Temos visto a esquerda chamar todos de fascistas. O que se tornou uma tradição que avança pela mídia, entretenimento e meio acadêmico, porém, veio do próprio processo de infiltração endêmica da mentalidade revolucionária que tem dominado até mesmo setores de direita. Afinal, como a esquerda transformou o fascismo em um fenômeno conservador, de direita e até cristão? Já ouviram falar por aí do termo “cristofascismo”? Essa falsificação tem sido o combustível para todos os projetos revolucionários de eliminação física de seus adversários.
Recentemente, o EN Books publicou um volume fundamental sobre o fenômeno do neofascismo contemporâneo, corrente que se beneficia justamente do desconhecimento de conservadores sobre o tema.
Na verdade, resumindo bastante, podemos dizer que há dois conceitos de fascismo: um deles é o dos historiadores, baseados nos próprios teóricos do fascismo e que explica o atual fenômeno do neofascismo que cresce até mesmo entre conservadores. O outro, bem mais popular simbolicamente, é o conceito falso construído posteriormente pela esquerda para estigmatizar seus adversários.
Entender a origem dos termos usados por nós deve ser a meta principal de quem deseja debater sobre os conceitos e a realidade por trás deles. Este tema, além de fascinante, daria um curso inteiro. Mas vamos nos resumir aqui a esclarecer os dois conceitos de fascismo, o usado no âmbito das narrativas e discursos de esquerda atuais, sua origem e definição, e aquele conceito original do próprio fascismo como surgiu e que é base para o seu ressurgimento.
O fascismo inventado (e usado) pela esquerda
Ora, para a esquerda, é comum vermos a definição de que fascismo é um tipo de “reacionarismo” do próprio sistema capitalista diante da sua própria crise. Neste conceito popular, o capitalismo, vendo-se derrotado pela revolução, criaria meios de “reagir” aos elementos comunistas. Esse conceito, totalmente falso e oposto aos próprios teóricos do fascismo, foi popularizado pela linha marxista-leninista de nomes como Georgi Dimitrov (líder comunista búlgaro) que, em um discurso de 1935, disse:
“O fascismo é a ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro.”
Ou seja, para o marxismo-leninismo, o fascismo não é visto como um movimento autônomo, mas como “instrumento da burguesia em crise“, que surge quando o capitalismo entra em risco de colapso e precisa suprimir o movimento operário através da eliminação.
O fascismo, neste sentido falso, seria a “última trincheira” do capital contra a revolução socialista. Ora, mas será isso mesmo o que diziam os fascistas?
O fascismo verdadeiro
Acontece que, com base em historiadores de renome que estudaram a fundo o próprio pensamento dos fascistas e a motivação do surgimento dessa ideologia, o fascismo trata-se de um apêndice, uma versão nacionalista, do próprio movimento comunista operário.
Para Enrico Corradini, por exemplo, considerado um dos principais teóricos e gurus do fascismo italiano, a classe operária precisa identificar-se com uma nação, com a pátria, para que impulsione a revolução mundial contra as “nações burguesas”. Um combate de nação contra nação precisa, evidentemente, de um forte componente nacionalista. Esse componente foi utilizado, paradoxalmente, por Stalin na União Soviética, mas também está na base da doutrina de Mussolini.
O próprio Mussolini era um militante marxista e sindicalista.
Ou seja, ao invés da classe social, o sujeito histórico da revolução, para os fascistas, era a nação proletária, cuja identificação com a classe se daria, não apenas pelo Partido, mas pela Nação. Por esse motivo é que muitos governos fascistas utilizavam o expediente do resgate de tradições nacionais, da defesa de elementos que uniam o país, como a família e a religião. No entanto, tratava-se de um uso instrumental para a revolução, seguindo a dica de Lênin, para quem o “nacionalismo possui uma forte energia revolucionária”.
Outro elemento absurdo da deturpação esquerdista é a ligação do fascismo com o capitalismo, que pressupõe ligação com o liberalismo, o que não poderia ser mais falsa. Afinal, justamente por reunir o marxismo mais ortodoxo e a ênfase trabalhista e revolucionária mais antimoderna, o fascismo se opunha radicalmente ao conceito de democracia liberal moderna.
Infelizmente, este fato tem sido “redescoberto” e descontextualizado por setores de direita e provocado certa simpatia daqueles que não encontram outros meios de resistência contra os males do liberalismo. Dessa forma, muitos conservadores hesitam em usar o termo fascista por acreditarem naquele conceito inventado pela esquerda, vendo-o como mero xingamento.
O fascismo original jamais foi uma reação do capitalismo, uma vez que era uma reação CONTRA o capitalismo, contra o liberalismo da modernidade e a democracia.
A esquerda é que, fingindo-se de coveiro para assaltar o cadáver, mesclou-se com a narrativa liberal e cultural da democracia numa falsa conciliação com a ideia de liberdade para, dessa forma, eliminar seus adversários.
E o bolsonarismo?
Isso mostra, por exemplo, o absurdo de chamar o Bolsonarismo de fascismo. Afinal, a direita brasileira surgida no bolsonarismo é profundamente liberal e devedora da democracia. Pode-se inclusive criticá-la por excessiva benevolência ao acreditar na conciliação esquerdista democrática, o que dado o progresso da informação e do estudo a respeito, pode ser até chamado de uma ingenuidade imperdoável. É possível chamar o bolsonarismo de um conservadorismo liberal, moderno, etc, ou seja, elementos justamente combatidos pelo fascismo original.
E o neofacismo?
O neofascismo, objeto do mais recente e-book do Instituto Estudos Nacionais, é um progresso ideológico do fascismo original, que a pretexto de unificar os povos em torno de si mesmos para estabelecimento de uma revolução contra a modernidade, busca resgatar tradições diversas, numa ênfase muitas vezes pós-moderna, para reagir contra esse mundo moderno. No entanto, assim como o comunismo e o fascismo original, o neofascismo é profundamente nacionalista e antiuniversalista, uma vez que pra defender a autonomia de cada tradição e unir-se contra o globalismo (estágio final da união entre liberalismo e marxismo cultural) necessita relativizar todas as culturas e tradições a fim de fortalecer, ao mesmo tempo, todas elas.
Esta é a gênese da nova narrativa multipolar, que possui um mais radical elemento revolucionário e o resgate de espiritualidades alternativas.
Como fica expresso no livro, o processo de avanço do neofascismo em setores de direita que redescobrem a crítica à modernidade, é uma consequência do afastamento do conservadorismo da Igreja Católica, que justificados pela infiltração progressista revolucionária da Teologia da Libertação, tem levado direitistas à apostasia e a alistarem-se em fileiras revolucionárias ou espiritualmente heréticas e cismáticas. Isso, porém, não anula a realidade profunda e objetiva de que a única oposição legítima à mentalidade revolucionária e, ao mesmo tempo, à democracia liberal e à modernidade, está guardada seguramente na doutrina católica.







