O caso do Comissariado imposto à instituição Arautos do Evangelho é uma trama que poderia ser uma obra de surrealismo literário mais do que kafkiana. O livro-dossiê recém lançado, O Comissariado dos Arautos do Evangelho: Crônica dos fatos (2017-2025), evidencia uma espantosa quantidade de desvios jurídicos, civis e canônicos, para literalmente empurrar o processo na direção de encontrar, custe o que custar, algo que desabonasse a instituição. Diz o Direito Canônico que cabe à autoridade eclesiástica investigadora zelar pela imagem dos investigados, uma forma de evitar injustiças e linchamentos públicos. No entanto, o que se viu foi a permanente suspeita dirigida a qualquer um que não confirmassem as denúncias já enumeradas em processos e para os jornais.
O que fica provado no livro é que os cardeais envolvidos, Dom Braz de Aviz e Dom Jaime Spengler, encontravam-se em segredo e paralelamente com os desafetos e inimigos declarados dos Arautos, prometendo-lhes seguir com o processo e instituir o Comissariado meses antes de informar os investigados. Dom Jaime participava, inclusive, ativamente de um grupo de Facebook chamado “ex-Arautos Hard”, que se ocupava de destilar mensagens de ódio à instituição. Eles ouviram até mesmo pessoas de moralidade duvidosa, ódios ressentidos contra a instituição e ligações com movimentos tradicionalistas cismáticos, opositores do Concilio Vaticano II. Parece que para acabar com os Arautos vale tudo.
Dom Braz, já sabemos, é aquele da famosa frase “eu não suporto a pureza deles”.
Nos últimos anos, os Arautos foram responsáveis por nada menos que 3 milhões de consagrações a Nossa Senhora pelo método de São Luis Maria Grignion de Montfort, através de cursos gratuitos promovidos pela instituição na internet. O que os mantém cerceados por autoridades eclesiásticas? Qual é a cumplicidade de certos prelados envolvidos e qual a razão pela qual dão tanto ouvidos a desafetos e ex-membros ressentidos? O livro-dossiê explica os desvios canônicos cometidos para fazer avançar um processo ilegítimo movido por antipatias aparentemente inexplicáveis.
Mais de 17 mil páginas de resposta a oito perguntas
Na visita apostólica, primeira fase da intervenção do Vaticano, foram enumeradas oito questões ligadas às denúncias. Foram oito grupos temáticos extraídos das diversas questões que pesam sobre os Arautos. Em sua maioria, as perguntas misturavam queixas de ex-membros com teorias conspiratórias criadas de longa data por desafetos históricos da instituição, como membros da Associação Cultural Montfort e seu presidente, Alberto Zucchi, que atuou ativamente para disseminar velhas teses de seu mestre Orlando Fedeli. Vendo com tristeza que autoridades eclesiásticas de grande dignidade prestaram-se a dar crédito a questões básicas de doutrina que foram respondidas até por canonistas como Antônio Royo Marin, um entusiasta da antiga TFP, iniciou-se uma paciente e obediente organização de novas documentações.
Assim, os Arautos criaram uma comissão para fazer a devida defesa com extrema clareza na resposta a todas as questões para, enfim, não deixar dúvidas em aberto. Quais eram os questionamentos?
- Culto sectário a Dr. Plinio, Dona Lucília e Monsenhor João Clá: as denúncias se basearam inteiramente na obra No País das Maravilhas: a gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho, de Orlando Fedeli, acrescidas de centenas de testemunhos e relatos por e-mail e depoimentos de desafetos e adversários históricos da instituição.
- Acusações de Milenarismo: esse grupo de denúncia dizia respeito à suspeita de ensinamento sobre um castigo iminente, vitória de Maria, profetismo de doutor Plinio Corrêa e Mons. João Clá etc.
- Relações com as famílias: depoimentos de ex-arautos que denunciavam má relação com familiares de religiosos, expresso em termos como “Fonte da Minha Revolução”, onde a família seria vista como obstáculo para a salvação dos filhos.
- Exorcismos: aprovação e ampliação de práticas exorcísticas por sacerdotes arautos sem a devida autorização eclesiástica e relatos de invocação do nome de Mons. João para esses rituais.
- Imagens que choraram (América Central): questionamentos sobre como os fatos narrados foram e tem sido acompanhados pela direção dos Arautos.
- Armas: relatos de uso e porte de armas de fogo por parte dos sacerdotes. Questionamento sobre o fundamento da denúncia.
- Magistério Pontifício: ausência de materiais do Magistério Pontifício na revista dos Arautos do Evangelho. Pergunta se é verdade ou tem fundamento.
- Patrimônio: questionamentos financeiros sobre familiares de arautos se teriam ou não conta no exterior.
Todas as questões tinham a mesma característica: ausência de elementos concretos e a permanente presença de ilações feitas por desafetos conhecidos.
Em resposta às oito perguntas, os Arautos entregaram um calhamaço de 570 páginas, acrescentadas de 75 anexos recolhidos em 50 volumes, totalizando nada menos que 17.947 páginas, resumidas em um documento de 58 páginas para facilitar a consulta e leitura da complexa problemática levantada. Tudo isso foi entregue ao grupo dos Visitadores Apostólicos em agosto de 2018.
Encaminhado este verdadeiro arsenal de documentos, os Arautos do Evangelho consideraram respondidos os questionamentos agrupados nas oito questões citadas acima. Não havia mais nada a temer, pois se houvesse novas dúvidas, bastava que questionassem novamente. Além da densa documentação, foram acrescentadas ainda cerca de 650 cartas de autoridades eclesiásticas em defesa dos Arautos. Tudo isso parecia finalmente resolvido.
Cumprindo a etapa da Visita Apostólica e tendo sido atendidos os pedidos, não haveria razão para a formação de um Comissariado, que só se instalaria havendo prova de delito ou desvio. Então por que ele ocorreu?
A resposta pode estar em uma confidência feita por um certo prelado brasileiro que esteve com o Secretário da Congregação, em Roma, Dom José Rodriguez Carballo. Ao apontar para a pilha de documentos enviada pelos Arautos à Congregação, instou o Secretário a consultá-la, ao que o Secretário deu a seguinte e impressionante resposta:
– “Para quê?! Não adianta nada, pois são todas favoráveis a eles!”
Imagine se um juiz se negar a ouvir a defesa do acusado porque afinal, “é tudo favorável ao réu”, como se a defesa de um acusado devesse, por exigência, respeitar e considerar verdadeira a versão acusatória, sujeitando-se a uma confissão obrigatória de culpa. O nível de surrealismo beira a loucura! A imparcialidade do investigador nomeado estava maculada. Mas não parou por aí.
Em novembro de 2018, o Cardeal Dom Braz de Aviz pediu a Dom Sérgio de Deus, um dos visitadores, uma “explicação exaustiva” depois de ter sido enviada a farta documentação. Ora, Dom Sérgio, que acompanhou de perto, havia já enviado uma carta anterior dizendo à Congregação:
“Não constatamos nenhuma irregularidade” e “tendo lido as respostas ao questionário dos membros associados e cooperadores, não constatamos nada que desabone a associação”.
Dom Sérgio havia relatado a parcialidade das denúncias e a sua ilegitimidade por se tratarem de um clima vicioso de denúncias envolvendo um acirramento em grupos de Facebook (entre os quais, sabemos, Dom Jaime era membro assíduo) mantidos por desafetos e inimigos históricos em uma enorme pressão por punição contra os Arautos “capitaneada principalmente por Alberto Zucchi e Vitor Gama, desafetos da instituição”, como relata o livro com base no dossiê.
Dom Sérgio percebeu o problema e relatou a Dom Braz.
“Vossa Eminência poderá constatar que os testemunhos negativos e denúncias não vieram de visitas ‘in loco’, mas de grupos externos, ex-arautos e desafetos dos Arautos”.
Mas Dom Braz não gostou nada dessa resposta. O fato é que ele já estava decidido a instaurar o Comissariado. A prova disso é que, já em abril de 2019, cinco meses antes do início da Intervenção, Dom Braz havia já antecipara a uma das supostas vítimas dos Arautos que iria instituir o Comissariado. Isso ficou provado em um e-mail enviado ao cardeal Dom Raymundo Damasceno em outubro de 2019, no qual a mãe da jovem dizia (grifos nossos):
“Minha filha esteve com Dom Braz em audiência no Vaticano em abril…, o qual foi enfático em afirmar que sabe que os Arautos são uma organização manipuladora. Nesta ocasião, prometeu à minha filha que mandaria um comissariado para fazer as correções necessárias”.
Isso ocorreu depois da Visita Apostólica, que nada encontrou, e tendo Dom Braz se negado a receber qualquer membro da associação. Ele estava determinado a iniciar o comissariado independente do resultado da Visita Apostólica ou até contra esse resultado caso não encontrasse o que procurava.
Dom Braz jamais recebeu os Arautos, mas recebia de bom coração qualquer desafeto que o procurasse no Dicastério. A cumplicidade de Dom Braz com os detratores o tornariam naturalmente impedido para julgar e todo o processo anulado diante do Direito Canônico. Este é um dos mais graves abusos relatados no livro-dossiê que explica a razão dos Arautos ainda estarem sob um comissariado que parece procurar asfixiar a instituição lentamente.
Enquanto tudo isso transcorria sem o conhecimento dos próprios investigados, os mesmos prelados encaminhavam denúncias à mídia, que tratava de construir o clima propício na opinião pública. Os Arautos ficaram sabendo do Comissariado pelos jornais, só então receberam a comunicação do Vaticano.
Dom Jaime, ao explicar a natureza do Comissariado, dizia que ele é instituído quando já existe prova de delito e até de crimes. Uma das líderes dos adversários dos Arautos narrou que, já em 2018, antes mesmo da Visita Apostólica, Dom Jaime aconselhou-os que encaminhassem denúncias ao Ministério Público. Ao final, todas as denúncias foram arquivadas por falta de provas. E o Comissariado continua.




