São gravíssimas as informações divulgadas no recém-lançado livro-dossiê Comissário dos Arautos do Evangelho: crônica dos fatos, 2017-2025. Segundo consta no denso volume de mais de 700 páginas, o cardeal Dom João Braz de Aviz, na função de Prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, é implicado em pelo menos dois grandes delitos: abuso de autoridade e acobertamento de um caso de escândalo sexual envolvendo um sacerdote indicado pelo purpurado como Auxiliar do Comissariado. Trata-se de Frei Evaldo Xavier Gomes (OCarm), que segundo o livro afirma, permanece ativo no cargo de Comissário no Mosteiro São Bento, em São Paulo, mesmo após o Dicastério tomar conhecimento do seu envolvimento comprovado por perícia fotográfica.
O livro também aponta violações graves, conforme o Direito Canônico, na omissão de providências contra tais escândalos, tanto da parte do então Comissário quanto da parte do próprio Prefeito do Dicastério, desafeto declarado dos Arautos do Evangelho. Com base no Motu proprio, Vos estis lux mundi, do Papa Francisco, que trata da obrigação de denunciar atos delituosos perpetrados por clérigos, bem como da pena por graves omissões deste tipo, os autores do livro apresentam um preocupante retrato da crise que assola a Santa Igreja, contando entre as muitas vítimas de abusos a própria associação Arautos do Evangelho, um dos movimentos católicos que mais cresceu no século XXI após aprovado por São João Paulo II, no ano 2000.
A história do acobertamento do escândalo sexual começa com a nomeação de um frei já problemático para atuar contra a instituição.
Frei Evaldo: o “comissário do Comissário”
De acordo com o relato exposto no livro, o gravíssimo escândalo teve início a certa altura do Comissariado, quando o então prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica da Santa Sé, Dom Braz de Aviz, nomeou um amigo seu, o frei Evaldo Xavier Gomes, (OCarm) dito de sua inteira confiança, para o cargo de Auxiliar do Comissário Dom Raymundo Damasceno.
Sem muita explicação, o Frei Evaldo (OCarm) teria começado a comportar-se como se fosse um comissário, interpelando a função canônica relegada oficialmente ao cardeal Dom Raymundo Damasceno, chegando a ser apelidado, no livro, de “comissário do comissário”. É preciso que se diga que o legítimo comissário, Dom Damasceno, não foi mais recebido pelo Prefeito do Dicastério que o nomeou desde os fatos que serão narrados aqui, conforme documenta o livro.
Este frei, conforme o relato, teria mantido um comportamento visto como estranho e até paranoico quando estava junto dos membros dos Arautos, o que já levantava certa inquietação: sentava-se ao fundo quando era convidado a sentar-se à frente nas reuniões, alegando que temia “ser agredido”. Tal comportamento parecia típico dos adversários ideológicos dos Arautos do Evangelho ou de pessoas influenciadas pelas acusações feitas na imprensa na época, todas elas, enfim, arquivadas ou encerradas por ausência de provas. Será que esse comportamento visava dar verossimilhança ao que se pretendia comprovar? O livro dá a entender que sim e esta teria sido a função precisa do Frei Evaldo, tarefa que Dom Damasceno parecia não desejar exercer.
As fotos
Em dado momento do comissariado, uma pessoa ligada ao Mosteiro São Bento, em São Paulo, enviou um material comprometedor ao canonista dos Arautos do Evangelho privadamente, envolvendo o frei Evaldo no tempo em que o sacerdote exerceu função de Comissário junto ao Mosteiro. Recebido com escândalo, o material não foi divulgado, mas enviado à autoridade competente, que no caso era o Comissário, cardeal Dom Raymundo Damasceno, o que foi feito.
O conteúdo das fotos era de teor homossexual, envolvendo o próprio frei Evaldo, conforme relato abaixo. Uma das imagens, porém, continha um menor de idade em uma situação ambígua que inspirava suspeita. O canonista dos Arautos, que recebeu o material sob sigilo, era o Dr. Jimenez (autor do livro), que zeloso do risco de escândalo para a Igreja e os fiéis, encaminhou ao Comissário, que as pretendia entregar ao próprio Dom Braz pessoalmente, já que estava para ir a Roma. O objetivo era que fossem tomadas medidas cabíveis internamente, sem causar escândalo, o que ficou evidente na troca de mensagens entre o canonista dos Arautos e o comissário Dom Damasceno.
“o frade aparece despido com rapaz em um banheiro. Em outras eles aparecem abraçados e se beijando de modo acalorado Em outra sequência, o frade aparece deitado e abraçado na cama com outro indivíduo. Chama a atenção, neste último caso, a presença de um menor de idade abraçado a este último em foto distinta, bem como outra foto de Frei Evaldo junto a essa mesma criança. As fotos não evidenciam o crime de pedofilia; no entanto, cabe investigação para apurar a relação entre o frade e essa criança em meio a esse dúbio contexto“.
Como já mencionado, o cuidado que o caso exige fez com que o Dr. Jimenes preferisse entregar o material pessoalmente a Dom Damasceno.
Aproveitando uma viagem a Brasília ocorrida em 14 de outubro de 2021, Dr. Jiménez explicou pessoalmente ao Comissário “ser esta a única medida que lhe cabia, por se tratar do caso de um clérigo. Contou-lhe também a procedência do material. Esse encontro deu-se no aeroporto de Brasília, pouco antes de Dom Damasceno embarcar para Roma”, conta o livro.
“A razão de entregar pessoalmente a Dom Damasceno, e não a outra pessoa, é a reserva que o caso impunha. E a esperança da delicadeza e seriedade com que V. Em.a poderia tratar o caso”.
Omissão de Dom Braz
Retornando de Roma, Dom Damasceno procurou o canonista para relatar o prosseguimento do caso. Conforme relata o livro, em 1º de novembro de 2021, Dom Damasceno enviou um e-mail ao canonista pedindo “para tratar pessoalmente do assunto”. Não sendo possível a viagem imediata para isso, Dom Damasceno telefonou e
“…narrou ter mostrado as fotos a Dom Braz de Aviz. Explicou que o Prefeito logo se posicionara, dizendo que não tomaria nenhuma medida em relação a Frei Evaldo, “em função dos serviços prestados”.
O vazamento
Acontece que, poucos meses após o encaminhamento das fotos, as imagens acabaram vazando a grupos de Whatsapp, surgindo em seguida uma matéria publicada no site Católica Conect, dando origem a um escândalo no meio católico e a sucessiva renúncia de Frei Evaldo do cargo de consultor canônico da CNBB, entre outros.
Cobrado pelo Comissário por e-mail sobre a divulgação prematura do fato, Dr. Jimenez respondeu-o explicando seu reiterado desejo de manter o sigilo da questão e de como isso fugiu ao seu controle pela própria gravidade do caso.
Explicava, ao final, o Dr. Jimenez, no e-mail:
“Limitei-me a lhe confiar documentos que me entregaram, relativos a um sacerdote, seu Auxiliar no Comissariado, os quais testemunham delitos daqueles declarados no cân. 1395, os quais exigem das autoridades competentes as medidas indicadas na normativa canônica. Além de levantarem graves suspeitas de delitos com menores, dos tratados no Motu proprio Vos estis lux mundi”.
Como Dom Damasceno procurava saber a identidade da pessoa que havia entregado as imagens, Dr. Jimenez explicou o desejo de a pessoa manter-se sob anonimato e falou sobre a motivação principal do denunciante:
“A pessoa em posse desses documentos (e de muitos outros, como me confidenciou) esperava que eu, como canonista, encontrasse um meio que tirasse a ele da obrigação moral de denunciar publicamente a terrível situação em que se encontram os frades beneditinos, tendo que participar de cerimônias litúrgicas de tal pessoa”
Desejando ainda tornar clara a intenção e a necessidade do cuidado e urgência do caso, Dr. Jimenez pediu ainda a Dom Damasceno que, mesmo após publicadas as fotos, fossem tomadas medidas para reduzir o escândalo e reparar o problema. Afinal, como relata, a presença de Frei Evaldo ainda no Mosteiro de São Bento permanece como um risco permanente.
Continuava, no e-mail, Dr. Jimenez,
Infelizmente V. Em.a, em acordo com o Cardeal Braz de Aviz, como V. Em.a teve por bem me informar em posterior telefonema, decidiram não tomar nenhuma medida relativa ao caso, ‘em função dos serviços prestados’ por esse sacerdote de vida tão distante da exigida pela moral; deixando de lado, igualmente, qualquer preocupação pela situação objetiva de pecado, e pelos Sacramentos eventualmente sacrílegos.
Encerrando o e-mail da seguinte forma:
“Lamento dizer a V. Em.a, mas tanto o senhor, como o Cardeal Braz de Aviz, poderiam ter evitado este novo escândalo há alguns meses. Não aconteceu. E os possessores dos documentos os publicaram, sem que eu soubesse previamente. Quando tomei conhecimento pela internet, limitei-me a informar a V. Em.a na espera de que medidas imediatas fossem tomadas para ‘o restabelecimento da justiça, a emenda do réu e a reparação do escândalo’. Agora, esperemos que medidas de reparação do escândalo sejam tomadas por todos os que de alguma forma contribuíram para que ele não fosse evitado. Espero que eu não precise declarar todos estes fatos, se for chamado por alguma autoridade ou por jornalistas”
Segundo os autores do livro, Dom Damasceno não respondeu a este e-mail, tampouco falou mais do assunto quando teve oportunidade, em reuniões referentes ao Comissariado. Após a publicação do livro, porém, o cardeal pediu demissão do cargo de comissário, o que, no entanto, foi recebido com uma “súplica” de permanência por “mais alguns meses” por parte da atual Prefeita do Dicastério, sucessora de Dom Braz de Aviz e que trabalhava como Secretária do Dicastério quando os fatos narrados ocorreram.
A omissão permanente: Frei Evaldo continua ativo
Por fim, o livro afirma não constar que o frei tenha sido afastado das suas funções no Mosteiro São Bento, onde graves abusos foram objeto de investigação, incluindo menores de idade. De fato, notícias recentes mencionam o Frei Evaldo Xavier como “abade do Mosteiro São Bento” como convidado a eventos e presente em solenidades, tendo celebrado inclusive uma missa com diversas autoridades presentes no Mosteiro, conforme relata a notícia.
O abade anterior do Mosteiro havia sido afastado por acobertar os abusos, tendo sido nomeado em seu lugar o Frei Evaldo, a mando do cardeal Braz de Aviz.
O livro acusa formalmente o Dicastério, com farta documentação, pela omissão e acobertamento da conduta ativa do frei, um fato grave que não recebeu nenhuma investigação até o presente momento. De acordo com o Código de Direito Canônico, ao saber de tais delitos envolvendo sacerdotes, a autoridade competente deve tomar providência em, no máximo, 30 dias, o que já foi excedido em muito.
Conforme a Carta Apostólica Vos estis lux mundi, promulgada pelo Papa Francisco, os prazos para membros do clero que tomarem conhecimento de atos delituosos envolvendo o Sexto Mandamento ou abusos de menores informarem ao Dicastério competente, deve ser de 30 dias (art. 10 §2); bem como o tempo máximo de 90 dias para concluir a investigação (art. 14 §1). Até o presente momento, nenhuma informação de providências foi publicada.




