(Trecho adaptado do e-book Neofascismo cultural: a última revolução)
Os neofascistas atuais, assim como os maçônicos herdeiros dos humanistas da Renascença, falam em nome da filosofia de Platão, enganando uma multidão de incautos de que essas doutrinas heréticas são “tradições filosóficas”. Para os católicos, há sempre os que apelam para a autoridade de Santo Agostinho. Mas será que o santo legitimou tantos erros como vimos hoje?
A verdade é que o pensamento de Platão exerceu influência decisiva sobre a filosofia cristã primitiva, sobretudo através da recepção feita por Santo Agostinho (354–430). Para o bispo de Hipona, as ideias platônicas eram vistas como uma preparação para o Evangelho, uma vez que reconheciam a existência de realidades eternas e imutáveis acima do mundo sensível. Agostinho interpretou a teoria das Ideias como uma antecipação da doutrina cristã sobre as verdades eternas existentes na mente divina, ou seja, no próprio Deus. O dualismo platônico entre o mundo sensível e o mundo inteligível não foi para ele um convite à rejeição da criação, mas um meio de compreender a hierarquia entre o transitório e o eterno, entre a ordem criada e o Criador. Assim, no cristianismo, a filosofia de Platão foi purificada dos erros, conservando a bondade da criação, a centralidade da encarnação e a necessidade da graça para alcançar a verdade plena. Paralelamente, porém, Platão foi sendo resgatado com intenções diversas que vão do gnosticismo ao espírito esotérico da renascença, chegando até as ideologias revolucionárias modernas e os regimes totalitários.
Esoterismo e gnose neoplatônica
A purificação católica do platonismo, porém, se distingue profundamente das leituras feitas pelos gnósticos antigos e, mais tarde, pelas correntes espiritualistas do Renascimento. Os gnósticos, já nos primeiros séculos, deturparam o platonismo ao radicalizar a separação entre espírito e matéria. Para eles, o mundo material não era uma criação boa de Deus, mas uma prisão elaborada por um demiurgo inferior e hostil ao verdadeiro Deus. Essa visão, estranha à ortodoxia cristã, resultava numa espiritualidade elitista e secreta, na qual apenas um grupo iluminado possuía acesso ao conhecimento (gnosis) que libertava da matéria. Contra isso, a Igreja primitiva — em especial através de autores como Irineu de Lião e Agostinho — afirmou a bondade da criação e a universalidade da salvação oferecida por Cristo.
No Renascimento, o ressurgimento do interesse por Platão e Plotino, através da redescoberta de textos gregos e da tradução promovida por Marsílio Ficino, deu origem ao chamado neoplatonismo renascentista. Embora apresentasse afinidades com temas cristãos — como a busca pela unidade e a contemplação do Uno —, esse movimento foi permeado por correntes herméticas, cabalísticas e mágicas que se distanciavam da ortodoxia da Igreja. Ao invés de ver no platonismo um suporte racional para a fé, como fizeram os Padres, os neoplatônicos do Renascimento buscaram nele justificativa para práticas esotéricas, como a astrologia, a alquimia espiritual e a magia natural. A figura de Giordano Bruno é emblemática: em vez de reconhecer a transcendência de Deus, ele reinterpretou a unidade do ser em termos panteístas, identificando o divino com a infinitude do cosmos.
Essa inflexão neoplatônica distorceu a concepção cristã da participação no ser divino. Enquanto para Agostinho a elevação da alma a Deus se dava pela graça e pela caridade, para muitos neoplatônicos renascentistas a ascensão espiritual tornou-se um processo autônomo de autodeificação. Essa mudança abriu caminho para a formação de doutrinas esotéricas modernas, como a teosofia e as correntes ocultistas do século XIX, que reivindicavam um conhecimento secreto capaz de libertar o homem das limitações materiais e religiosas. Nesses sistemas, a herança platônica aparece mesclada com elementos herméticos e orientais, afastando-se cada vez mais da concepção cristã de uma verdade revelada, histórica e acessível a todos.
Em síntese, a diferença central está na forma como Platão foi integrado: Santo Agostinho e a Igreja viram em sua filosofia um prenúncio das verdades cristãs, purificando-a e subordinando-a à revelação divina. Já os gnósticos e os espiritualistas do Renascimento transformaram Platão em base para sistemas alternativos de salvação, que negavam a bondade da criação e substituíam a graça por um elitismo esotérico. Dessa cisão nasceram as correntes modernas de espiritualidade ocultista, que permanecem em oposição à doutrina católica, por pretenderem substituir a verdade revelada por uma gnose secreta e autossuficiente.
Neoplatonismo: dos velhos erros à versão atualizada
Desde a Antiguidade, como vimos, o platonismo foi alvo de múltiplas leituras fora do horizonte católico, muitas vezes distantes da interpretação feita por Santo Agostinho e pela tradição católica verdadeira.
A primeira grande deturpação ocorreu no gnosticismo dos séculos II e III, que radicalizou o dualismo platônico. Enquanto Platão via o mundo sensível como uma sombra imperfeita, mas ainda participando do Bem, os gnósticos o consideraram obra de um demiurgo malévolo, uma prisão da alma. Essa visão elitista e secreta transformou a ascensão da alma em libertação da matéria por meio de um conhecimento esotérico reservado a poucos iniciados, em contraste com a universalidade da salvação cristã. Esta foi a base dos primeiros gnósticos e dos maniqueus.
No fim da Antiguidade, surgiu o neoplatonismo pagão, com Plotino, Porfírio, Jâmblico e Proclo. Embora mais fiel a Platão do que os gnósticos, essa corrente interpretava o Uno como princípio absoluto e via o cosmos como uma cadeia de emanações. A prática da teurgia — rituais destinados a unir a alma ao divino — deu ao neoplatonismo um caráter místico e esotérico, que influenciaria tradições ocultistas posteriores. Essa vertente inspirou tanto pensadores islâmicos e judeus medievais quanto filósofos renascentistas que vieram em seguida.
No Renascimento, com a redescoberta de textos platônicos e herméticos, o platonismo foi reinterpretado como parte de uma prisca theologia, sabedoria primordial comum a todas as religiões. Autores como Marsílio Ficino e Pico della Mirandola buscaram harmonizar Platão com a cabala judaica e o hermetismo, enxergando nele um guia para ascensões espirituais autônomas. Mais tarde, Giordano Bruno radicalizou esse neoplatonismo ao propor um universo infinito e divino, de caráter panteísta, onde o Uno se confundia com a totalidade do cosmos. Essa inflexão levou Platão a ser lido como mestre de doutrinas ocultistas, fundindo filosofia, magia e astrologia.
A Renascença foi o resultado de um movimento místico igualitário, e portanto revolucionário, que oferecia uma alternativa à hierarquia da Igreja Católica. Ele tornou possível a ciência moderna, que deu ao mundo a ideologia cientificista e o retorno do dualismo pagão sob a aparência materialista do cartesianismo. Isso abriu as portas finais para a entrada do espírito de rebelião metafísica que foi a revolução da modernidade.
No século XIX, tais correntes se cristalizaram em movimentos esotéricos modernos. A teosofia de Helena Blavatsky, o ocultismo de Eliphas Lévi e o rosacrucianismo reinterpretaram Platão em chave de “sabedoria perene”, alegando que suas doutrinas eram fragmentos de uma tradição universal secreta. Ao mesmo tempo, sociedades como a maçonaria esotérica absorveram símbolos platônicos para construir ritos iniciáticos. Nesse ambiente, Platão deixou de ser visto como filósofo racional e tornou-se um iniciador de mistérios espirituais.
Nos centros chamados “Nova Acrópole” os teosofistas ensinam gnose sob o slogan de “filosofia à maneira clássica”. Ou seja, há uma dívida histórica e filosófica com o espírito do renascimento e dos humanistas no esoterismo maçônico e rosacruz moderno que fundamentou tanto o nazismo quanto o espiritualismo gnóstico que vigorava na Rússia pré-comunista, possibilitando a entrada dos messianismos eurasianos que hoje vemos como resultado. Mas não para por aí.
Perenialismo e duguinismo: de volta à Renascença
No século XX, essas leituras desembocaram no chamado tradicionalismo esotérico, desenvolvido por René Guénon e Julius Evola. Para eles, Platão representava um elo da Tradição primordial, um pensador que exprimia verdades espirituais absolutas que se opunham ao materialismo moderno. Evola, em particular, resgatou o platonismo político para justificar hierarquias e ordens espirituais contra a democracia liberal.
É exatamente nessa linhagem que se encontra Alexander Dugin, o guru do neofascismo moderno. Embora declare oposição tanto ao liberalismo quanto ao marxismo e ao fascismo clássico, ele constrói sua “Quarta Teoria Política” sobre bases que reinterpretam Platão em chave tradicionalista-esotérica. Para Dugin, o mundo das Ideias é uma realidade superior que fundamenta hierarquias culturais e civilizacionais. O destino histórico dos povos não decorre de leis universais, mas de sua ligação com essências espirituais. Essa leitura aproxima-o não de Agostinho ou da Igreja, mas do neoplatonismo esotérico renascentista e, sobretudo, do tradicionalismo de Guénon e Evola, que transformaram Platão em mestre de uma “tradição oculta” a ser resgatada contra a modernidade ocidental.
Assim, enquanto a Igreja católica viu em Platão um preparador do Evangelho e um aliado racional da revelação, os gnósticos, os neoplatônicos pagãos, os hermetistas renascentistas e os ocultistas modernos o deformaram em profeta de gnoses secretas e de projetos espiritualistas alternativos. Dugin se insere nesta última vertente, pois sua apropriação de Platão serve a uma visão política e mística de cunho esotérico, em oposição ao universalismo cristão e às categorias racionais da modernidade.
No mundo da internet, em que a liberdade digital aparece como um quase mito libertador, essa gnose ressurge sob a forma da busca por conhecimentos secretos e supostamente profundos, expressos numa estética específica que une e comunica grupos e movimentos que compartilham os mesmos sentimentos de isolamento e ódio ao mundo, expresso facilmente pela mesma linguagem gnóstica antimoderna e antissocial.







