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O fundamento metafísico do conflito entre Israel e Palestina

23/06/2025
em Artigos
Tempo de Leitura: 13 mins de leitura
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Daniel Ferraz

Uma análise filosófica, teológica e histórica sobre as raízes gnósticas, esotéricas e messiânicas que sustentam o conflito moderno no Oriente Médio

Sumário

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Introdução
  1. A Metafísica do Talmud e da Cabala
  2. A Metafísica do Islamismo Sufi e a Filosofia de Al-Farabi
  3. O Processo de Secularização: Do Messianismo Esotérico ao Conflito Político Moderno
  4. O Contraste Absoluto: A Visão Cristã Frente ao Messianismo Gnóstico de Israel e Palestina
Conclusão Geral

Introdução

O presente ensaio tem por objetivo oferecer uma análise profunda, filosófica e metafísica das causas primeiras que estruturam, desde suas raízes espirituais, o conflito histórico e atual entre o Estado moderno de Israel e a Palestina. Trata-se de uma abordagem que se afasta deliberadamente da superficialidade das análises meramente geopolíticas, sociológicas ou econômicas, e que busca atingir o âmago ontológico, religioso e gnoseológico que sustenta, desde tempos imemoriais, as tensões que hoje se desdobram em campo militar, político e simbólico.

O que aqui se propõe não é, portanto, um comentário sobre as atualizações diárias dos confrontos, nem uma descrição cronológica dos fatos históricos — tarefa essa que outros pesquisadores, jornalistas e analistas executam de modo competente. Antes, este trabalho visa desvelar os fundamentos últimos que tornam o conflito não apenas uma questão territorial ou diplomática, mas um choque de visões metafísicas profundamente inconciliáveis.

Cumpre, desde logo, esclarecer que este ensaio não se presta a uma defesa romântica, ideológica ou sentimentalista de qualquer uma das partes envolvidas. É evidente que, do ponto de vista ético e civilizacional, é impossível colocar em termos de equivalência moral o terrorismo abjeto de organizações como o Hamas — cujos métodos envolvem assassinatos de civis, uso de escudos humanos e práticas de brutalidade inimaginável — com os atos de autodefesa de um Estado organizado, ainda que este Estado tenha, ele próprio, fundamentos políticos e filosóficos profundamente problemáticos. Contudo, a condenação de práticas terroristas não implica, de modo algum, a canonização metafísica do Estado moderno de Israel, cuja constituição é também fruto de um projeto ideológico, secular, gnóstico e profundamente incompatível com a visão cristã da ordem e da história.

Por outro lado, igualmente condenável é a atitude, hoje tristemente comum em certos círculos da direita ocidental, de tratar o Estado de Israel como uma extensão da Israel bíblica, como se entre o Israel teocrático, formado pela Antiga Aliança, e o atual Estado laico, sionista, socialista e revolucionário, houvesse uma continuidade teológica, política ou espiritual. Tal ilusão não resiste sequer a uma análise superficial da história do sionismo e da constituição do Estado judeu moderno, muito menos suporta o crivo da análise metafísica que aqui será realizada.

Tampouco este trabalho se prestará a servir de palanque para a retórica, igualmente romântica e enganosa, que vê na causa palestina uma suposta representação da tradição, da transcendência ou da luta dos povos contra o imperialismo moderno. Este é precisamente o discurso manipulado por forças geopolíticas de viés eurasianista, tradicionalista-esotérico ou islamista radical, cuja finalidade é capturar emocional e espiritualmente setores do Ocidente que, desconectados de sua própria tradição cristã, buscam desesperadamente algum simulacro de transcendência, ainda que nas fileiras de ideologias profundamente hostis ao Evangelho.

Por isso, é necessário, antes de qualquer coisa, desmontar os falsos dualismos, os simplismos sentimentais e as ilusões românticas que povoam tanto a direita quanto a esquerda ocidentais quando se debruçam sobre este conflito. Trata-se, aqui, de compreender que não se está diante de uma luta entre o bem absoluto e o mal absoluto, entre uma civilização que preserva os valores da tradição e outra que representa a decadência moral. Pelo contrário, o que se observa é o embate entre dois messianismos secularizados, ambos herdeiros de cosmovisões gnósticas, emanacionistas, antitrinitárias e anticristãs.

Tais messianismos, embora assumam formas políticas, militares e ideológicas diversas, são estruturalmente idênticos em seus pressupostos metafísicos: ambos rejeitam a Encarnação do Verbo, ambos negam a união hipostática de Nosso Senhor Jesus Cristo, ambos recusam a criação ex nihilo, ambos substituem a graça santificante por processos esotéricos, iniciáticos ou legais, e ambos fundem, de maneira essencial, a autoridade espiritual com o poder temporal, negando, assim, o próprio princípio de distinção entre as duas ordens, tal como foi estabelecido por Cristo e perpetuado pela Igreja.

Portanto, este ensaio se dividirá, metodicamente, na análise de quatro grandes pilares que sustentam, metafisicamente, o conflito:

A metafísica talmúdica e cabalística, que estrutura a concepção judaica moderna do mundo, da história e do Messias.

A metafísica sufi e islâmica, na figura exemplar do filósofo Al-Farabi, que expressa a síntese do esoterismo islâmico e de suas concepções emanacionistas.

O processo de secularização de ambas as cosmovisões, que deu origem, de um lado, ao Estado moderno de Israel — com seus fundamentos socialistas, iluministas e cabalísticos — e, de outro, aos movimentos revolucionários islâmicos, como a Irmandade Muçulmana, a OLP e os grupos jihadistas.

A contraposição da visão cristã, católica e tradicional, que, desde a Encarnação do Verbo, rompe ontologicamente com toda e qualquer tentativa de fundir a transcendência com a imanência, o sagrado com o poder temporal, oferecendo, assim, a chave definitiva para compreender a falsidade metafísica de ambos os projetos.

  1. A Metafísica do Talmud e da Cabala

Nenhuma análise séria sobre o conflito entre Israel e Palestina pode ser feita sem compreender, de modo rigoroso, a metafísica que sustenta a visão judaica talmúdica e cabalística da realidade. Não se trata, evidentemente, de uma crítica aos judeus enquanto indivíduos, mas de uma análise teológica, ontológica e metafísica do judaísmo pós-cristão, tal como ele se desenvolveu após a rejeição da Encarnação do Verbo.

O ponto central dessa metafísica reside, antes de qualquer coisa, na recusa absoluta da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta recusa não é apenas um dado histórico ou teológico, mas um evento ontológico de consequências cósmicas. A partir dela, todo o edifício espiritual do judaísmo se reorganiza em torno da expectativa de um messias puramente terreno, político, militar e imperial, cuja missão não é redimir as almas, mas instaurar um reino mundano, de paz, prosperidade e dominação histórica.

Na concepção judaica, a promessa messiânica não se realiza na pessoa de Jesus Cristo, precisamente porque este afirmou que “meu Reino não é deste mundo”. O messianismo talmúdico, ao contrário, exige um reino que seja deste mundo, e que transforme o próprio mundo, no plano temporal, em uma expressão do paraíso. É por isso que, na teologia rabínica, o Messias é aquele que, pela força do poder, da guerra, da lei e da política, reunirá os judeus, destruirá seus inimigos e instaurará uma era de domínio, prosperidade e segurança material.

Por trás dessa concepção, encontra-se um princípio metafísico ainda mais profundo: a rejeição da doutrina cristã da criação ex nihilo e sua substituição por uma ontologia emanacionista, de raízes gnósticas, cabalísticas e neoplatônicas. Na tradição talmúdica, e sobretudo na Cabala, Deus não cria o mundo a partir do nada, mas o emana de sua própria substância.

A própria interpretação da frase bíblica “Bereshit Bara Elohim” — “No princípio, criou Deus o céu e a terra” — é manipulada no esoterismo judaico para sugerir que há um princípio anterior ao próprio Deus Criador. Este princípio seria uma espécie de superessência indiferenciada, uma unidade impessoal da qual Deus — entendido aqui não como o Deus Uno e Trino da Revelação, mas como o demiurgo, o organizador do cosmos — teria emanado. E, a partir desse demiurgo, toda a criação se desdobra, não como um ato livre, amoroso e soberano, mas como uma necessidade ontológica, uma extravasação de ser.

Neste modelo, a divindade se encontra prisioneira de seu próprio extravasamento. Fragmentos do divino — as chamadas “centelhas” ou Klipot — encontram-se aprisionadas no mundo material, no cosmos, no corpo e na alma dos homens. O drama metafísico da existência, portanto, não é a redenção das almas pelo sacrifício de Cristo, mas o resgate dessas centelhas divinas por meio de práticas esotéricas, rituais cabalísticos, processos de purificação e ascensão gnóstica.

Consequentemente, a própria ordem criada deixa de ser boa, verdadeira e bela em si mesma, como ensina a metafísica cristã, e passa a ser vista como uma prisão, uma ilusão, uma emanação imperfeita. O mundo, a matéria, o corpo, a lei natural — tudo isso é percebido como cadeias que aprisionam a centelha divina. Daí decorre, inevitavelmente, o igualitarismo ontológico que caracteriza tanto o esoterismo judaico quanto seus derivados modernos: se tudo é, em última instância, uma manifestação do mesmo ser divino, então não há hierarquias de ser, de beleza, de verdade ou de bondade.

Essa metafísica conduz, inexoravelmente, à rejeição da analogia do ser, à destruição das hierarquias ontológicas e à recusa de qualquer transcendência real. Deus não é mais o Ser Subsistente por Si, que cria livremente a partir do nada, mantendo absoluta distinção entre Criador e criatura. Ao contrário, Deus é apenas a etapa superior de um processo emanativo, cuja realidade última é uma unidade indiferenciada, sem rosto, sem Pessoa, sem distinções.

  1. A Metafísica do Islamismo Sufi e a Filosofia de Al-Farabi

Assim como no judaísmo talmúdico e cabalístico encontramos uma metafísica marcada pela doutrina da emanação, pelo igualitarismo ontológico e pela rejeição da criação ex nihilo, o islamismo — especialmente em sua vertente sufi — compartilha de princípios estruturalmente análogos, ainda que formulados sob um arcabouço simbólico e teológico distinto.

A compreensão desse fundamento metafísico é absolutamente indispensável para que se perceba que o conflito moderno entre Israel e Palestina não se limita a uma mera disputa por territórios, soberanias ou recursos naturais, mas está enraizado em cosmovisões gnoseológicas que, desde suas origens, se constituem como negações explícitas da teologia cristã, da Encarnação do Verbo, da doutrina da graça santificante e da criação do mundo a partir do nada.

Entre os muitos pensadores que sintetizaram a metafísica islâmica em sua vertente mais esotérica, destaca-se a figura de Al-Farabi (870–950 d.C.), um dos mais eminentes filósofos muçulmanos da Idade Média. Embora muitas vezes tratado pela historiografia acadêmica como um mero comentador de Aristóteles, a realidade é que Al-Farabi foi, sobretudo, um pensador profundamente comprometido com a integração do aristotelismo, do neoplatonismo e da metafísica islâmica em uma síntese que é, essencialmente, gnóstica e emanacionista.

A filosofia de Al-Farabi parte do princípio aristotélico do motor imóvel, isto é, da ideia de que todo ente que se move deve ser movido por outro, e que, portanto, é necessário postular um primeiro motor, absolutamente imóvel, que atue como causa final de todo movimento. Até este ponto, a formulação parece compatível com a teologia clássica. Contudo, é precisamente na interpretação deste motor imóvel que Al-Farabi introduz os elementos fundamentais do emanacionismo islâmico.

Na sua concepção, o Primeiro Ser — que pode ser identificado, em termos teológicos islâmicos, com Alá — é, de fato, o fundamento último do ser, mas este ser não cria o mundo livremente, por um ato de vontade soberana, distinto de si. Ao contrário, o mundo emana de Alá de maneira necessária, automática, quase mecânica. Esta emanação ocorre por etapas sucessivas, formando uma hierarquia de inteligências, almas e esferas celestes, que culminam na formação do mundo sensível e dos seres humanos.

O ponto crucial dessa metafísica reside na identificação parcial, ainda que não absoluta, entre o intelecto humano e o intelecto divino. Segundo Al-Farabi, o ser humano, dotado de um intelecto agente, é capaz de apreender as formas inteligíveis que estruturam a realidade. Ora, essa capacidade de apreensão não é, para ele, meramente uma participação acidental no ser divino, como ocorre na teologia cristã, mas uma identificação real de natureza. O intelecto agente no homem é, em última instância, uma extensão — ou melhor, uma emanação — da própria inteligência divina.

Este é o núcleo metafísico da doutrina sufi: o homem é, em certo sentido, Deus em potência, na medida em que carrega em si uma partícula da própria substância divina. A realização espiritual consiste, portanto, não na elevação da natureza pela graça, como ensina o cristianismo, mas no retorno da partícula divina à sua fonte originária, por meio de práticas ascéticas, rituais iniciáticos e processos de esvaziamento do eu individual.

Nesta concepção, o mundo sensível, a matéria, o corpo e a própria razão são vistos como obstáculos, como prisões que mantêm o espírito aprisionado na ilusão da multiplicidade. A verdade última é a unidade, a indiferenciação, o retorno ao Uno, à fonte originária de onde tudo emana. O caminho da realização não é, portanto, o caminho da redenção, mas o da dissolução do eu, da aniquilação da identidade pessoal e da reintegração no Todo.

Do ponto de vista epistemológico, a doutrina de Al-Farabi estabelece que a capacidade de abstração do intelecto humano — ou seja, a faculdade de apreender as essências universais a partir das realidades sensíveis — não é simplesmente um sinal da estrutura racional da criação, como ensina Santo Tomás de Aquino. Pelo contrário, essa capacidade é a prova de que o próprio intelecto humano é, em essência, divino.

Aqui se estabelece uma ruptura radical com a metafísica cristã. Na teologia católica, a capacidade do intelecto de apreender a verdade decorre da analogia do ser: o homem conhece na medida em que participa, por analogia, do ser subsistente de Deus, sem jamais se confundir com Ele. A distinção entre Criador e criatura é absoluta, ontológica e insuperável. Toda participação é analogia, não identidade. Deus cria livremente, por amor, a partir do nada, e concede às criaturas uma participação no ser que não é o seu próprio ser, mas um dom absolutamente distinto, ainda que sustentado constantemente pela Sua vontade.

Já na concepção de Al-Farabi — como, aliás, em toda a tradição sufi e gnóstica — essa distinção se esvai. A capacidade de conhecer é a própria divindade operando no homem. Portanto, conhecer é, em certo sentido, ser Deus. Daí decorre a conclusão inevitável: se o homem é Deus em potência, ele não necessita de redenção, de sacrifício, de cruz, de Encarnação, nem de graça santificante. Basta-lhe percorrer o caminho do autoconhecimento esotérico, da ascese, da meditação e da dissolução do eu.

Essa doutrina tem implicações diretas e devastadoras para a ordem social e política. Na medida em que não há distinção real entre ordem natural e ordem sobrenatural, entre poder espiritual e poder temporal, entre sociedade civil e sociedade religiosa, toda a estrutura social islâmica se organiza como uma teocracia imanente, onde a lei civil — a sharia — é indissociável da lei religiosa. Não existe, nesse modelo, o conceito cristão de uma ordem natural autônoma, regida pela razão, pela lei natural e pela reta administração dos bens temporais. Tudo é sagrado, porque tudo é divino; e tudo é divino, porque tudo emana do Uno.

Daí decorre, inevitavelmente, a divisão do mundo em duas esferas ontológicas e jurídicas: a Dar al-Islam, ou “Casa da Paz”, que é o território onde a sharia é plenamente aplicada, e a Dar al-Harb, ou “Casa da Guerra”, que é todo o resto do mundo, habitado pelos infiéis e destinado, por princípio, à conversão ou à submissão. Esta divisão não é apenas uma estratégia geopolítica: ela é a expressão ontológica da própria estrutura metafísica do islamismo.

Portanto, assim como no judaísmo talmúdico, também no islamismo sufi — e, por extensão, em grande parte do pensamento islâmico tradicional — há uma fusão radical entre transcendência e imanência, entre o sagrado e o político, entre o céu e a terra. Não há espaço, neste modelo, para a concepção cristã de uma ordem civil legítima, autônoma, racional e naturalmente ordenada, subordinada, sim, à lei moral, mas distinta do governo espiritual da Igreja e da ordem sobrenatural da graça.

O resultado inevitável desse modelo é o messianismo político, que se manifesta tanto na forma da jihad, da guerra santa, quanto na forma do projeto de construção de uma sociedade teocrática, onde o poder civil não é senão um braço da vontade divina — ou, mais exatamente, da interpretação humana dessa vontade, segundo os preceitos da sharia.

Por conseguinte, é absolutamente impossível compreender os conflitos contemporâneos no Oriente Médio sem perceber que, subjacente às disputas territoriais, há uma estrutura metafísica que exige, por princípio, a guerra. Não se trata, aqui, de uma guerra acidental, ocasional, fruto de disputas modernas por recursos ou influência. Trata-se de uma guerra ontológica, cuja raiz se encontra na própria concepção do mundo, da divindade e do ser humano.

É precisamente esse núcleo metafísico que torna o conflito entre Israel e Palestina uma realidade insolúvel no âmbito das soluções meramente diplomáticas, jurídicas ou geopolíticas. O que está em jogo não é apenas uma fronteira, um território ou um tratado. Está em jogo a própria concepção do cosmos, do divino, do humano e da história.

  1. O Processo de Secularização: Do Messianismo Esotérico ao Conflito Político Moderno

Tendo analisado os fundamentos metafísicos do judaísmo talmúdico e do islamismo sufi, torna-se possível compreender como, a partir dessas estruturas espirituais e ontológicas, emergem os movimentos políticos modernos que, ainda que aparentemente laicos e seculares, são, em sua essência, expressões derivadas de messianismos antigos, agora transfigurados pela dialética revolucionária da modernidade.

O que se denomina processo de secularização, nesse contexto, não deve ser confundido com uma mera perda de religiosidade ou um afastamento da esfera espiritual. Pelo contrário, trata-se de uma mutação do sagrado, uma transposição do horizonte metafísico para o campo da imanência, em que os antigos anseios escatológicos, teocráticos e redentores se convertem em projetos políticos, nacionalistas, revolucionários e imperialistas. O messianismo permanece, mas já não como expectativa de um evento escatológico transcendente, e sim como a construção ativa de uma ordem salvífica dentro do próprio tempo histórico.

No lado judaico, esta mutação assume sua forma mais explícita no projeto sionista moderno, cujo pai intelectual, Theodor Herzl (1860–1904), sintetizou no seu célebre tratado O Estado Judeu as bases políticas, ideológicas e filosóficas para a constituição de um lar nacional judaico. O que Herzl propõe, contudo, não é uma restauração da Israel bíblica, nem uma retomada da teocracia mosaica. Trata-se, antes, da edificação de um Estado moderno, secular, socialista, naturalista e profundamente iluminista, fundado nos princípios do nacionalismo moderno e da soberania estatal, tal como concebido pelos ideólogos da modernidade europeia.

O sionismo herzeliano é, portanto, uma secularização do messianismo talmúdico e cabalístico. Se o Messias, na concepção rabínica, deveria instaurar um reino terreno de prosperidade, segurança e dominação, então, na ausência desse Messias, cabe ao próprio povo judeu realizar, por suas próprias mãos, aquilo que antes se atribuía à intervenção divina. A redenção messiânica transforma-se, assim, em projeto político, em empreendimento histórico, em engenharia social.

Não por acaso, o Estado moderno de Israel nasce sob os auspícios diretos das potências modernas — particularmente o Império Britânico e a União Soviética —, contando com o suporte decisivo da família Rothschild, cuja atuação ao longo dos séculos ilustra, de maneira exemplar, a simbiose entre as estruturas da alta finança internacional, o esoterismo cabalístico e os projetos de reconfiguração geopolítica do mundo moderno.

A Declaração de Balfour, de 1917, na qual o governo britânico expressa seu apoio à criação de um lar nacional judaico na Palestina, não é senão a formalização diplomática de um processo que já vinha sendo articulado nas esferas mais altas da engenharia social moderna. A presença dos Rothschild nesse contexto não é acidental, nem meramente econômica. Trata-se, antes, da atuação de uma linhagem que, desde sua origem, está profundamente imbricada com os círculos esotéricos do judaísmo cabalístico, com a maçonaria iluminista e com as estruturas financeiras que alimentaram — e continuam a alimentar — as dinâmicas revolucionárias do mundo moderno.

É essencial compreender que o sionismo não é um movimento homogêneo. Ele se subdivide em diversas correntes, que vão desde o sionismo socialista — majoritário na fundação do Estado de Israel — até o sionismo liberal, religioso, revisionista, nacionalista e até mesmo tecnocrático. Contudo, todas essas correntes compartilham um mesmo pressuposto ontológico: a fusão entre o poder espiritual e o poder temporal, a transformação do messianismo em projeto político, a recusa da ordem sobrenatural como fundamento da esperança escatológica, e sua substituição pela utopia imanente da redenção histórica.

Essa estrutura metafísica secularizada não se limita, contudo, ao lado israelense. No campo islâmico, o processo de secularização assume formas igualmente messiânicas e revolucionárias, expressas de maneira paradigmática na criação da Irmandade Muçulmana, em 1928, por Hassan al-Banna, e na posterior formação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), cuja gênese está intimamente vinculada às operações da KGB soviética durante a Guerra Fria.

O que une movimentos tão aparentemente distintos como o sionismo e a Irmandade Muçulmana não é apenas a lógica geopolítica, mas, sobretudo, o fato de serem ambos expressões de uma mesma transfiguração do sagrado em projeto revolucionário. Ambos partem de uma metafísica emanacionista, que recusa a criação ex nihilo, que nega a queda do homem, que rejeita a necessidade da graça e da redenção operada por Cristo. Ambos transformam a esperança escatológica em horizonte político, ambos fundem religião e política em uma unidade indissolúvel, ambos constroem teocracias disfarçadas de nações modernas, ambos operam segundo a lógica do aceleracionismo revolucionário, em que a história é o campo da redenção, e não mais a alma individual.

Na lógica da Irmandade Muçulmana, por exemplo, não existe qualquer separação entre lei civil e lei religiosa. A sharia não é apenas um conjunto de preceitos espirituais; ela é, sobretudo, a constituição política, civil, econômica, penal e militar de todo e qualquer território que esteja sob a soberania islâmica. E, na medida em que o mundo está dividido ontologicamente entre a Dar al-Islam (Casa da Paz) e a Dar al-Harb (Casa da Guerra), todo e qualquer território habitado por não-muçulmanos é, por definição, um território legítimo de expansão, de conquista e de subjugação, seja pela conversão, seja pela guerra, seja pela imposição da submissão formal (dhimmi).

O Hamas, como expressão extrema desse paradigma, não é senão a manifestação militarizada de um messianismo político que deriva diretamente das estruturas metafísicas do sufismo e do islamismo tradicional, agora transpostas para a lógica revolucionária moderna. Sua atuação não é mero terrorismo no sentido banal da palavra, mas um jihadismo ontológico, cujo objetivo último não é apenas a destruição do Estado de Israel, mas a submissão do mundo inteiro à ordem islâmica, na qual não há espaço para a distinção entre sagrado e profano, entre céu e terra, entre Deus e Estado.

Por outro lado, a própria constituição do Estado de Israel, apesar de suas aparentes estruturas democráticas e liberais, não escapa à mesma lógica messiânica. A presença de movimentos sionistas religiosos, a atuação de setores ultraortodoxos que, ao mesmo tempo em que condenam o sionismo secular, alimentam expectativas messiânicas teocráticas, bem como a constante manipulação das Escrituras para justificar projetos de expansão territorial e supremacia étnico-religiosa, são todos indícios claros de que a secularização não significa, aqui, a mera “laicização” no sentido mais banal do termo, mas uma transmutação do sagrado em poder político.

Eis, portanto, o cerne da questão: o conflito entre Israel e Palestina, tal como se apresenta no mundo moderno, não é senão o desdobramento inevitável de dois messianismos secularizados, ambos herdeiros de cosmovisões gnósticas, emanacionistas e antitrinitárias. A guerra, neste contexto, não é um acidente, nem um problema contingente suscetível de resolução diplomática. Ela é, antes, uma exigência ontológica desses sistemas metafísicos, para os quais a redenção não ocorre na ordem da graça, mas na conquista do espaço, na dominação do outro, na imposição da própria ordem como horizonte absoluto da história.

Por isso mesmo, qualquer tentativa de analisar esse conflito sob as categorias modernas de direitos humanos, autodeterminação dos povos, soberania nacional ou equilíbrio geopolítico está condenada ao fracasso. Tais categorias são completamente inadequadas, pois são produtos da modernidade cristã secularizada, que pressupunha, ao menos em suas origens, a existência de uma ordem natural regida pela razão, pela lei natural e pela separação legítima entre o poder espiritual e o poder temporal. Nenhuma dessas categorias faz sentido dentro das cosmovisões que estruturam, metafisicamente, tanto o sionismo quanto o jihadismo islâmico.

Portanto, o que se observa não é apenas uma guerra no Oriente Médio, mas uma guerra de ontologias, de concepções do ser, do mundo e do destino último do homem.

  1. O Contraste Absoluto: A Visão Cristã Frente ao Messianismo Gnóstico de Israel e Palestina

Diante da análise até aqui desenvolvida, torna-se inevitável concluir que tanto o sionismo moderno — fruto da secularização do messianismo talmúdico e cabalístico — quanto o jihadismo islâmico — herdeiro da metafísica sufi e da teocracia corânica — representam duas faces de uma mesma moeda ontológica. Ambos se estruturam sobre a negação dos princípios fundamentais que sustentam a ontologia cristã: a criação ex nihilo, a distinção ontológica absoluta entre Criador e criatura, a Encarnação do Verbo, a união hipostática, a elevação da natureza pela graça e a economia sacramental da Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

É, portanto, à luz da Revelação cristã — e somente dela — que se torna possível compreender, em toda a sua profundidade, o erro estrutural dessas duas cosmovisões e, consequentemente, a raiz metafísica do conflito que hoje devasta o Oriente Médio.

O cristianismo, desde sua origem, rompe definitivamente com toda concepção emanacionista, com todo dualismo gnóstico, com toda tentativa de fusão panteísta ou monista entre Deus e o mundo. O dogma da criação ex nihilo, definido já nos primeiros séculos da Igreja, estabelece que Deus, Ser Subsistente por Si, absolutamente simples, uno, trino e eterno, cria livremente todas as coisas a partir do nada, por um ato de amor soberano e de vontade onipotente.

Esse ato criador não é uma emanação, nem uma necessidade ontológica. Deus não cria porque precisa extravasar sua essência, nem porque há algum princípio superior ou anterior a Ele. Deus cria por amor, e cria seres que, embora dependentes d’Ele ontologicamente, não são fragmentos de sua substância. A distinção entre Criador e criatura é absoluta e insuperável.

Contudo, essa distinção não significa separação. Deus sustenta constantemente no ser todas as coisas criadas. Mas essa sustentação não se dá pela confusão ontológica, e sim pela participação. As criaturas participam do ser de Deus, mas não se identificam com Ele. O ser criado é um dom, não uma extensão da divindade.

Neste quadro, o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, possui uma natureza espiritual que é elevada pela graça, e não por qualquer processo de autoconhecimento gnóstico, de ascese sufi ou de manipulação cabalística. A elevação do homem ocorre na ordem da graça, que aperfeiçoa a natureza, sem jamais destruí-la ou dissolvê-la.

A própria Encarnação do Verbo — Deus que se faz verdadeiramente homem, sem deixar de ser verdadeiramente Deus — é a chave ontológica que rompe de forma definitiva com todas as concepções gnósticas, sufis, talmúdicas e cabalísticas. Na união hipostática de Nosso Senhor Jesus Cristo reside o ponto absoluto de separação entre o cristianismo e todas as demais cosmovisões religiosas ou esotéricas da história.

Enquanto o messianismo judaico e islâmico busca a fusão entre o espiritual e o político, entre o céu e a terra, entre Deus e o Estado, o cristianismo estabelece, por instituição divina, a distinção essencial entre as duas ordens: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” A Igreja, como Corpo Místico de Cristo, é a única sociedade perfeita fundada para conduzir as almas à salvação, pela administração dos sacramentos, pela pregação da verdade e pela custódia da Revelação. Já o Estado, enquanto sociedade natural, ordena-se aos bens temporais, subordinado à lei natural, mas sem jamais se confundir com a esfera sobrenatural.

Essa distinção não significa, contudo, neutralidade religiosa ou laicismo no sentido moderno e liberal do termo. A civilização cristã, tal como floresceu na Cristandade, é precisamente a síntese harmônica entre uma ordem natural justa, fundada na lei moral e na reta razão, e uma ordem sobrenatural, dirigida pela Igreja, que conduz as almas à bem-aventurança eterna. O poder temporal, subordinado à autoridade espiritual, administra os bens deste mundo sem jamais usurpar para si a missão sobrenatural da Igreja.

É exatamente essa ordem, fundada na hierarquia do ser, na analogia do ser, na distinção entre natureza e graça, entre Criador e criatura, que tanto o sionismo quanto o islamismo rejeitam. Ambos estão estruturados sobre uma ontologia igualitarista, monista e gnóstica, na qual não há distinção real entre Deus e o mundo, entre o espiritual e o político, entre o céu e a terra. Ambos procuram, cada qual a seu modo, instaurar o paraíso na terra, seja pela edificação de um Estado teocrático judaico, seja pela expansão da sharia até os confins do mundo.

Ambos são, portanto, formas de heresia escatológica, de messianismo político, de gnose aplicada à história. E é precisamente por isso que o conflito entre Israel e Palestina não pode ser resolvido por meios humanos. Não se trata, aqui, de um problema de fronteiras, de diplomacia ou de tratados de paz. Trata-se de um problema ontológico, de uma falsa concepção do ser, da criação, da história e do destino último do homem.

Diante desse quadro, o cristianismo não oferece uma terceira via entre Israel e Palestina. Oferece, antes, a única via verdadeira, que transcende radicalmente ambas as falsas alternativas: a via da Encarnação, da Redenção, da Cruz, da Graça e da Igreja. Enquanto os messianismos gnósticos se devoram em guerras intermináveis, na ilusão de instaurar, pela espada ou pela lei, o reino de Deus sobre a terra, a Igreja proclama que o Reino de Deus “não é deste mundo”. O Reino está presente sacramentalmente na Igreja, enquanto peregrinamos neste vale de lágrimas, e se consumará na glória, após o juízo final.

Aqui reside a distinção absoluta. Enquanto os esoterismos judaico e islâmico — assim como suas versões secularizadas no sionismo e no jihadismo — buscam a redenção no tempo, o cristianismo anuncia que a redenção é um evento sobrenatural, operado por Cristo, na Cruz, e perpetuado sacramentalmente na Igreja até o fim dos tempos. Nenhuma engenharia política, nenhum movimento revolucionário, nenhuma jihad, nenhum Estado messiânico pode substituir aquilo que Deus, em sua infinita misericórdia, realizou na Pessoa do Verbo Encarnado.

Portanto, o que se observa, no fundo, não é apenas um conflito histórico, mas a manifestação visível da guerra espiritual que sempre opôs o Reino de Deus às forças da revolução gnóstica. Israel e Palestina, cada qual a seu modo, representam duas expressões históricas dessa gnose perene, que desde os tempos antigos busca usurpar o lugar de Deus, construir a Torre de Babel, instaurar na terra aquilo que só pode ser concedido na eternidade.

É por isso que, enquanto o mundo se divide entre falsos dualismos — pró-Israel ou pró-Palestina, pró-Ocidente ou pró-Islã, pró-sionismo ou pró-jihadismo —, a única posição verdadeiramente cristã é a recusa radical de ambas as alternativas, e a adesão total e incondicional ao Reino de Cristo, que não é deste mundo, mas que governa soberanamente sobre este mundo e sobre o mundo vindouro.

Conclusão Geral

O conflito entre Israel e Palestina não é, em seu núcleo mais profundo, uma disputa de terras, de fronteiras ou de direitos civis. Trata-se, antes, do embate histórico entre dois messianismos gnósticos, ambos derivados de concepções metafísicas que negam os fundamentos da ontologia cristã.

Tanto o sionismo moderno, herdeiro da Cabala, do Talmude e do iluminismo revolucionário, quanto o jihadismo islâmico, expressão político-militar da metafísica sufi e da teocracia corânica, são, em última análise, tentativas de construir na terra um paraíso que só pode existir no céu. Ambos rejeitam a Encarnação, ambos negam a Cruz, ambos desprezam a graça, ambos confundem o Criador com a criatura, o espiritual com o político, o céu com a terra.

Diante desse panorama, a única resposta verdadeira é aquela que a Igreja, desde os Apóstolos, proclama ininterruptamente: só há salvação em Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus verdadeiro e homem verdadeiro, único mediador entre Deus e os homens, único Rei, cuja soberania se exerce, já neste mundo, no governo invisível, mas real, da Igreja, e que se consumará na glória, quando Ele vier julgar os vivos e os mortos, e estabelecer definitivamente o seu Reino, onde não haverá mais guerras, nem lágrimas, nem dor, mas apenas a perfeita visão do Ser, na bem-aventurança eterna dos justos.

 

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