrina foi adaptada pelos neoalthusianos eugenistas da América do Norte, como Margaret Sanger, que viam o surgimento dessa raça prometida nos EUA, fundamentando conceitos de raça às organizações filantrópicas).

Rudolf Steiner, embora alemão, dizia que esse despertar espiritual viria na Rússia, enquanto outros defendiam um despertar universal que deu origem ao movimento New Age, que aparentemente desconstruía a ideia dos nacionalismos. Esse movimento esotérico buscou resgatar um universalismo espiritual, inspirado na primeira ruptura com o catolicismo (o liberalismo) para impulsionar um domínio global de novos valores e novas crenças. Esta utopia é a base espiritualista do globalismo.

O globalismo surge de uma bifurcação do nacionalismo etnico-racial, interpretado em chave espiritualista, que interpreta essa “nova raça espiritualmente superior” como um tipo de “espírito dos tempos” que incidiria sobre toda a Terra (mãe Terra) em uma espécie de despertar global da paz. Neste sentido, a linguagem desses globalismo se articula entre o secularismo tecnocrático e o espiritualismo cósmico — a depender do público e da preferência do interlocutor. Muitas vezes, erroneamente interpretado como mero materialismo liberal ocidental por correntes do nacionalismo do século XXI, como veremos a seguir.

Paralelamente, surgia o nacionalismo de caráter socialista e popular, que, desde o jacobinismo revolucionário até o fascismo e os nacionalismos comunistas, exaltava a mobilização das massas em torno de uma ideia de igualdade e revolução social. Para os socialistas, a Igreja Católica era vista como força conservadora e inimiga do “povo em armas”.

Nacionalismos anticoloniais

No século XX, a onda de descolonização produziu novos nacionalismos pós-coloniais, sobretudo na África e na Ásia. Eles misturavam ideais socialistas, tradições locais e muitas vezes um componente religioso não cristão, como o islamismo ou o hinduísmo. Ainda que servissem como instrumento de emancipação política, eram, em regra, hostis ao catolicismo, visto como herança do colonialismo europeu.

Da mesma forma, os nacionalismos laico-islâmicos, como o kemalismo na Turquia ou o nasserismo no Egito, tentaram conciliar modernização estatal com identidade cultural islâmica, frequentemente em confronto com a herança cristã.

Século XXI: o nacionalismo neopagão e a multipolaridade

Por fim, no final do século XX e início do XXI, emergiram formas de nacionalismo neopagão ou identitário, muitas vezes associadas a movimentos de extrema-direita em reação ao globalismo universalista. Essas correntes procuram recuperar mitos e símbolos pré-cristãos para fundar uma identidade alternativa, em oposição direta à tradição católica, vista como universalista e niveladora.

De um lado, está a matriz originária do nacionalismo, em plena sintonia com a ortodoxia católica, que via a nação como expressão política da Cristandade. De outro, uma série de matrizes modernas e contemporâneas que, cada uma a seu modo, contrariam o catolicismo: seja pelo secularismo liberal, pelo culturalismo romântico, pelo racialismo biológico, pelo socialismo revolucionário, pelo pós-colonialismo de corte marxista ou islâmico, ou pelo neopaganismo identitário.

É a partir desse terreno de ruptura que surgem as ideologias contemporâneas da chamada “terceira posição”. Apresentadas como alternativa tanto ao liberalismo capitalista quanto ao marxismo, essas correntes não retomam a base católica original do nacionalismo. Ao contrário, herdam elementos das matrizes não católicas: a valorização do mito e da cultura própria do romantismo, a mobilização total do povo do nacionalismo socialista, o etnonacionalismo do racialismo e a recusa da modernidade liberal.

Intelectuais como Martin Heidegger contribuíram com categorias filosóficas que serviram de base para essa reelaboração. Sua crítica ao racionalismo técnico e sua ênfase na identidade autêntica do Volk fornecem um substrato que pode ser facilmente reinterpretado em chave nacionalista radical, porém igualitário e relativista. Releituras igualmente radicais e abertamente gnósticas, como as de Alexander Dugin, misturam essas influências com esoterismo, geopolítica e um imaginário tradicionalista que, longe de restaurar a Cristandade, acaba por promover projetos de poder fundamentados em mitos, paganismo e uma oposição total ao ideal de um Ocidente cristão.

O fio dessa história dos nacionalismos mostra um grande e assustador contraste: o nacionalismo nasceu ligado ao catolicismo e à unidade espiritual da Cristandade, mas, ao longo da modernidade, foi sendo gradualmente secularizado, etnicizado ou paganizado. No presente, as ideologias de terceira posição não representam uma volta à raiz católica, mas uma radicalização dessas matrizes desviadas, que fazem do nacionalismo um instrumento de projetos anticatólicos, ainda que revestidos de linguagem tradicionalista.

As acusações da esquerda, portanto, que associam ao nazismo todo tipo de nacionalismo, faz parte de um corte seletivo da história dos nacionalismos. Muitos católicos, sedentos por responder à esquerda essas acusações, acabam por vincular-se a matrizes erradas desse culto à nacionalidade. Conhecer essas bases é fundamental não apenas para não dar munição ás acusações narrativas, mas, antes disso, para manter-se dentro do verdadeiro caminho que é a Santa Igreja Católica, único nacionalismo lícito e espiritualmente eficaz para alcançar a Pátria Celeste. Isso não quer dizer que não possamos defender nossas nações contra ataques externos. Mas é fundamental compreender que a verdadeira identidade está na Verdade, sendo esta um atributo exclusivo da Igreja Católica, fora da qual não há salvação. Uma vez afastado da comunhão com a Barca de Pedro, cessam os fluxos de graça que podem dar a vitória a qualquer povo ou civilização.

A conclusão desse percurso histórico dos nacionalismos nos parece indicar um trajeto direto ao estabelecimento de um reinado do Anticristo. Caso os conservadores católicos não percebam a tempo a verdadeira raiz da defesa das nações a que pertencem, todo esse turbilhão ideológico conduzirá ao seu objetivo final e derradeiro, trágico e final. Resta-nos, aos católicos devotos, a promessa feita por Nossa Senhora em Fátima: “por fim, o meu Imaculado Coração Triunfará”, fato cuja fé devemos ter firmes, mas sabendo que a principal ameaça parece-nos, no atual momento, os previstos erros da Rússia.

Autor

  • Cristian Derosa
    Cristian Derosa

    Jornalista e escritor, autor do livro O Sol Negro da Rússia: as raízes ocultistas do eurasianismo, além de outros 5 títulos sobre jornalismo e opinião pública. Editor e fundador do site do Instituto Estudos Nacionais

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