Muito além do chimarrão e do churrasco, do culto ao campo e aos cavalos, o que realmente está por trás das “tradições farroupilhas”, comemoradas no dia 20 de setembro em todo o Rio Grande do Sul? Qual era o contexto mundial e quais são as raízes ocultas que geraram a revolta tão celebrada anualmente entre os gaúchos?
Todas essas questões parecem estar distantes do imaginário atual. A maioria dos livros de história e estudos acadêmicos, que deveriam priorizar uma análise mais profunda, focam quase que totalmente nos aspectos econômicos ou político-ideológicos superficiais do conflito, tratando assim de maneira rasa os motivos reais da ocasião. A grande imprensa sul rio-grandense, por sua vez, superficializa mais ainda a data, apresentando-a como se fosse uma manifestação folclórica, sem mencionar qualquer mero detalhe que possa remeter ao verdadeiro sentido histórico. Mas seria essa apenas uma falha nos estudos do tema ou um esquecimento programado?
Quando chega o dia do feriado estadual, as ruas de praticamente todas as cidades se enchem de cavalos e cidadãos vestindo as roupas típicas do conhecido traje gaúcho: a bombacha, os lenços e os chapéus. Os desfiles, a bandeira e o hino exaltam aquilo que a maioria já nem compreende mais o que significa. Porém, os fatos que ocorriam pelo mundo naqueles anos nos apresentam um panorama muito mais completo e profundo acerca do evento.
O mundo nos séculos 18 e 19
O período que compreende os anos entre 1701 e 1900 marcou uma mudança radical no ocidente, tanto na cultura como na política, mas sobretudo na mentalidade e na alma. As monarquias e impérios da cristandade antiga, já cambaleantes diante das revoltas sucessivas, em breve dariam lugar às repúblicas e parlamentarismos liberais, afastando-se da relação com a Igreja Católica e desligando-se das aristocracias que formaram as suas próprias nações. As filosofias iluministas e o espírito de rebelião contaminavam aventureiros, pensadores, agitadores e líderes das elites nacionais.
Não era diferente no enorme território sul-americano, onde diversos grupos também tentavam avançar no processo de apagar dos estados nacionais as referências ao catolicismo e de suas raízes com as famílias monárquicas. No mesmo ano da Revolução Francesa, em 1789, a Inconfidência Mineira deu início às insurreições, seguida pela Revolução Pernambucana de 1817, ainda no período colonial. Os mesmos valores e concepções também motivaram outras rebeliões próximas, como o movimento dos “33 Orientales”, grupo maçônico que fundou o Uruguai. Porém, sem dúvida nenhuma, um dos conflitos que mais marcou a história brasileira é a Revolução Farroupilha, iniciada no final de setembro de 1835.
Poucos anos após a independência, fortemente movidos pelo ideais liberais e o igualitarismo anti-católico advindos da Europa, uma parcela de grandes fazendeiros, militares, intelectuais e políticos locais também ensejou enfrentar o Império Brasileiro. As tropas não carregavam apenas interesses econômicos e políticos, mas empunhavam os lemas e as doutrinas ideológicas que até hoje dominam a ordem revolucionária e o debate público internacional.
É bem verdade que havia maçons e ideais estranhos à própria monarquia dentro da realeza. O Brasil já acomodava padres e bispos junto às causas revolucionárias, e até a Santa Sé tinha dificuldades de formar e guiar os padres das regiões mais distantes de Roma. As autoridades econômicas, políticas e eclesiais brasileiras, infelizmente, estavam dispostas a reunir na mesma sala a Verdade de Cristo e as ilusões demoníacas. Numa tentativa de se salvar sem deixar de lado as vanglórias e vaidades do mundo.
Não à toa, o regente imperial nesse período era o Padre Diogo Feijó, sacerdote católico e ao mesmo tempo iluminista. Demoraria alguns anos para que os pontífices católicos conseguissem cobrar o episcopado brasileiro e colocar nas recentes dioceses locais presbíteros e religiosos mais comprometidos com a fé. Mas o que eram esses ideais liberais e iluministas que motivavam guerras e perseguições? E por que esse detalhe foi omitido do imaginário popular gaúcho?
O radicalismo contra a Santa Igreja
As celebrações atuais do 20 de Setembro, vistas como mera recordação de supostas tradições e da cultura gauchesca, ocultam as intenções reais do movimento. Pouco se explica sobre a mentalidade revolucionária e os preceitos iluministas, que vão muito além de meros hábitos ou costumes regionais, e eram o foco central dentro das lojas maçônicas das quais faziam parte todos os principais rebeldes gaúchos.
Especialmente naquele período, a organização maçônica estava em combate explícito e violento contra as monarquias e a Igreja no mundo todo, difundindo por meio de guerras as crenças revolucionárias que rebaixavam a sociedade ao igualitarismo, negando a Revelação Divina e propagando a especulação espiritualista anti-católica. Nesse contexto, em 1738, o Papa Clemente XII havia condenado pela primeira vez a Maçonaria, com a publicação da bula “In eminenti apostolatus specula“, confirmada posteriormente pelo Papa Bento XIV (1751) e Leão XIII (Humanum Genus, 1884).
Antes de 1835, a região sul-brasileira era uma terra ainda popularmente organizada pelas paróquias da Igreja Católica. Em resumo, as reduções jesuíticas, iniciadas por volta de 1626, na região noroeste, foram as primeiras localidades catequizadas e organizadas – nesta época, região ainda pertencente à Coroa da Espanha. Anos mais tarde, em 1745, já como parte da colônia de Portugal, construíram-se paróquias que atendiam às famílias de descendência portuguesa e grupos de escravos sul-africanos já estabelecidos na atual região metropolitana, no sul e no litoral. Além, é claro, do volume crescente de nascidos mulatos, caboclos e mestiços, fruto da miscigenação brasileira entre essas etnias.
A Igreja Católica catequizava os povos indígenas locais, fazendo a integração com os sul-africanos e imigrantes europeus recém chegados. Essa era a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul – ou “Capitania de São Pedro (curiosamente oficializada num 19 de setembro de 1807), ou ainda “Continente de São Pedro”, um dos primeiros nomes utilizados na região. Desde muito tempo, denominava-se a região como São Pedro, em evidente referência cristã e católica.
Porém, o Brasil passava naquele período pós-independência por conflitos em todos os cantos, com o império sendo regido sem imperador fixo. Revoltas liberais ocorreram na Bahia em 1837, com a Sabinada; em São Paulo e Minas Gerais, em 1842; e a Revolução Praieira de Pernambuco, em 1948; entre outras. Os ideais anti-católicos iluministas avançavam pelo país e pelo mundo, embora sem declaração explícita, perseguindo discretamente o Corpo Místico de Cristo onde quer que estivesse representado.
Foi assim que parte da elite político-militar dominante na província organizou o levante, apoiando-se nas ações da Carbonária, entidade que conduzia as revoltas armadas da Maçonaria. O caráter anti-clerical ficou evidenciado logo nos primeiros atos, com a mudança de nome da região, abolindo a menção a São Pedro e criando a “República Rio-Grandense”, denominação estampada até os dias de hoje na bandeira do estado.
A revolta tinha um sentido tão fortemente contrário a fé de Cristo que até mesmo quando chegou em Santa Catarina também buscou alterar o nome da região. Foi criada a então “República Juliana” – que, embora tenha durado poucos meses, sendo retomada pelo Império após algumas batalhas, deixava bem exposto o intuito da rebelião.
Os símbolos do brasão
Entretanto, nada deixou mais óbvia a essência do movimento e dos ideais dos seus líderes do que a nova bandeira rio-grandense. A antiga província de São Pedro possuía apenas uma bandeira azul e branca, sem brasões, em simples referência à antiga bandeira e realeza de Portugal. O novo estandarte gaúcho, hoje erguido nos desfiles e estendidos nas repartições públicas, é repleto de simbolismo maçônico e revolucionário.
As cores foram modificadas para verde, amarelo e vermelho (sendo esta a cor central, referindo-se à revolução em si mesma). O centro da bandeira recebeu o brasão de armas, que apresenta características das lojas maçônicas: o losango (ou quadrilátero) invertido, encontradas em todos os templos da entidade e marcando a maçonaria local; os ramos de acácia, indicando que os ideais nunca devem morrer; o barrete frígio com o gorro vermelho demonstrando o republicanismo, encontrado em outras diversas bandeiras.
Há também as duas estrelas, uma inferior e uma superior, como sinal universal em apoio aos ideais republicanos do futuro Rio Grande do Sul. Tudo posto entre duas colunas suportando bolas de canhão, indicando que toda obra planejada deverá obedecer aos postulados da entidade esotérica. Por fim, a inscrição “Liberdade, Igualdade e Humanidade”, em referência ao lema da Revolução Francesa.
Esse é o brasão e a bandeira que representam os gaúchos atualmente. É a isso que faz referência o hino regional, quando diz “sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra”. Um rompimento completo com a monarquia, com a Província de São Pedro e suas referências católicas. O próprio Império aceitou as modificações, confirmadas mais tarde com a chegada da república no Brasil inteiro.

Onde estava o clero gaúcho?
Uma boa parte dos sacerdotes provincianos eram ardorosos republicanos e ligados à Maçonaria. O Padre José Antônio Caldas, confirmadamente inscrito na organização, revolucionário da Confederação do Equador (instituição que organizou revoltas no nordeste do país em 1824), muito contribuiu com suas ideias na eclosão do movimento; Padre Hildebrando de Freitas Pedrosa, por exemplo, foi autor do novo brasão; outro expoente foi o Padre Francisco das Chagas Martins Avila e Sousa, também suspeito de integrar clube maçônico e grande incentivador da revolta.
Os farrapos colocaram na nova constituição a religião Católica como oficial da desejada república, mas isso tinha uma explicação. Em 22 de junho de 1838, Padre Chagas foi nomeado pelos revolucionários como vigário apostólico, negando obediência ao Rio de Janeiro, diocese responsável pela região sul da Igreja no Brasil e que estava com o cargo vacante – isto é, sem bispo. A antiga Província de São Pedro tornou-se juridicamente cismática e o vigário colocou-se como a máxima autoridade religiosa local, crismando, nomeando novos padres e celebrando matrimônios.
Padre Chagas foi excomungado e seus atos foram declarados ilícitos pela autoridade eclesial do Rio de Janeiro. A situação provocou um desastre na fé, ocasionando a diminuição nas vocações sacerdotais, falta de zelo e exemplo de vida. Fato que refletiu negativamente na região mesmo durante as décadas posteriores, afastando a população das paróquias.
A situação de desobediência durou até o final da Revolução Farroupilha, em 1845. Com a derrota, Chagas buscou uma reconciliação com o Rio de Janeiro, tendo sido secretário do novo bispo de Porto Alegre. O novo prelado carioca, Dom Manuel do Monte Rodrigues de Araújo, encarregou o Padre Fidêncio José Ortiz de rever todos os atos praticados e demais documentos do período de cisma.
Diversos padres que haviam apoiado os revolucionários reconheceram os erros, foram reabilitados ao Santo Ministério mediante arrependimento e prática de exercícios espirituais. Sabe-se também que o Padre Hildebrando posteriormente condenou a Maçonaria. Padre Chagas perdeu autoridade e, embora ainda incitando o cisma, chegou a ser anistiado pelo Imperador Dom Pedro II em 1841. O sacerdote declarou anos depois fidelidade à Roma e recolheu-se em obediência.
Os líderes rebeldes e o espírito da revolução
Não há como falar desse período sem ao menos destacar alguns dos revolucionários que lideraram a guerra e suas relações evidentes com a Maçonaria. Bento Gonçalves foi o primeiro “venerável mestre” da loja “Philantropia & Liberdade”, que se originou da “Sociedade Literária Correntino”, embrião e reduto do movimento. O planejamento das primeiras ações revolucionárias foi desenvolvido exatamente nesse templo, que existe até hoje e está sediado em Porto Alegre.
Também foram figuras importantes os maçons David Canabarro, chefe estancieiro e oficial militar; General Antonio de Souza Netto, o General Netto, militar responsável pela proclamação da República Rio-Grandense, que se exilou no Uruguai após o Tratado do Poncho Verde, que deu fim à rebelião; inclui-se ainda Gaspar Silveira Martins, magistrado e político; Vicente da Fontoura, diplomata, admirador de Jean-Jacques Rousseau e Voltaire; Onofre Pires, militar-coronel; e Domingos José de Almeida, jornalista; entre outros. Muitos desses são referências e nomes de lojas maçônicas gaúchas atualmente.
Mas, sem dúvida nenhuma, Giuseppe Garibaldi é o maçom mais emblemático do movimento, mesmo tendo chegado depois e participado de menos batalhas. Foi ele que visitou Bento Gonçalves na prisão, em 1836, no Rio de Janeiro. Depois disso, participou da batalha que constituiu a breve República Juliana, em Laguna, e liderou tropas durante os anos de 1837 e 1842. Seu nome é fundamental para compreender o espírito da revolução. O aventureiro se tornaria mundialmente conhecido e seria ainda comandante de diversas rebeliões republicanas na Europa.
Embora sua mãe, como conta a história, sonhasse com o filho como sacerdote católico, as ambições e fúria guerrilheira do italiano o levaram ao caminho contrário. Garibaldi participou da insurreição em Gênova, 1834, perdeu e foi sentenciado à morte. Com isso, fugiu para o Rio de Janeiro e foi chamado a participar da Revolução Farroupilha. Maçom carbonário, passou também pela Guerra Civil do Uruguai, voltou ao velho continente e se tornou um dos principais responsáveis pela derrubada dos Estados Papais, explodindo bombas contra a Igreja em Roma, tornando o Papa Pio IX prisioneiro no Vaticano.
O Império do Brasil também era repleto de maçons, de modo que pode parecer suspeito considerar que o espírito republicano fosse a pretensão máxima da esotérica organização anti-católica. Mas vale lembrar que naquele período partidos e ideais liberais já eram quase majoritários nas elites brasileiras. Não à toa, décadas depois o próprio império caiu, em 1889, sem sequer esboçar reação.
Adeus província de São Pedro?
“Não basta para ser livre, ser forte, aguerrido e bravo”. Como cegos em tiroteio, quase literalmente, a população embarcou na baderna contra o Império e a Igreja. Hoje, gaúchos idolatram orgulhosos os bandoleiros que geraram os frutos mais radicais da revolução, ao mesmo tempo que, incoerentemente, protestam contra o progressismo, contra as críticas esquerdistas aos próprios farrapos, contra a criminalidade, a desordem, a corrupção e outras tantas mazelas que atingem o estado.
É de se admirar o estranhamento quando, por ironia divina, as ditas “águas de São Pedro” inundam as cidades do Rio Grande do Sul causando imensos estragos. É quase certo que se os gaúchos hoje compreendessem todo esse profundo panorama e contexto histórico, se perguntariam: éramos escravos do quê? Ficamos livres de quem? O que estamos comemorando mesmo? Talvez seja o tempo de abandonar a gineteada maluca e voltar para o rancho seguro do Corpo Místico de Cristo.




