Em meio à tensão política entre Brasil e EUA, a crescente aproximação com a China no campo da IA, digitalização, infraestrutura de pagamentos e coordenação no BRICS tem construído, na prática, os alicerces para um sistema de controle social digital autoritário. Mesmo sem o nome de “crédito social”, os mecanismos já estão em curso, e o padrão de poder se aproxima perigosamente daquele utilizado pelo regime chinês.
No mesmo passo em que o governo brasileiro escala tensões geopolíticas com os EUA, nas últimas semanas, o governo também vem estreitando sua parceria com a China em setores estratégicos, como inteligência artificial, economia digital, pagamentos tecnológicos e infraestrutura tecnológica, com o aval do próximo Sommet do BRICS no Rio de Janeiro.
Esses acordos, celebrados sob o guarda-chuva da “soberania digital” e do combate à “desigualdade global”, abrem caminho para uma arquitetura de controle social digital com características autoritárias. Trata-se da plataforma ideológica do BRICS, baseada numa multipolaridade igualitária que procura corrigir os anseios do progressismo da ordem global vigente.
O entusiasmo de Lula em estabelecer relação privilegiada com Beijing levou nos últimos meses à assinatura de memorandos de cooperação em inteligência artificial que preveem desenvolvimento conjunto de grandes modelos de IA, criação de laboratórios binacionais e formação de recursos humanos em plataformas digitais. O objetivo declarado é reforçar a competitividade da indústria brasileira e promover a “transformação digital” do país.
Ao mesmo tempo, no Fórum Brasil–China promovido pela PUC‑Rio, reitores e especialistas defenderam o aprofundamento da cooperação tecnológica com foco no uso ético da IA, na regulação de dados e na construção de infraestrutura pública digital nos países do “Sul global”, termo que indica uma nova conjuntura de empoderamento de regimes populistas que reúnem ideários de extrema-esquerda e extrema direita, unidos pelo antiamericanismo, antiocidentalismo e relativismo moral, ancorados sob a narrativa das soberanias absolutas. As discussões sobre “ética” nestes termos resulta em profunda desinformação para justificar “direitos” regionais para proteger tiranias.
No plano financeiro, o Brasil anunciou sua intenção de se integrar a instrumentos do BRICS como o BRICS Pay, sistema de pagamentos multiplataforma que conecta os sistemas nacionais de débito/crédito dos países membros. O projeto, endossado pela China, pretende operar em moedas locais e reduzir a dependência do dólar e do sistema SWIFT. Na semana passada, durante o auge da escalada de tensões com os EUA, o Brasil aprovou a entrada do sistema UnionPay, empresa estatal chinesa que substituirá Visa e Mastercard diante das restrições.
Simultaneamente, está em curso a cooperação para o desenvolvimento da moeda digital brasileira (Drex) — cuja arquitetura poderá ser programável e combinada com apps de pagamento e identidade digital, criando um ecossistema altamente rastreável.
Essa integração econômica e digital entre BRICS, amparada por políticas de “soberania contra-hegemônica”, funciona como base para uma tirania digital tecnocrática baseada num anseio igualitário de se libertar de restrições impostas devido a violações de direitos humanos nas nações membro. O Brasil se apresenta como exemplo dessa multipolaridade, a partir de movimentos claros de centralização de poder regional em torno de plataformas digitais — subsidiadas ou inspiradas pelo modelo chinês — ampliando o alcance do controle estatal sobre comportamentos individuais.
Ideologicamente, o BRICS se apresenta como contra-hegemônicos da autoridade moral ocidental, que classifica como “individualista” e autoritária. Em comparação, o BRICS oferece plataformas coletivistas justificadas por narrativas igualitárias, tal como os antigos regimes comunistas.
Combate à “desinformação”
Desde a Pandemia de 2020, cresce no mundo um aparato institucional que justifica a emergência desse tipo de infraestrutura digital sob o pretexto do “combate à desinformação”. Em 2020, a ampliação do controle e a colonização dos paradigmas tecnocráticos chineses entrou no país pela via da saúde do medo social impulsionado pelo caos sanitário. Agora é a vez do trampolim das guerras e tensões financeiras decorrentes.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de ministros como Alexandre de Moraes, vêm atuando para censurar e restringir perfis em redes sociais, instaurar investigações e até bloquear contas bancárias sem garantias processuais claras. Os alvos são preferencialmente os críticos do regime, conservadores que não se alinham ao governo e seus parceiros. Essa lógica se alinha, estruturalmente, ao modelo chinês de reputação social como critério de controle político e moral.
Censura e perseguição como resultado
Como resultado óbvio e previsível dessas parcerias, a assimilação de sistemas tecnológicos chineses — como guardiões da segurança digital e ética política — pode converter-se em mecanismo de censura econômica: um post considerado conspiratório ou um comentário dissidente, por exemplo, poderia causar restrição de acesso a serviços financeiros, crédito programável, limitações de movimentação ou até exclusão de plataformas de pagamento.
Não se trata de uma suposição abstrata ou conspiratória: a formação de infraestrutura digital conectada entre governo, empresas chinesas e bancos brasileiros propicia exatamente esse cenário, pois foi construída para esse fim.
Até mesmo muitos conservadores de tendência soberanista afirmam que essas alianças com a China são essenciais para diversificar alianças estratégicas. Eles pensam da mesma forma que os nacionalistas do século passado que se entregaram ao antiamericanismo por medo de interferências “imperialistas”, terminando por advogar a completa submissão a narrativas e partidos comunistas com sede em Moscou e, agora, também Pequim.
Eles deixam de fora o contexto político interno, marcado por ativismo judicial expansivo, tentativas de regular mídias sociais por vias extrajudiciais e propostas de identidade nacional digital. Não resta dúvidas de que tais ferramentas tecnológicas serão cooptadas para repressão política direta e indireta.
Eis a grande contradição premeditada da nova conjuntura global que muitos ainda não percebem: ao mesmo tempo em que se defende uma “multipolaridade financeira”, absorve-se a concepção chinesa de governança digital: ampla, centralizada e disciplinadora. Trata-se de um processo análogo ao que ocorre, na promoção da Nova Direita política na Europa e EUA, por meio da Rússia e seus organismos ligados ao Kremlin, como tanto temos denunciado neste site.







