Há algum tempo as análises políticas do Instituto Estudos Nacionais vêm batendo na mesma tecla: o que se convencionou chamar de direita política, bem como o meio conservador intelectual, no Brasil, em breve se converterá na maior força anticatólica. Este diagnóstico se pautava principalmente pela percepção da imensa quantidade de elementos revolucionários que estavam se infiltrando nesse meio. A pretexto de um “combate silencioso” ou ignorante, muita gente fingiu que não leu nossos alertas. Pois bem, eis que eles começam a se tornar tão evidentes que já não se pode negar.
O “Festival do MBL”, ocorrido recentemente em São Paulo, coroou a aprovação do partido do movimento, o Missão, no início de novembro deste ano pelo Superior Tribunal Eleitoral. O evento recente, com a presença de Curtis Yarvin, o guru do novo Iluminismo das Trevas, foi um espetáculo de referências neofascistas e elementos de misticismo nazi e esoterismo neopagão. Tais elementos, como vimos alertando, possuem uma estética adequada ao sentimento juvenil do momento: a orfandade de sentido, pertencimento e carência de tradições geradas pelo niilismo pós-moderno. Mas como o demônio de bobo não tem nada, era esperado que a solução para isso viesse sob a forma do resgate de misticismos e espiritualismos para impedir que as almas identificassem a sua sede espiritual com a única coisa que a poderia saciar: a Santa Igreja Católica.
O Instituto Estudos Nacionais tem consciência de que essa última afirmação torna esse artigo repelente e até repulsivo por grande parte da dita direita conservadora. Santa Igreja? Eles preferem um genérico cristianismo, se tanto. Melhor ainda, mais “inclusivo”, defender um espiritualismo isento e indiferente, tal como o defendido há séculos pelos gnósticos que destruíram o Ocidente e agora sugerem a solução. Esses isentos e indiferentes, recebem com sorrisos de superioridade o avanço da política ocultista e neofascista do MBL.
O Missão, com toda a força intelectual que traz consigo, pode sem nenhuma dificuldade enterrar o bolsonarismo, mesmo que este ainda tente ressuscitar o olavismo que o serviu de base intelectual mal e porcamente. Não há comparação possível.
Com a participação de intelectuais influentes do neorreacionarismo obscuro norte-americano, como Curtis Yarvin, o festival esbanjou estandartes como o da Falange Espanhola, movimento fascista da Segunda Guerra. Há quem não perceba a natureza igualitária do fascismo, disfarçado sob uma retórica supostamente aristocrática.
Como alguns canais de esquerda acusaram o MBL e referências fascistas, isso levou ao automatismo certos conservadores que viram na associação uma acusação forçada. No entanto, basta olhar mais de perto para concluir que as referências são mais do que fascistas. A esquerda há muito estuda o fenômeno e por vezes finge não o compreender para lançar à direita iscas que a conduzem ao abismo.
O MBL e o Missão dialogam muito bem com movimentos de ideias que vem obtendo sucesso em ganhar o horizonte das gerações mais novas, como a crítica ao feminismo por parte do masculinismo, do universo MGTow, a plataforma redpill, o blackpill e suas consequências espirituais, assim como a linguagem satânica e, em alguns casos, declaradamente neonazista dos animes japoneses. O black metal e o sarcasmo sádico de desenhos animados e memes como o sapo Pepe, o libertarianismo e o novo identitarismo, são as bases profundas da atual tendência, influenciada principalmente por nomes como Martin Heidegger, mas cuja “tradução” está em Julius Evola e Aleksander Dugin. O efeito disso é conduzir, pela via macabra (mas atraente às almas decadentes) ou ao neopaganismo estético ou, o que é mais certo, ao islã como última solução para o Ocidente, dica dada de antemão (nos anos 30) pelo sufi francês Renê Guénon, não por acaso leitura comum desde intelectuais “católicos” até rappers da favela.
“Ah, é só estética”
A estética fascista sempre foi condutora das ideias. Há uma ingenuidade no pensamento liberal e moderno, de pressupostos de uma indesculpável ingenuidade positivista e formalista, que acredita que a estética esteja separada das ideias e das mentalidades, sendo “apenas a aparência”. Ora, não foi a estética modernista que os conduziu e favoreceu essa mesma conclusão? Isso contradiz o ensinamento bimilenar da Igreja Católica, que sempre ensinou pela estética. Peça para um muçulmano fazer uma mesquita à moda Oscar Niemeyer e veja o resultado. Jamais aceitariam, pois a estética antecipa o que será acomodado à consciência, já que o nosso entendimento quando pretende acessar a realidade necessita de uma série de mediações.
Neste sentido, nomes novos despontam em uma espécie de versão adaptada a cada necessidade identitária e grupal, ainda que conduzam à mesma tendência revolucionária e igualitária, que atualmente direciona sua plataforma ao autoritarismo do populismo de terceira posição. É isto o que está por trás de partidos como o Missão, nova cara do MBL. O seu liberalismo inicial era apenas uma face palatável à juventude individualista para recrutá-la ao serviço de Satanás e sua nova hierarquia. Diferente daquela que é reflexo da ordem divina (a Igreja), a hierarquia satânica se pauta justamente pelo igualitarismo, pois não sabe fazer de outra maneira.
Todas as tradições, exceto o catolicismo
Getulismo, Lampião, Saci-Perere, mitraismo (culto ao deus Mitra), evolianismo, duguinismo e, é claro, uma pitada farta de neotribalismo indigenista pagão, africanismo e, quem sabe, candomblé. Tudo isso se alinha perfeitamente ao desejo de sentido e pertencimento dos novos identitarismos tradicionais. Para Lúcifer, todas as tradições são permitidas, desde que se fique bem distante da única verdadeira. Até mesmo o sedevacantismo cismático, desde que fora da comunhão com Roma, é válido, belo e moral.
Em entrevista dada no evento, Curtis Yarvin falou das referências do passado, mas deixou claro que os elementos tradicionais do Brasil, como o catolicismo, não estão no radar da nova onda. “Este não é o futuro”, declarou. O tradicionalismo do MBL, assim como do Partido Missão, é o tradicionalismo esotérico de Ricardo Almeida, membro de uma tariqa, células esotéricas islâmicas, e Renan Santos, assumidamente neopagão. Os elementos aparentemente cristãos ou católicos que por ventura apareçam neste movimento, servem de chamariz para idiotas úteis, pois são além de acidentais e aparentes, constituem meras peças de oportunismo tático, conforme recomendava o ideólogo dadaísta e neopagão Julius Evola.
O movimento do Missão reúne diversas referências em crescimento há algum tempo na juventude da Geração Z, muito embora quem esteja realmente coordenando e orientando esse processo pertença à geração anterior, usando o “estandarte” da Gen Z literalmente como “buchas de canhão”. Os adolescentes sedentos por sentido e pertencimento aderem de uma maneira dispersa, um tanto irônica e cínica, ainda que trabalhem ativamente na indústria de memes nonsenses em estilo anime, para o processo de “desconstrução tradicionalista”.
Estas são algumas razões pelas quais podemos concluir que o Missão sairá vitorioso nas próximas eleições, ainda que não necessariamente no sentido da vitória eleitoral por votos. O seu programa se alinha aos anseios revolucionários e psicológicos do momento político e geopolítico, muito diferente do velho bolsonarismo e do conservadorismo intelectualista. Ainda assim, alguns intelectuais ditos conservadores e identificados como católicos, vem flertando com os símbolos e modelos mentais da geração “cyberpunk” que tem seduzido o Vale do Silício.
O modelo “monárquico” de Yarvin, no qual o mundo possa ser controlado por CEOs tecnocráticos, fascina certo tipo de ativista ligado a modelos supostamente hierárquicos que não aceitam ou não simpatizam com modelos verdadeiramente tradicionais. É preciso “traduzir” a linguagem da velha aristocracia para uma linguagem pós-moderna, creem alguns. Essa “tradução”, porém, acaba invertendo a ideia de ordem e aplicando, na realidade, teorias como o caoísmo (chaos) pós-moderno, de natureza gnóstica e igualitária, para propor soluções técnicas a problemas espirituais.
Em sua órbita, gravitam influencers colecionadores de bonecos de Star Wars, Tolkien, aficionados por lendas urbanas e mitos nórdicos, buscando bem no fundo uma verdade católica que, no fundo, distancia e afasta as pessoas da verdade e as conduz a labirintos de loucura e imaginação, tal como explicamos de maneira fundamentada no recente e-book A Cruz e o Labirinto.
O perigo da nova onda revolucionária começa a ser bem compreendido pela esquerda mainstream, anda que permaneça na obscuridade para muitos analistas conservadores e católicos, que preferem flertar com o inimigo ou, o que é pior, fingir que ele não exista na esperança de que se torne inofensivo.




