Quando se fala da Revolução Iraniana de 1979, a imagem que vem à mente costuma ser a de líderes religiosos de turbante, multidões entoando cânticos islâmicos e uma nação rejeitando o modelo ocidental de individualismo, consumismo e sensualismo em nome de valores espirituais elevados. Por incrível que possa parecer, essa é a imagem que até o conservador, católico, tem dessa revolução. Mas a verdade é que, por trás da retórica religiosa e dos apelos à tradição, havia na revolução iraniana uma base filosófica profundamente influenciada por pensadores europeus como Martin Heidegger, o filósofo alemão que inspirou o existencialismo e foi simpatizante do nazismo. Além disso, outro nome que aparece como força influente dos intelectuais iranianos da época é René Guénon, o esotérico francês que se tornou um dos maiores críticos da modernidade ocidental. Essa combinação põe a revolução iraniana lado a lado com o eurasianismo russo, a nova ordem multipolar e a mais nova atualização do processo revolucionário mundial.
Segundo Olavo de Carvalho, conhecedor das ideias de René Guénon, o projeto de uma islamização do Ocidente foi idealizado e implementado graças à circulação organizada das ideias do sufi francês Guénon. Apesar disso, as ideias da Escola Tradicionalista podem ser facilmente aplicáveis a sistemas ideológicos ou religiosos diferentes. Da mesma forma, projetos políticos que necessitem de um arcabouço espiritual para o melhor convencimento no contexto da modernidade esvaziada, encontram tanto em Guénon quanto em Heidegger uma ferramenta útil e eficaz. Ambos combatem a ideia de um modelo único e universal de civilização (liberalismo, democracia ocidental, globalismo). Heidegger fala da necessidade de retorno à autenticidade do ser histórico de cada povo, enquanto Guénon defende que cada civilização deve se reconectar com sua tradição espiritual própria. Isso é perfeito para quem necessita unir visões distintas em um mesmo projeto de poder mundial.
O vínculo entre a filosofia europeia e a revolução islâmica não é um detalhe marginal — ele foi parte essencial da construção ideológica que derrubou a monarquia do xá e instituiu uma teocracia xiita. É claro que isso não significa que o regime anterior era uma maravilha. Os xás eram uma casta fascistóide que se inspirava em nomes como Benito Mussolini. Talvez se possa dizer que a revolução iraniana foi o abandono do velho fascismo pelo neofascismo, mais adaptado à realidade pós-moderna.
Heidegger e as revoluções
Heidegger é conhecido por sua crítica radical à modernidade, ao materialismo e ao que chamava de “esquecimento do ser”. Para ele, a civilização ocidental havia se perdido na busca desenfreada por progresso técnico, deixando de lado as dimensões espirituais e existenciais do ser humano. Até aí nos parece muito interessante, especialmente ao católico. A crítica heideggeriana, assim como a guenoniana, encontrou eco nos intelectuais iranianos descontentes com a aproximação excessiva do regime dos xás com o Ocidente. Importante ressaltar que Heidegger, além de um importante pensador ligado ao nazismo, foi adotado depois pelos órfãos do nacional-socialismo alemão, que através das ideias heideggerianas puderam reformular a doutrina nazista numa espécie de “defesa dos mil povos do mundo”, ao invés da exclusivista defesa ariana. Era uma maneira de fazer a mesma coisa em um tom pós-moderno e igualitário.
Um dos pensadores mais influentes daquele período foi Ali Shariati, sociólogo, pensador revolucionário e um dos principais ideólogos do movimento que levaria os aiatolás ao poder.
Formado na Sorbonne, na França, Shariati absorveu as ideias de Heidegger e reinterpretou a crítica à modernidade dentro do contexto islâmico, o que era perfeitamente possível e fácil de fazer. Afinal, devemos lembrar que a mera crítica à modernidade, sem uma defesa de algo que a substitua, leva à fácil apropriação por uma diversidade de agendas. E foi o que aconteceu com Heidegger.
Para Shariatri, baseado em Heidegger e outros existencialistas, a ocidentalização do Irã era não apenas uma questão de dominação política, mas uma forma de opressão espiritual e cultural. A partir do pensamento heideggeriano, Shariati construiu uma visão na qual o Islã deveria ser não apenas uma religião, mas uma força revolucionária capaz de resgatar a autenticidade do ser e libertar o povo iraniano da alienação imposta pelo imperialismo e pelo consumismo.
Por outro lado, a influência de René Guénon ofereceu uma camada ainda mais profunda a esse projeto revolucionário. Guénon, convertido ao islamismo e crítico feroz da modernidade, defendia que o mundo moderno havia se desconectado da “Tradição Primordial” — um conhecimento sagrado que, segundo ele, estava na raiz de todas as religiões tradicionais, mas de maneira esotérica, isto é, sob condição de uma cerimônia secreta de iniciação nos moldes maçônicos. Isso indica a defesa de uma elite secreta espiritual de sábios, o que faz de Guénon, sob o ponto de vista católico, um gnóstico (ainda que ele negasse isso sob seus critérios).
A obra de Guénon inspirou ainda, diretamente, o pensamento de Seyyed Hossein Nasr, intelectual iraniano, que se tornou um dos principais representantes da Escola Tradicionalista dentro do mundo islâmico e foi fortemente influente na revolução iraniana que originou o modelo atual do país persa.
Educado no MIT e em Harvard, Hossein Nasr foi responsável por fundar instituições no Irã dedicadas à integração entre ciência moderna e espiritualidade islâmica, sempre sob a ótica tradicionalista perenialista de Guénon, um autor de fácil leitura para ocidentais. Para ele, a crise do Irã não era apenas política, mas uma crise de sentido, causada pela perda do elo entre conhecimento, cultura e o sagrado. Essa visão fortaleceu o discurso de que a única saída para a decadência era uma revolução não apenas política, mas espiritual e civilizacional.
Heidegger e Guénon, portanto, forneceram aos revolucionários iranianos uma poderosa crítica ao Ocidente, mas também as ferramentas conceituais para justificar uma nova ordem. Uma ordem que rejeitava tanto o liberalismo quanto o marxismo, e que se propunha a criar um modelo alternativo: uma teocracia revolucionária que combinava mística, nacionalismo e antimodernidade.
Essa combinação explosiva não ficou restrita ao Irã. As ideias que nasceram desse caldo filosófico continuam reverberando até hoje, inspirando tanto movimentos islâmicos como o Hezbollah quanto vertentes da nova direita russa, como o eurasianismo de Alexander Dugin — que também bebe diretamente na fonte de Heidegger e do tradicionalismo guenoniano, mas sob a interpretação de Herman Wirth, o teórico da SS nazista.









