Os protestos da chamada Geração Z, ocorridos no Nepal a partir desta quarta-feira (8), revelam mais do que uma mobilização local e espontânea contra corrupção, desemprego e censura digital: eles expressam um ato de identidade ideológica muito clara que se repete em várias partes do mundo ao longo das últimas décadas. Se os movimentos são realmente espontâneos, como se diz, ainda não se sabe. O fato é que eles carregam uma grande e potencial oportunidade a certas agendas ideológicas que detém as condições materiais para transforma-las em vantagem narrativa e política.
A letra Z é a última do alfabeto, indicando um pretexto de fim dos tempos ou de evento escatológico. Essa é uma das prerrogativas dos movimentos de terceira posição, alinhados, por exemplo, à agenda russa de Alexander Dugin. Mas há mais elementos ligados à diversidade ideológica que podem ser utilizados, a depender dos próximos posicionamentos da própria mídia ocidental e local.
No Brasil, a direita política já começa a festejar na sua proverbial ingenuidade, buscando associar-se a essa “onda libertária” supostamente antiglobalista. Será isso mesmo?
Existe uma grande possibilidade do evento atual ter uma relação geopolítica e imperial com os conflitos recentes entre China e Índia, países que tem o Nepal como território limítrofe.
Liderança discreta
É comum vermos afirmações de que esses protestos são fruto de uma “juventude espontânea, integrada à internet” etc, como se a ausência de líderes claros e declarados fosse evidência de uma coordenação coletiva. Evidentemente, é possível conduzir as emoções das massas há muito tempo, e a cultura pop pós-moderna possui fartos elementos para isso. Com a tecnologia chinesa isso seria ainda mais facilitado.
Coincidência ou não, os atos do Nepal são semelhantes aos Protestos contra o Projeto de Lei de Finanças do Quênia , ocorridos em junho a agosto de 2024, no país africano, contra aumentos de impostos. Podem ser associados igualmente à Revolução de Julho (Bangladesh), uma revolta em massa de ocorrida simultaneamente, entre julho e agosto de 2024, em Bangladesh, também conhecida como “Revolução da Geração Z”. Também se assemelham com a chamada Primavera Árabe, ocorrida em 2011 no Egito e em outros países.
Fato inegável é que vivemos um período de ebulição revolucionária, no qual reações ao “sistema” têm sido facilmente capitalizados e redirecionados a caminhos desconhecidos. Movimentos geopolíticos e forças midiáticas guardam, em suas mãos, grandes ferramentas de manipulação das sensibilidades políticas das massas, como as redes sociais e seus algoritmos. Um levante “popular” surgido das redes deveria ser, a princípio, altamente suspeito.
No entanto, chama a atenção o fato do próprio movimento surgir usando diretamente o termo Geração Z, ou Gen Z, em cartazes, que se refere aos jovens nascidos já no universo da internet, conectados em rede e com forte consciência de pertencimento coletivo. Isso indica uma identidade consciente, muito menos difusa do que se costuma descrever esse tipo de movimento.
Agenda globalista
No Nepal, a proibição governamental das redes sociais parece ter sido a faísca que acendeu grandes frustrações já acumuladas no país, levando jovens a ocupar as ruas em protestos que rapidamente ganharam dimensões nacionais e repercussão internacional. Os valores do movimentos são já velhos conhecidos: liberdade de expressão, anticorrupção, transparência, empoderamento juvenil, liberdade digital. Causas frequentemente beneficiadas por grandes incentivos financeiros por parte de ONGs globalistas.
Pensemos em algumas entidades internacionais que têm histórico de atuação no Nepal há anos, como a Open Society Foundations (OSF), que financiou projetos de educação cívica, mídia independente e iniciativas anticorrupção no Sul da Ásia. Ou a National Endowment for Democracy (NED, EUA), que apoiou ONGs nepalesas focadas em transparência e liberdade de imprensa. Também é o caso da Freedom House – ligada a monitoramento de direitos civis e digitais.
Os protestos guardam semelhanças com outros ocorridos recentemente. Em 2010 e 2020, em Hong Kong, a juventude articulada pela internet inventou um modelo de mobilização fluida, sem lideranças aparentes, sintetizado no lema be water, que inspira ativismos ainda hoje. Em 2019, no Chile, estudantes secundaristas iniciaram a revolta contra o aumento da tarifa do metrô, que logo se transformou em um “estallido social” contra a desigualdade estrutural e abriu caminho para um processo constituinte e, posteriormente levou à eleição do esquerdista Gabriel Boric.
No Irã (2022–2023), os protestos detonados pela morte de Mahsa Amini foram protagonizados por jovens que desafiaram simultaneamente a repressão estatal e o bloqueio das plataformas digitais, repetindo táticas de comunicação clandestina comuns em países ocidentais.
Já na Primavera Árabe (2011), percebia-se a potência de uma juventude capaz de articular-se em rede, utilizando Facebook e Twitter como instrumentos de mobilização em massa contra regimes autoritários. Eventos posteriores mostraram a participação ativa da esquerda financeira, envolvendo o grupo de hackers internacionais Annonymous, ligados à defesa da liberdade digital.
Agenda multipolar
Ao mesmo tempo, porém, essas movimentações parecem indicar uma agenda identitária nacionalista, pauta igualmente favorecida pelo eixo BRICS, que usa nacionalismos para afastar países da influência ocidental dos Estados Unidos.
Logo após os protestos, o jornal India Today buscou enquadrar os protestos num levante antiocidental, marcada característica do bloco BRICS do qual faz parte a Índia, tendo no Nepal um território cobiçado contra a China. A cobertura da mídia chinesa e indiana sobre os protestos no Nepal reflete as diferentes perspectivas geopolíticas e interesses estratégicos de cada país em relação ao vizinho himalaio.
De um lado, a mídia indiana enfatiza a instabilidade, buscando incendiar o protesto. De outro, a China parece indicar a defesa do governo anterior, em defesa de uma estabilidade política no país.
Os protestos da Geração Z no Nepal não podem ser vistos como um evento isolado: eles se inscrevem em uma rede informal de lutas interligadas, que atravessam fronteiras e convergem em estratégias digitais, repertórios de protesto e símbolos culturais. Esta tem sido uma especialidade da Rússia e da China em suas narrativas antiocidentais declaradas. Evidentemente, o verdadeiro alinhamento dos protestos poderá não ser dado pelos próprios manifestantes, até por uma questão estratégica, mas pela mídia que é conduzida pela própria agenda maior, num enquadramento que se beneficia dos fatos para concede-los o sentido esperado.







