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Por Paula Hemmerich

Um dos principais métodos dirigicionistas de comportamento, sobretudo quando o objetivo final é a manipulação de determinada sociedade, é atacar duramente a personalidade do indivíduo, a fim de arruiná-la.

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Em outras palavras, para tornar o homem menos humano, e mais distante de si mesmo e do outro, é medida muito eficiente incentivar a sua despersonalização, levando-o a identificar-se apenas em manada, até que se esqueça, ou até mesmo rejeite, suas características únicas e pessoais, e ignore, por completo, que cada um de nós é irrepetível e portador de um mistério profundo e inabarcável.

Não foi por acaso que uma das maiores loucuras e barbáries ocorridas na história do mundo, sob o comando de um doente mental egocêntrico e perverso, originou-se, exatamente, de um longo processo de padronização dos indivíduos, através de uma propaganda dirigida a fazer com que se identificassem como membros pertencentes a uma casta superior. O orgulho comunitário da raça ariana, disseminado e cultivado cuidadosamente entre os alemães, foi o pano de fundo que permitiu a ascensão das tresloucadas ideias de Hitler, as quais foram aceitas sem sobressaltos, não por indivíduos, que certamente as questionariam, mas por um rebanho de homens brancos germânicos, previamente despersonalizados.

A massificação é um instrumento de controle social tão poderoso que o uso de uniformes rigorosamente idênticos, e o cultivo de comportamentos absolutamente sincronizados, foi utilizado não apenas por Hitler para dominar o exército alemão, mas também foi apresentado por George Orwell, através da metáfora do macacão azul, padrão de vestimenta obrigatório, no profético romance 1984. [1]

Não é possível controlar o homem sem, antes, fazer com que perca a consciência de sua individualidade e se esvazie o caráter de sua identidade.  Nada é mais dócil do que um homem que não quer nada além de “ser como os outros”.

Nisso, ficamos diante do famoso e muito apropriado conceito de homem-massa, apresentado por Ortega y Gasset,[2] o qual, segundo insiste o filósofo espanhol, nada tem a ver com classe ou camada social, mas sim com um tipo de postura adotada diante da vida e da realidade.

Que postura seria esta que particulariza o homem-massa?

Trata-se da postura de, irrefletidamente, deixar-se arrastar pela corrente, pelo moderno, pelo atual, por aquilo que está “na moda”. Nada de tradição, nenhum senso histórico, apenas o que está na “ordem do dia” ou, diríamos, “em voga”. Em consequência disso, uma enorme fragilidade diante da vida e dos acontecimentos, que leva o homem-massa a ser birrento e dado à vitimização… todos os direitos, nenhum dever… Eis o retrato não apenas de nossos jovens, mas de nossa sociedade, do homem médio, que espera e crê que algo ou alguém é responsável direto por seu destino e por sua felicidade ou infelicidade. Talvez Deus ou, pior ainda, o Estado.

O senso de responsabilidade no homem-massa é apagado pela nebulosa concepção de que, se pertence a um grupo, se é tão somente uma ínfima engrenagem de uma imensa máquina em movimento, alguém é responsável por ele, e pode, então, espernear até ser plenamente atendido em todas as suas necessidades, mesmo que as soluções tenham de cair do céu. Não é capaz de reconhecer o valor dos que, comprometidos, trabalham, empreendem, arriscam-se sem a certeza da recompensa e da justa remuneração e que, com seus esforços, movem a sociedade.

Portanto, deparamo-nos com o onipresente problema da superficialidade, que tem em grande medida moldado o homem-massa atual. A superficialidade, esse “deus” cultuado nos templos das academias e nas clínicas de estética. Ser? Bobagem! A mera aparência do ser é muito mais recompensadora e pode ser exibida em milhares de fotos nas redes sociais.

É inadmissível, diante da manada perfeita de mulheres saradas, botocadas, esticadas e de lábios carnudos – até à deformação – que alguém, na posse integral de suas faculdades mentais, ouse assumir as “marcas” de cesarianas, de amamentação, de altos e baixos hormonais da adolescência, das consequências das nem sempre responsáveis dietas de emagrecimento, ou as rugas de expressão daquela “maldita” intensidade emocional.

Chega a ser patético o triste desfile das “mamães perfeitas”, com quilos de “make” às cinco horas da tarde, equilibrando-se sobre saltos altos e tentando enxergar com seus cílios postiços, na porta das escolas, parando suas caminhonetes ou seus sedans de quase duzentos mil, puxando seus filhos pela mãozinha sem olhar em seus olhos e perguntar se o dia foi bom.

Para tornar as mulheres todas rigorosamente iguais, desprezando as características do próprio rosto, caprichosa e detalhadamente esculpido por Deus, inventou-se para a moda a tal “harmonização facial”. A artificialidade é tamanha que, após terem suas faces “harmonizadas”, a harmonia antes existente no rosto é substituída por uma máscara, às vezes grotesca, de padronização estética.

Para ter um rosto harmônico, é necessário, agora, que todas tenham os olhos levemente puxados, as sobrancelhas um pouco arqueadas na cauda, erguidas e arredondadas como as de uma raposa (é… dá para copiar a beleza dos animais para o ser humano), a bochecha, ou osso dela, proeminente, os lábios inchados, aliás, volumosos, e a expressão facial absolutamente congelada de modo a que, se quiser sorrir, até pode, mas desde que nenhum músculo se contraia.

E em cima de tudo isso, dá-lhe maquiagem definitiva, para já acordar linda! Vale pigmentar os lábios, os olhos, vale tatuar uma sobrancelha gigante… vale também pintar os cílios e aumentar os fios. Mas não somente isso. A maquiagem cosmética, para aperfeiçoar tudo, jamais pode ser dispensada. O incentivo é, portanto, para que o rosto seja desconfigurado e, depois, coberto.

O corpão sarado, ao contrário, não deve jamais passar despercebido. A mulher, para se sentir bonita e “encaixada” no que pode ser considerado como desejável, e manter, assim, muito elevada a sua sacrossanta autoestima, tem que usar trajes apertados e curtos o suficiente para revelar todo o esforço sobre-humano que faz, todos os dias, na academia. Mas, além da academia, que é, em si mesma, algo positivo, pois o bem estar físico é sim, indispensável, os excessos vaidosos não param aí. É preciso ter próteses de silicone onde for possível. E que mal há em se submeter a arriscados procedimentos cirúrgicos, uma vez por ano, para ter a barriga sempre chapada? Ora, não há mal algum, o importante é que a mulher se sinta bem com o próprio corpo…

E assim se faz uma geração de mulheres despersonalizadas e estritamente padronizadas, a tal ponto que, se estivermos desavisados e chegarmos a um evento social, teremos a impressão de que todas estão vestindo a mesma roupa e foram prensadas no mesmo molde. São essas, em suma, as modernas mulheres-massa.

O mesmo quadro, com relação aos homens, tem características parecidas. Mas, além de músculos cada vez maiores e cérebro cada vez menor, é preciso ter dinheiro para ostentar um carrão importado, rebaixado, com motor turbo. Isso se o rapaz em questão se assume como alguém que realmente se contenta em parar na superfície das coisas.

Mas há ainda um outro tipo: o do intelectual de televisão e sites de notícia, que julga possuir a solução para todos os problemas do mundo, mas que, com mais de trinta, ainda não é capaz de prover o próprio sustento. Embora também não busque, tanto quanto o protótipo descrito acima, um mergulho profundo na causa das coisas ou na origem de suas próprias convicções e ideias, a sua superficialidade não é assumida, mas disfarçada por discursos decorados que possam ser empregados em seu favor. Este é o homem-massa que sente que o mundo lhe deve algo, e que, na posição de vítima desfavorecida, pode relativizar a realidade até o ponto de distorcê-la completamente.

Colocada, assim, a inegável existência de uma moderna configuração do homem-massa moderno, com os mesmos fundamentos de padronização, despersonalização e destruição da consciência individual, começamos a assistir a adoção de certos comportamentos e imposições estranhas e inimagináveis, aceitas sem qualquer reação, já como consequência da destruição da capacidade de raciocínio e autodeterminação individuais.

O que diríamos nós se, há apenas cinco anos, alguém nos falasse que pessoas usariam máscaras de tecido de lençol, de bolinha, xadrez ou de florezinhas, mesmo sozinhas dentro de seus carros, a fim de evitar serem contaminadas por um vírus supostamente letal? Na certa, teríamos uma crise de riso. Ou, ainda, se nos dissessem, há cinco anos, que o ser humano seria proibido de abraçar sua família no Natal, ou, pior, proibido de respirar ao ar livre, mesmo se em um parque ou clube, para respirar com o nariz colado a uma máscara de tnt (sigla para tecido não tecido, muito utilizado em trabalhos escolares para crianças), a qual, na maior parte das vezes, está mais suja e infectada do que qualquer outra coisa?

É risível, e também um pouco desesperador, constatar como somos obrigados a aceitar disparates deste tamanho. E, mais ainda, constatar como são poucos os que questionam tais absurdos.

A realidade atual é: as pessoas andam na rua com o rosto padronizado, quando não por quilos de maquiagem e procedimentos estéticos, pela problemática máscara salvadora da humanidade. Se o corpo estiver nu, não há problema, desde que estejam devidamente tampados o nariz e a boca.

Esse rebanho mascarado checa, de minuto em minuto, o aparelho celular para acompanhar, em tempo real, a vida alheia, e comparar com a própria. Muitas vezes, suas decisões são tomadas com base nas informações ali colhidas: a próxima compra, a próxima viagem, a próxima festa e o próximo procedimento estético.

Mais uma vez, o profético George Orwell, descreveu naquele romance, que, em 1949, quando foi escrito, soava como mera ficção futurista, metáforas perfeitas de tudo quanto estamos vivendo agora. Os personagens eram obrigados a viver, e viviam, em decorrência do hábito transformado em instinto. O celular, hoje, não é mais apenas um meio de comunicação, mas um hábito instintivo que já gera, até mesmo, uma nova categoria de distúrbio mental, a dependência tecnológica, capaz de levar a crises de abstinência gravíssimas. Já se tornou parte do corpo de algumas pessoas, que se sentem amputadas ao saírem de casa sem o aparelho.

A Polícia das Ideias, também descrita no romance 1984, aparece como o politicamente correto de hoje, e lá, como aqui, cada vez mais se configura como um crime gravíssimo ter uma mente livre, ideias próprias e espírito crítico.

Somente neste estado de alienação e loucura, em que nada mais é o que é, mas apenas o que parece ser, que as pessoas serão capazes de aceitar, sem questionamentos, que os pais recebam em suas casas, das escolas, cartas assim redigidas:

QUERIDES ALUNES,

No próximo dia 15, teremos em nossa escola a performance artística Mil Tons de Preto, apresentada pela performer Pablo.

É um trabalho muito forte que contribui para reflexões sobre o racismo, e outras formas de discriminação, nos dias atuais.

Ficaremos muito felizes com a presença de TODES.

Muito bizarro? Mas já está acontecendo, em escolas PÚBLICAS. E quem paga pela performance? Você.

No romance de Orwell, o idioma também foi substituído por uma espécie de dialeto oficial chamado de Novafala, em que as palavras perderam sua significação originária para servir aos interesses do Grande Irmão, que a tudo e a todos controlava. O que pode restar a uma sociedade em que os homens perdem tudo, até o direito básico de se expressar em seu próprio idioma, e tudo aceitam com olhar bovino?

Que tipo de homem é capaz de deglutir, sem nenhuma hesitação, o total desvirtuamento de tudo o que ele conhece por realidade? Somente o homem despersonalizado, o homem não-homem, cuja consciência individual foi enfumaçada por bobagens sem sentido apenas para distraí-lo de sua verdadeira essência e identidade.

Apenas o homem-massa descrito por Ortega y Gasset, que não tem projetos e nem aspirações, que se deixa levar pela maré e só tem em conta seus próprios desejos imediatos. Ele não busca o aperfeiçoamento e nem a autenticidade, antes, vangloria-se de sua vulgaridade e ignorância, e envaidece-se de ser como todos.

Este homem aceitará tudo, e não mais aspirará a nada.


[1] Orwell, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

[2] Gasset, Jose Ortega y. A Rebelião das Massas. São Paulo: Vide Editorial, 2016.