De que vale uma defesa acalorada da liberdade de expressão em um ambiente de espiral do silêncio? Em geral, o fenômeno diagnosticado por Elisabeth Noelle-Neuman (e publicado pela primeira vez no Brasil pelo Instituto Estudos Nacionais), é encarado como mera ocultação ou conspiração de silenciamento. Na verdade, trata-se de um desinteresse momentâneo, ou permanente, sobre algum tema, seja por incômodo, incompreensão ou conflito de interesses. Mas a pergunta é: para que serve a liberdade de expressão se permanece proibido dizer para que ela serve? Ou ela é um valor em si mesmo?
Em seus nove anos de existência, o Instituto Estudos Nacionais se pautou por um jornalismo investigativo que nunca se reduziu a minúcias financeiras ou politicagens rasteiras, mas à observação atenta e criteriosa do percurso das agendas ideológicas que verdadeiramente conduzem a história para além de conchavos ou maquinações políticas. Nossa análise sempre teve em mente o mais óbvio ensinamento que recebemos de Olavo de Carvalho: o dinheiro ou o lucro nunca está no objetivo final da conquista do poder, pois ele é apenas o meio. A atenção desmedida nos benefícios financeiros do poder revela mais sobre quem dá atenção a isso e diz muito sobre a mediocridade de nossas análises geopolíticas.
Não foram poucas as vezes em que nosso jornalismo foi recebido com incômodo e até uma agressiva incredulidade, fruto do choque natural com verdades desveladas. Esta tem sido a principal preocupação do jornalismo católico do EN: denunciar e alertar para a presença dos erros e as possibilidades do engano entre aqueles que desejam manter-se fiéis à Verdade. Da mesma forma, resulta em um fácil isentismo procurar na genérica “luta contra a corrupção” uma bússola moral para resguardar-se de possíveis erros. Hoje, essa luta se apresenta também na desconversa da luta pela “liberdade de expressão”. O EN questiona a esses apóstolos da liberdade: liberdade para dizer o que? Só defende liberdade genericamente quem não pode revelar seus objetivos. A resposta é simples: só criminosos de internet defendem a liberdade irrestrita e não dizem mais nada depois disso. Qual a razão por trás da Nova Direita e dos movimentos neoconservadores liberais estarem tão preocupados com a liberdade de expressão?
A verdade é que quando a defesa da liberdade de expressão se torna uma causa “intransitiva”, isto é, encerrada em si mesma, ela não apenas marca o seu óbvio pertencimento às liberdades revolucionárias, como também assume a sua autocensura. Por medo de dizer verdades vistas como impopulares, esses conservadores repetem o método revolucionário de uma liberdade indiferente, a suposta imparcialidade, que foi criada apenas para disfarçar as verdadeiras teses que não podiam verbalizar. Será que as causas conservadoras são mesmo proibidas de dizer? Ao menos pelos próprios conservadores sim. Seja o seu sim, sim, seu não não, disse Nosso Senhor.
A espiral do EN
Completamente sozinho na denúncia da infiltração russa entre conservadores e católicos, o Estudos Nacionais já percebeu o quanto é incômodo dar nomes de influencers ligados ao novo establishment globalista da multipolaridade. O avanço deste tipo nem tão novo de globalismo atende à mesma agenda disseminada ao longo do século XX, mas com uma linguagem apetecível ao público cada vez mais carente de bases morais e doutrinárias, ainda que desligado de suas raízes reais.
Nos últimos anos, o EN tem se levantado corajosamente contra cismáticos infiltrados nos movimentos tradicionalistas, que através de um às vezes sutil e enrustido sedevacantismo, têm levado as almas não apenas para o cisma, mas para a heresia e até apostasia formal. Em muitos casos, isso ocorre não por má intenção, mas por ingenuidade. Essa ingenuidade, no entanto, conduz irremediavelmente à ruína que estamos observando.
A espiral do silêncio diz respeito ao silenciamento voluntário de certas opiniões ou temas devido a uma percepção de desconforto e um temor do isolamento social. O EN está se levantando exatamente contra este efeito e sofrendo precisamente essa consequência. Como sempre houve na história, as almas corajosas sustentaram a Verdade nos períodos de trevas, como ocorreram com muitos santos da Igreja e heróis de diversas nações. Distante da sua superioridade histórica, ao menos o EN se inspira neles ao não consentir com a tentação da omissão que todos os dias bate à porta com novas e sedutoras alternativas de marketing digital ou polêmicas inúteis e fáceis.
O alerta do EN tem uma razão: a previsão que nada tem de profética, mas simples constatação dos fatos, é a de que conservadores e católicos, em breve, sofrerão a perseguição mais cruel que conheceram. A razão disso pode estar em muitos pontos, mas a principal dela reside na associação com tais movimentos neofascistas e esotéricos, que serão perseguidos não por sua natureza anticristã, obviamente, mas pelo seu alinhamento a certas forças políticas, seja a Rússia ou a direita brasileira, até mesmo a bolsonarista, que distraída da base espiritual e conceitual das suas convicções, irá irremediavelmente garrar-se ao bote salva-vidas do indiferentismo, da conciliação com pecados que bradam aos céus por vingança, com a heresia e finalmente com o cisma. Rogamos a Deus que os bem intencionados e as almas verdadeiramente justas acordem a tempo. No entanto, não somos ingênuos. Enquanto perseverarem no erro estarão contra nós e nós contra eles.









