Nos últimos anos, os fãs de quadrinhos de super-heróis têm assistido, com grande decepção e escândalo, a uma avalanche de “apropriação ideológica” das histórias e personagens favoritos da sua infância e adolescência (ou mesmo na vida adulta). Simultaneamente, também temos visto conservadores, ou setores da direita política, tentando fazer, em resposta, o movimento oposto: em busca de “salvar” seus entretenimentos da adolescência tardia, procuram analogias com valores democráticos, liberais e até cristãos, criando assim um suposto contraste entre os personagens originais e suas versões “progressistas”. Nada é mais falso do que isso.
Antes mesmo de se tornarem gays e militantes, os super-heróis já vem sendo substituídos por vilões devido a uma estética cada vez mais demoníaca. Não se trata de uma ruptura, mas, antes, se deve à própria origem revolucionária desses mitos modernos, cuja potencialidade só serve e servirá ao mal. Ao contrário do que se pensa, a glorificação dos vilões, como Coringa e outros, não constitui uma ruptura do mito do herói moderno, mas a sua continuação: a nova virtude do heroísmo, destituída da sua raiz verdadeira e católica, a partir do resgate do paganismo ou do secularismo antropocêntrico, só pode evoluir para a adoração do mal.
Basta que observemos. Afinal, essa suposta “apropriação revolucionária” não teria sido possível se as próprias criações desses personagens e histórias não trouxesse, originalmente, já o elemento revolucionário mais característico da modernidade. Como sempre, os conservadores atuais desistiram de lutar contra o movimento revolucionário como ele é, mas resumem-se a combater o seu radicalismo estético, elemento de incômodo morais e aparentes ou meramente no campo da ideologia política do momento.
O escândalo de conservadores com a atual invasão de panfletagem ideológica nas histórias de super-heróis, mostra o grau de inconsciência em que vivem os que desde a infância consomem produtos revolucionários e pretendem continuar, chegando ao ponto da nostalgia de quando esses produtos disfarçavam melhor o seu veneno. Ou seja, ao invés de combater o processo revolucionário por inteiro, combate-se a sua mais recente manifestação, com saudosismo da fase anterior.
Não é à toa que conservadores dos últimos anos parecem empenhados em dar um sentido conservador, e até cristão, a essas criações. Trata-se do mesmíssimo fenômeno da mitologia grega, só que com bem menos competência e sofisticação retórica que os seus mestres da Renascença tiveram. Ora, vejamos.
O mito dos super-heróis nada mais é que uma nova versão do que os renascentistas fizeram com os mitos gregos: versões ficcionais e não cristãs dos valores e virtudes expressos e consagrados na cultura ocidental pela Igreja Católica, como forma de tirá-la de cena para dar lugar a um imaginário, no fundo, anticristão.
Neste caso, vemos muitos exemplos tirados do contexto histórico em que foram criados, como o caso do Super-Homem, do Batman, e dos mais recentes, como X-men, bastante explorados na indústria cinematográfica atual. Nem precisamos aqui, como já fizemos com Tolkien, associar a quantidade imensa de simbolismos esotéricos, pagãos e anticristãos, junto de seus óbvios efeitos culturais na nossa história recente. Basta-nos contar a história do momento de sua criação.
Primeiros super-heróis e a “justiça social”
Superman, surgido em 1938, Batman, em 1939 e Capitão América, em 1941, surgiram no contexto da Grande Depressão, do avanço do fascismo e da guerra iminente. Em sua maioria, os criadores desses personagens eram filhos de imigrantes judeus pobres que viviam em Nova York (como Siegel, Shuster, Kirby, etc.), que viviam à margem do chamado “sonho americano”. Isso já dava um tom de contestação ao status quo. Afinal, seria preciso um “superman” para salvar os oprimidos, pois o sistema era ineficaz. Tratava-se de uma promessa messiânica ficcional e utópica, traço característico das ideologias revolucionárias modernas que classificavam o cristianismo como “alienação”.
Não por acaso, o Superma foi concebido como o “campeão dos oprimidos”: nas primeiras histórias, ele enfrentava políticos corruptos, especuladores imobiliários, patrões exploradores — antes de lutar contra supervilões ou extraterrestres. As ameaças de ETs e criaturas fantásticas surgiram depois, por volta dos anos 60, embalados pelo efeito cumulativo de histórias de fantasia que populavam o imaginário juvenil e alimentados pelo medo dos efeitos do progresso técnico, crítica pós-moderna manifestada pelo movimento hippie, desarmamento nuclear, contracultura, Beatles etc.
Ao contrário do que frequentemente se diz, o personagem não representa o capitalismo ou mesmo o liberalismo (supondo-se que isso fosse “conservador”), mas justamente o socialismo disfarçado, não por acaso baseado também no mito do super-homem de Nietzschie e de uma utopia de salvador que não era Cristo, assim como procuraram impor os regimes totalitários através de seus ditadores. Na democracia, como sempre, a tirania funciona como uma mera brincadeira inocente, disfarçada de entretenimento, para povoar o imaginário com sugestões e tendências que acumulam expectativas e frustrações como um “represamento” de desejos que impulsionará a próxima fase revolucionária.
Embora o super-homem pudesse trazer em si a ideia da superação individual do capitalismo e da oportunidade, no fundo era um mito ligado à ideia da justiça social.
Os super-heróis não surgiram do nada, mas das ideias em ebulição desde o final do século XIX, ligadas à necessidade de renovar os mitos iluministas revolucionários do antropocentrismo, ideologia da razão e potência humana.
Eles também encarnam o ideário da justiça social e humana fora do âmbito das instituições, seja do estado ou da Igreja Católica. Trata-se de um heroísmo secularista, também alheio às questões espirituais, que passam totalmente ao largo, praticamente nunca mencionados sem ser por meio de analogias muito distantes (e até forçadas por cristãos otimistas).
Culto à ciência e tecnologia
Modernidade e pós-modernidade são dois conceitos revolucionários que se alternam como pedaladas de uma bicicleta. De um lado, o medo do progresso técnico resultante do culto à racionalidade humana (pós-modernidade). De outro, a crença na capacidade humana ilimitada como solução única para as desordens e remédio contra os próprios excessos modernos, uma solução alcançável por meio de um tipo de “trasncendência”.
Assim, como parte integrante e decorrente do mesmo ideário iluminista moderno, os super-heróis aparecem indissociáveis do culto ao progresso científico: muitos heróis nascem de experimentos científicos, acidentes tecnológicos ou descobertas modernas (Homem-Aranha, Hulk, Flash). Isso reflete a confiança moderna de que a ciência pode recriar o ser humano e gerar poder emancipador. (transumanismo) Há quase uma crença numa “providência” científica, onde mesmo um acidente ou experimento maligno podem gerar um efeito positivo e que, no fundo, salva a todos de males maiores. É fácil concluir como a teoria Queer já estava ai, afinal, aquilo que na época era tido como desordens e doenças psicológicas, como a homossexualidade, transexualismo etc, já poderia ser facilmente interpretado como um “erro” biológico ou químico que se convertia em algo benéfico ou emancipador, no fundo, superior ao resto da humanidade.
Essa visão estava evidente já na criação dos X-Men. Eles foram criados por Stan Lee e Jack Kirby, em 1963, já no contexto que mencionamos da contracultura e contestação do capitalismo. Diferente da maioria dos heróis até então, os X-Men não eram superiores aos homens devido a um acidente ao acaso, mas devido a uma natureza inexplicável que os tornava mutantes.
Isso ecoa diretamente com a ideia moderna e revolucionária do “novo homem”, presente em Nietzsche, Marx, e nas demais utopias modernas, baseado no sonho de uma nova humanidade que rompe com a “velha ordem” (ancien regimen) A mutação genética é a metáfora de uma revolução biológica inevitável, em que a nova geração substituirá a antiga.
A Revolução é, assim como para Marx, inevitável e misteriosa, nascida de dentro do homem. Os mutantes são “o futuro da humanidade”, dividindo-os entre os que desejam usar seus poderes em favor dela (X-men) e os vilões, que querem destruí-la (Magneto e demais vilões mutantes). Mas a premissa de ambos é a mesma.
Dessa forma, desde o início os X-Men representam a juventude rebelde dos anos 1960, em oposição à sociedade “normal”, que os teme e rejeita. Daí para representá-la como a revolução LGBT não precisa muito. Eles já simbolizavam um anseio do Maio de 1968, revolução da qual a atual Ideologia de gênero é sucessora.
Charles Xavier e Magneto representam a dialética revolucionária, que vai do pacifismo para a revolução sangrenta, mas ambos efetuando precisamente o mesmo trabalho. Mesmo com Xavier representando o lado mais “moderado”, toda a narrativa reforça que os mutantes inevitavelmente tomarão o lugar da humanidade.
O culto de mundos imaginários
Muitos conservadores e pseudo-intelectuais costumam associar o poder didático e filosófico de histórias ficcionais a obras como a República, de Platão, ou Utopia, de Thomas Morus. O problema é que essas obras não se propunham inaugurar um novo imaginário que substituísse os valores, tampouco traziam novos valores utópicos, mas os criticavam baseados naqueles valores universais. Para a civilização católica, Platão só deve ser compreendido à luz da doutrina católica. Essa livre interpretação e uso filosófico da filosofia grega, como sabemos, foi obra dos humanistas anticatólicos (não por acaso, os cristãos que insistem na defesa dos super-heróis são adeptos das mentiras da “educação clássica”, como já escrevemos).
No caso das histórias em quadrinhos, inaugurou-se o verdadeiro culto à imaginação ficcional e a imagens falsas da realidade, com objetivo claro de criar novas realidades que servissem às novas tendências filosóficas e culturais. O tempo mostrou que este foi precisamente o efeito alcançado.
Os quadrinhos herdaram muito da literatura pulp e de ficção científica, que já eram impregnadas por ideias utópicas: sociedades futuras, revoltas contra tiranos, heróis que redimem a humanidade (no lugar de Cristo). Personagens como Buck Rogers e Flash Gordon são precursores diretos desse alicerce imaginário para as ideologias modernas. Eles já encarnavam a luta do indivíduo excepcional contra sistemas opressores, antecipando os líderes populistas não por acaso hoje vistos como super-homens (Bolsonaro, Trump, Lula, Bukele etc, etc).
Os super-heróis apenas deram uma roupa mítica moderna a esse arquétipo, cristalizando-o em figuras como Superman, um Prometeu moderno.
Portanto, a atual ligação com causas progressistas (pauta racial, de gênero, LGBT, ambientalismo, etc.) é um desdobramento contemporâneo natural do princípio do herói como símbolo de ruptura e justiça para excluídos, o que esteve presente desde o início.
Batman, um herói conservador?
O fato de Batman combater bandidos insanos, fora da normalidade, fazendo isso sem super-poderes e ser um homem rico, muitas vezes traz a ideia de que ele seria um herói conservador. Mas será mesmo? Da mesma forma, porém, Batman representa a justiça que funciona à margem do Estado e de Deus. É a justiça feita pelas próprias mãos. Isso corresponde à lógica revolucionária: quando as instituições falham, o indivíduo (ou o grupo) deve instaurar sua própria ordem.
Trata-se de uma crítica implícita às instituições “corrompidas” — uma ruptura com a noção tradicional de autoridade. Também encontramos nele o mito do “trauma fundador”. Sendo Bruce Wayne um homem traumatizado pela morte violenta dos pais enquanto criança, traz a ideia de que da dor e do caos nasceria uma nova identidade, crença típica das narrativas revolucionárias: a revolução exige ruptura violenta com o passado.
Batman possui grandes elementos gnósticos. Como símbolo da “nova era”, o morcego substitui a cruz, símbolo da ordem antiga, vista como falha e fracassada no intuito de combater o crime e a loucura, a anormalidade.
Gotham City nos lembra do conceito de anomia, de Emile Durkheim, que significa ausência de normas claras, que gera caos social. Gotham é o retrato disso: corrupção policial, juízes vendidos, políticos criminosos. Batman surge como tentativa de reconstituir normas em meio ao vazio. Ele é um “legislador paralelo”, criando coesão onde o Estado falhou. No Brasil, esse mesmo conceito está presente no filme Tropa de Elite, na pessoa do Capitão Nascimento, que funcionou como analogia popular (e populista) para personagens de Sérgio Moro, Alexandre de Moraes e o próprio Bolsonaro.
O símbolo do morcego, óbvia referência soturna e lúgubre que remonta aos filmes de terror, não é por acaso. A adoração e admiração ao mal como uma espécie de virtude de atemorização foi grande responsável e influenciadora da cultura gótica e dark moderna e urbana, que trouxe consigo uma “atualização” do interesse por ocultismo e admiração da loucura. O foco recente no Coringa não é por acaso.
Assim como nos mitos pagãos, os elementos satânicos estão presentes desde o início desses heróis modernos. Não seria possível heróis como Hellboy, Spawn, sem Batman e seus vilões doentios, contra os quais o próprio homem-morcego foi se tornando cada vez mais sádico.
Substituição do cristianismo por culto pagão
Idealizar personagens fictícios que representem valores, virtudes, etc, é precisamente o que faziam os pagãos da Grécia Antiga. Os deuses eram muito mais símbolos do que realidades acreditadas como tais. A própria ideia de Verdade absoluta, objetiva, só veio com Sócrates, que justamente questionava a natureza e realidade dos deuses gregos, abrindo uma porta que consagrou-se, séculos depois, no advento do cristianismo. Essa é a razão pela qual os humanistas da Renascença procuraram resgatar os clássicos gregos, para substitui-los pela filosofia Escolástica.
Por trás da comum acusação dos humanistas de que os padres da Igreja “cristianizaram” os gregos, estava o objetivo declarado de descristianizar o Ocidente através do estabelecimento de uma mitologia, sem base no real e sim no imaginário, dando margem à retroceder ao paganismo coletivista, onde o mito é apenas uma função social e não baseado num fato histórico, como o Advento de Cristo.
Para os adeptos da cultura clássica renascentista, não era mais preciso ler histórias de santos, pois havia Hércules, Prometeu, convenientemente transpostos a uma esfera de interpretação supostamente adequada a um cristianismo meramente teísta. Estava aberta a porta do secularismo militante que marcou a modernidade.
Feito isso, faltavam mitos perfeitamente alheios à Cristandade. Eis os super-heróis.
Afinal, se o catolicismo parte da ideia de que a salvação vem pela graça divina e pela mediação sacramental da Igreja, no universo dos super-heróis (e em boa parte da ficção moderna), a salvação vem de um homem elevado: o “novo homem”, seja por ciência (Homem de Ferro, Hulk), acaso cósmico ou biológico caótico (Quarteto Fantástico, X-Men) ou virtude excepcional de justiça (Batman).
O messianismo secularizado consagra no imaginário, em vez de Cristo, um Superman — literalmente descrito como “salvador da Terra”, mas sem referência a Deus, sem Igreja e sem cruz. Além de tirar Deus e a Igreja, também há o efeito de tirar os benefícios do sofrimento para a alma, sendo no máximo um valor social de sacrifício por ideais, mito perfeito dos “mártires da Revolução”, termo criado na Revolução Francesa.
Omissão e colaboração de católicos conservadores
Se hoje muitos jovens e adolescentes vivem imersos em um universo mental onde reina o caos e o acaso materialista, tudo isso é obra do culto aos super-heróis e a literatura de ficção, que tornou a Providência ou as causas espirituais para os fenômenos da vida, algo inverossímil, ridículo e digno de risos. A pretexto de “salvar” essa realidade, muitos conservadores defendem o uso quase abusivo de materiais ficcionais para a compreensão das virtudes, como uma espécie de “caminho de volta” à noção espiritualizada para que, em algum momento, possa-se voltar a falar da Igreja e dos Sacramentos.
Por traz dessa premissa, há uma falta de fé de que a humanidade atual não pode mais receber a verdade como ela é, necessitando de traduções criadas pelo homem, meios técnicos narrativos. Trata-se de uma dimensão sofisticada do culto à ciência e tecnologia humanas. Além disso, essas premissas também trazem a crença na ineficácia dos métodos consagrados pela Igreja no que diz respeito às formas de apostolado.
Dizia Dom Chautard, que a alma de todo o apostolado é a vida interior, a vida na graça e a colaboração humana com ela. Ora, como chegar a uma vida interior verdadeiramente católica por meio de heróis inventados pelo homem? Isso basta para compreender que, por mais bem intencionados que se mostrem ou se digam, os adeptos dessa vertente de apostolado estão redondamente enganados quanto aos meios de se obter o verdadeiro retorno a Deus.







