Há conservadores que possuem rejeição natural à Rússia e ao comunismo. Eles estão parados no anticomunismo do século passado e pouco sabem sobre a Rússia atual. Eles são o público-alvo, grupo de risco propriamente, da sedução duguinista. Se forem suficientemente conduzidos à vaidade da erudição, acabam acreditando que a Rússia atual rendeu-se ao espiritualismo e rejeitou o materialismo, o que para muitos cristãos genéricos ou pacifistas de última hora no Ocidente, pode ser suficiente para apoiar a nova multipolaridade.
Há, porém, os que não topam com Putin e tomam notícia de que seu guru, Dugin, possui ideias perigosas. Não aprofundam as razões disso e apenas leem títulos, pensam ter compreendido o suficiente. Eles então rejeitam. Mas não é suficiente. Ainda há um ponto cego que pode os conduzir ao mesmo labirinto metafísico que os enredará. Trata-se do espiritualismo erudito e sedutor da Escola Tradicionalista.
É próprio da mentalidade liberal abstrair questões espirituais, ainda que se manifeste na defesa de religiões de maneira geral, especificamente o cristianismo. Mesmo críticos do liberalismo, alguns conservadores raciocinam como seus inimigos por considerarem o campo das narrativas e das ações políticas a arena fundamental em os vencerão. Estão enganados. Quem possui mais fundamentos, mais arraigados e profundos nas almas, deterão os meios de ação efetiva, principalmente por meio das reações psicológicas de uma grande e relevante parcela da humanidade.
O ponto cego
O grande ponto cego da direita brasileira e internacional sobre a ameaça da ideologia russa do eurasianismo é a falta de compreensão do papel da Escola Tradicionalista, representada por nomes como René Guénon e Fritjoff Schuon. Essa escola, conhecida no Brasil pelos alertas antecipados de Olavo de Carvalho, se vê defendida e trazida como “luz” por ex-alunos e discípulos do mesmo filósofo que tanto alertou para seus perigos.
Um exemplo de como ocorre a infiltração dessa escola no meio conservador é a popularidade de escritores como Charles Upton, um esoterista perenialista que se converteu ao islã na defesa de uma perigosa aliança com cristãos, o chamado “crislã”. Tal aliança só é possível dentro da perspectiva indiferentista do perenialismo gnóstico, que vê as tradições como expressões imperfeitas de uma “Tradição Primordial” ancestral e primitiva, superior e que estaria sutilmente presente nas diversas formas tradicionais espalhadas pelos povos. Ao longo da história, essa perspectiva já se encarnou até mesmo no culto a extraterrestres. Isso pode parecer “tosco” demais para cair nas graças de conservadores metidos a eruditos, mas tal doutrina sempre pode se apresentar de maneira erudita e culta com ares de alta cultura literária e vida intelectual madura. A velha vaidade sedutora do mundo.
A única diferença entre as visões de Dugin e Upton é que, enquanto Upton é adepto da chamada “via da mão direita”, Dugin é assumido representante da “via da mão esquerda”, ambos caminhos típicos da tradição gnóstica e anticatólica. Divulgar as obras de Upton constitui uma sabotagem anticatólica de alto nível, tanto pela sua efetividade em perder almas quanto por sua sutileza em dificultar o discernimento.
O pecado capital que conduz as almas pelos degraus da danação carrega em si uma diversidade de revoltas metafísicas, começando pelo igualitarismo, marca da Revolução, conduzindo até a adesão ao que podemos associar com a religião do Anticristo, isto é, a velha tradição da antiga serpente.
Do simbolismo à política
Acontece que a doutrina de Guénon é o próprio gnosticismo em sua multiplicidade de formas. Há a gnose moderna, diagnosticada por Eric Voegelin e representada nas ideologias políticas. Mas há a gnose metafísica e espiritualista, que não torna imanente a escatologia de maneira evidente num primeiro momento, mas serve de base para uma grande diversidade de ideologias novas manifestadas pelos novos fascismos e populismos supostamente tradicionais. É, portanto, uma expressão profunda do espírito revolucionário, de um igualitarismo metafísico que impulsiona ideias políticas pelo rolo compressor do indiferentismo tradicional, versão “gourmetizada” do velho indiferentismo religioso maçônico segundo o qual “toda religião salva desde que mantida a moralidade social”.
A tônica política que a Escola Tradicionalista impulsiona como base é a de que “toda tradição é válida desde que representada por um governo ou império visto como tradicional”. Eis a razão pela qual a conjuntura global possui um caráter anti-liberal: não é pela rejeição às bases morais do liberalismo, mas pelo desejado retorno de governos e impérios de força, o poder estatal como agente histórico, metafísico e estatológico. É a realização espiritual do estado moderno, muito embora se digam adversários da modernidade.
Da política à danação eterna
Do ponto de vista estritamente católico, a única tradição autêntica é aquela transmitida por Nosso Senhor Jesus Cristo, conservada e transmitida depois pela Santa Igreja Católica com o auxílio do Espírito Santo. Não há segunda alternativa. Fora dessa tradição, existe a tradição da Serpente, conjunto de doutrinas dinâmicas transmitidas ao longo da história por anjos caídos para distanciar o homem da descendência espiritual representada pela sucessão apostólica. Essa explicação, dada por inúmeros padres da Igreja ao longo do tempo, vem sendo cada vez mais relativizada em nome de alianças estratégicas contra inimigos comuns.
De maneira resumida, o papel da Escola Tradicionalista é conduzir católicos ou ocidentais que se sentem esvaziados de “iluminação metafísica” para os caminhos de trevas do ocultismo que, em nossos dias, alcançou meios de ter uma aparência menos lúgubre e até de uma tentadora adesão a conhecimentos libertadores. Organizados nas Tariqas, os estudiosos de religiões, simbolismos e associações que fazem parecer existir uma verdade por trás da diversidade de doutrinas, possuem um objetivo muito claro. Olavo de Carvalho disse abertamente que o papel das Tariqas é a islamização, muito embora não falem uma palavra sobre o islã, alertou ele.
Seus temas são as religiões, os símbolos comuns, levando o fiel ingênuo a uma sensação de conhecimento e elevação. No fundo, está sendo tragado pelo caminho das vaidades intelectuais rumo ao despenhadeiro do erro que leva, ao seu último estágio, à conversão lenta ao islã ou, se encontra barreiras culturais fortes, ao ocultismo puro e simples travestido de alta cultura.
Trecho acima foi extraído do e-book Raízes ocultas da Nova Direita, disponível aqui.







