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O que é o “neo-romantismo” celebrado por príncipe maçom brasileiro

26/09/2025
em Artigos EN
Tempo de Leitura: 4 mins de leitura
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São cada vez mais frequentes as confirmações do processo de decadência espiritual que o Instituto Estudos Nacionais tem diagnosticado no meio conservador brasileiro e internacional, o que explica a atual situação geopolítica. Entre as causas disso está a profunda indiferença e mesmo um desinteresse culpado de parte dos católicos envolvidos na política do Brasil, que convenientemente alçaram carreira com o rótulo de conservadores e até de cristãos.

Um dos nossos alertas mais inconvenientes para o público conservador zeloso das estratégias políticas e astúcias homéricas é a previsão, confirmada diariamente, de que os movimentos de direita não caminham apenas para longe da comunhão com a Igreja, mas já abrem as portas infernais do anticatolicismo militante. Vejamos.

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Em um artigo publicado na Gazeta do Povo, no dia 26 de setembro, o príncipe e deputado federal, e maçom, Luiz Philippe de Orleans e Bragança, sobrinho do atual chefe da Casa Imperial do Brasil, celebrou entusiasticamente a chegada de um nem tão novo movimento cultural que ele chamou acertadamente de Neo-Romantismo. Intitulado “Mudança cultural: o despertar do movimento Neo-Romântico”, o texto festeja a chegada do movimento, mas o associa a um tipo de conservadorismo pautado pelo “resgate das tradições”, impulsionado a partir da morte do ativista cristão norte-americano Charlie Kirk. Mas que tradições esse movimento diz representar?

O que há de verdade no artigo publicado pela Gazeta do Povo? Será que os católicos, ou os conservadores em geral, devem mesmo festejar a notícia dada pelo príncipe maçom e liberal? Quem leu nosso último texto sobre os nacionalismos e suas matrizes históricas e espirituais com certeza já percebeu o erro do príncipe. Mas vamos lá.

Sabemos que Luis Philippe pertence à ala maçônica da família imperial, responsável indireta (ou direta?) pela cruel perseguição ao catolicismo que levou à prisão de parte do clero como Dom Vital, mártir da luta anti-maçônica da Igreja no século XIX. Naquela época, a animosidade entre a Santa Sé e a Maçonaria havia chegado ao auge graças a documentos vazados nos quais a seita esotérica prometia infiltrar-se na Igreja. Diante disso, sucessivos papas promulgaram documentos e alertas antimaçônicos aos fiéis que culminaram no anúncio da pena de excomunhão para católicos que se filiassem à organização.

Será este o romantismo que o príncipe quer restaurar?

Importante aqui o leitor não confundir o referido deputado com a outra parte da família, aquela representada pelo tio, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, bisneto da Princesa Isabel e atual Chefe da Casa Imperial, que busca reforçar a devida comunhão com a Santa Igreja. Dom Bertand, por ter sido discípulo direto do professor católico Plinio Corrêa de Oliveira, jamais celebraria um retorno ao Romantismo. Mas o que há de bom ou de ruim nesse movimento, afinal?

Vejamos pelas próprias palavras do príncipe maçom o que de fato significa esse “retorno” das tradições e de um espírito conservador.

Assim ele anuncia (grifos nossos):

O que está acontecendo? É um retorno aos valores do Cristianismo? É um levante político? Na verdade, é algo mais amplo. Estamos vendo o surgimento do movimento Neo-Romântico.

Ou seja, nas palavras dele, parece ser algo “mais amplo” do que um “retorno dos valores do Cristianismo”. Mas o que pode ser mais amplo, isto é, em certa medida, superior?

Enquanto o Iluminismo valorizava o homem, a razão, a tecnologia, a ciência e o progresso acima de tudo, o Romantismo exaltava a ordem natural, a fé, o mistério, a emoção, a natureza e a tradição como valores superiores.

Seriam esses valores superiores à Igreja Católica? Aparentemente, a resposta pode ser negativa. Mas, na prática e na história do movimento, é claro que sim. Afinal, a modernidade, tanto da parte dos classicistas quanto dos românticos, trazia o anseio de substituir o lastro dos valores desde a Igreja, característica do período medieval, para a individualidade, a mente ou a alma livre, típicos da revolução em seu espírito de constante transgressão da ordem divina, expresso no termo “ordem natural” que trazia o naturalismo.

A primeira obra que o príncipe maçom exalta é Os Sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, que nas palavras do príncipe, “narra a intensa paixão de um jovem artista, capturaram a essência do individualismo e da emoção”.

“O impacto de Werther foi tão profundo que desencadeou uma onda de identificação, simbolizando a transição do racionalismo iluminista para a valorização da emoção e da natureza”, escreve Luis Philippe.

Ora, na verdade o que o livro de Goethe desencadeou foi uma onda de suicídios que causou grande preocupação na época. Mas não para por aí. O príncipe celebra uma série de obras literárias e supostos avanços que, na verdade, estão na base de diversos erros. Se eles podem ser reaproveitados (e de fato podem) não se pode ocultar o que hoje sabemos dos seus efeitos na cultura humana, isto é, o que a modernidade que veio a seguir fez deles realmente.

Continua ele:

A essa obra seguiram-se Frankenstein, de Mary Shelley, na Inglaterra; O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo, e As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, na França. Na música, surgiram expoentes como Beethoven, Chopin, Verdi e Wagner.

Graças ao benefício que temos por termos nascido depois e observado os efeitos, sabemos que Frankenstein foi a imagem mais típica do Prometeu moderno, tradicionalmente cara à Maçonaria, típico mito romântico que exaltou a rebelião contra a ordem estabelecida e contra Deus. A obra critica a moral tradicional, substituindo a noção de pecado pela de “erro científico” e acaso, prenunciando o transumanismo cientificista que veio depois.

Já em As Flores do Mal, de Charles Baudelaire, também celebrado pelo príncipe revolucionário, mergulha no campo explícito da estética satânica e decadentista. O poeta explora temas como a blasfêmia, a sensualidade pervertida, a necrofilia e o culto da dor, invertendo símbolos cristãos e transformando a beleza em experiência ligada ao vício e à degradação. Sua poesia se apresenta como uma liturgia alternativa, marcada por referências ocultistas e esotéricas, próximas da sensibilidade maçônica e pagã, que via na arte um instrumento de emancipação contra a moral católica. Na época em que foi lançado, o livro foi condenado pela Justiça francesa justamente por seu caráter “imoral” e corrosivo para a sociedade, refletindo como o Romantismo, em sua vertente mais radical, se afastava da ordem social fundada na moral ainda vigente. Mas é claro que, dada a distância temporal, em nossos dias o início do processo revolucionário até nos parece conservador.

Tanto Shelley quanto Baudelaire ilustram como o Romantismo, ao romper com a tradição católica, abriu espaço para um imaginário marcado pelo paganismo, pelo esoterismo e pela inversão simbólica, preparando o terreno para ideologias modernas contrárias à fé e à ordem social herdadas do catolicismo.

Mas depois do que o autor do artigo chamou de “introdução informativa”, esclarece finalmente como funciona a o motor da história, revelando-nos a sua verdadeira cosmovisão.

“O que você não sabia — porque seu professor não ensinou — é que o tempo não corre como uma linha em que os movimentos se diversificam em características aleatórias, mas se repete como uma espiral em que as ideias são retomadas em diferentes momentos”.

Ora, a visão da história como uma espiral é típica dos movimentos esotéricos e pagãos, justamente aqueles que estão sendo resgatados pelo tradicionalismo perenialista de caráter gnóstico, além dos cultos neopagãos dos nacionalismos identitários pós-modernos (e antimodernos) do duguinismo, eurasianismo e da nova multipolaridade igualitária.

Classicismo versus Romantismo?

Por fim, Luiz Philippe festeja o antigo Romantismo como um antídoto subjetivista e libertador contra o racionalismo calculista e sufocante do Iluminismo, que conduziu aos horrores da Revolução Francesa. Ora, mas o que o professor maçom do príncipe provavelmente não contou a ele é que ambos os movimentos foram fases distintas do movimento revolucionário, sendo o classicismo a revolução racionalista que levou à política e que, diante do fracasso e descrédito pelos efeitos catastróficos, migrou para o imaginário e a cultura. A prova disso ele demonstra no próprio artigo: depois do Romantismo, veio o que? O Realismo e a Modernidade.

Acontece que, como filhos do mesmo humanismo da Renascença, ambos os movimentos fazem parte do esforço revolucionário de buscar uma ordem natural fora da Igreja. A Revolução, como espírito de rebeldia universal, busca a ordem em qualquer lugar, exceto na Igreja Una Santa e Católica, pois ela é tudo o que a oprime e afasta, rejeita e esmaga a cabeça.

Dessa forma, enquanto o Classicismo buscava a ordem através de uma harmonia universal, filosófica, mental e científica, o Romantismo a procurava no “espírito humano”, através da expressão subjetiva e da emoção, acreditando que sentimentos profundos revelam aspectos universais da existência. É claro que, se hoje estamos em um tipo de repetição (pois o diabo não é criativo, mas apenas astuto), vivemos uma mudança do conservadorismo clássico e racionalista (liberalismo econômico, político) para o conservadorismo identitário (libertário, subjetivista, culturalista e igualitário). É nesta onda que surfam os neofascistas sobre os quais tanto alertamos.

Portanto, se Luiz Philippe acerta na percepção, pois de fato o Romantismo está voltando, erra muito mais ao indica-lo como antídoto contra a modernidade ou pós-modernidade, pois trata-se do mesmíssimo movimento, com a assinatura do mesmo espírito revolucionário que conduz tanto os humanistas quanto os maçons libertários da nova direita.

Autor

  • Cristian Derosa
    Cristian Derosa

    Jornalista e escritor, autor do livro O Sol Negro da Rússia: as raízes ocultistas do eurasianismo, além de outros 5 títulos sobre jornalismo e opinião pública. Editor e fundador do site do Instituto Estudos Nacionais

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