Kevin Eger
Enquanto escrevo, jaz sobre minha escrivaninha o livro recém-publicado, a respeito do assunto ao qual os meios concordaram em batizar de Caso Arautos, e que vem produzindo estalidos com cheiro de pólvora na imprensa internacional.
A obra descortina uma história impressionante, onde vemos a Instituição ou seus membros – fundador inclusive – sendo continuamente alvo de ameaças (até de morte) e calúnias, além de sofrerem com as decisões arbitrárias da Congregação romana então chefiada pelo Cardeal João Braz de Aviz.
Ao longo das páginas, campanhas midiáticas sensacionalistas em larga escala e falsas denúncias no judiciário civil intercalam-se com as medidas da Congregação em ritmo sincronizado, à maneira de uma orquestra. Documentos são adulterados, decretos coercitivos exarados antes mesmo de qualquer apuração dos fatos.
A narrativa segue como uma reação em cadeia, com ataques sempre mais ferozes, mais descarados, mais revoltantes; com personagens cada vez mais assanhados, mais cruéis, mais dantescos. Uma história surreal, inacreditável, no sentido mais literal da palavra, não fossem as 160 páginas de documentação anexas à crônica – sem contar que o livro indica ser essa apenas uma amostra do total arquivado – e mais outras 235 de argumentação canônica. Diante de tanta prodigalidade comprobatória, o ceticismo, que em princípio se imporia, começa a tornar-se uma posição desconfortável.
Aliás, somente admitindo o conteúdo é que podemos entender o próprio livro. Religião naturalmente voltada à concórdia, o catolicismo só costuma mostrar os dentes quando se sente acuado. Assim Jesus Cristo expulsou os vendilhões do templo; assim seus seguidores proclamaram os dogmas e as cruzadas.
E falando em História, a leitura da obra produz um efeito curioso: ao mesmo tempo que se nos apresenta como algo inédito, dá-nos também a sensação de estarmos tomando contato com um enredo já conhecido. Vários dos artigos publicados até o presente sobre o Caso Arautos – adotemos igualmente a expressão – parecem sentir a necessidade de relacioná-lo com outros episódios análogos da política eclesiástica recente. Fê-lo primeiramente Gagliarducci, sendo logo replicado em outros meios de imprensa.
De nossa parte, também sentimos nossa memória forçosamente assaltada por recordações. Vendo o trabalho, com sua capa vermelha, sobretudo abrindo-o e tomando contato com seu conteúdo, imediatamente recordamo-nos de Emmanuele Brunatto, defensor do Padre Pio de Pietrelcina, e seu Livro Branco.
Com efeito, o capuchinho havia sido punido injustamente pela Sé Apostólica, com base em falsas acusações, feitas por desafetos de moralidade absolutamente condenável, e mal apuradas pela autoridade competente. Brunatto chefiou uma comissão para redigir o livro-bomba de mais de quatrocentas páginas, denunciando todos os abusos e “atentados contra os direitos humanos” de que o santo fora vítima ao longo de décadas – nos quais não faltou nem mesmo um decreto com erros materiais – e “dando nomes aos bois”. A preparação da obra iniciou-se em fins do pontificado de João XXIII, mas o livro só foi entregue ao recém-eleito papa, Paulo VI – até aqui, as semelhanças. Emmanuele obteve justiça, porém faleceu misteriosamente um ano depois. Mas isso já é outro assunto, voltemos ao nosso.
O livro vermelho do comissariado – perdoem-nos a liberdade do apodo – parece centrar-se na ideia de que o Caso Arautos gira em torno de um problema ideológico, julgado por um tribunal ideológico – única espécie, além do político, que fundamenta a culpabilidade do réu no simples inconveniente que haveria em ele ser inocente. E o crime, enunciado e repetido ao longo da obra, é ser Arauto do Evangelho. Por quê? Pelo fato de a existência deles, uma vez reconhecida, tornar impossível um determinado modelo de Igreja, mais a gosto dos “Braz”, dos “Evaldos” e cia.
Do outro lado, permanecem os acusadores – agora também como acusados – defendendo exatamente o oposto do que relatamos até agora. Haverá tréplica? A fazê-la, terão bastante trabalho.
O mais interessante de tudo isso é que, a partir de agora, o silêncio tornou-se impossível. O livro vermelho é tão veemente que clama por uma posição: ou por ele, ou contra ele. Claro está, isso não resulta tão simples, pois, pelos contornos que o caso já tomou, uma declaração de inocência geraria automaticamente uma condenação. E uma condenação pode angariar rancores, e vinganças. Terêncio tinha razão quando afirmava que “a verdade engendra o ódio”; por isso defendê-la, embora seja tão nobre, custa tanto. Mas agora não há escapatória: chegou a hora da verdade. Não há mais espaço para hesitar, a decisão precisa ser tomada, e logo.
Não resistimos em fazer só mais uma alusão histórica. Martinho Lutero desejava um novo modelo de Igreja, e permaneceria apenas um monge com ideias um tanto originais, se o tivessem condenado a tempo. O protestantismo era uma utopia, mas a pusilanimidade de Leão X transformou-o em revolução. E nem precisamos dizer quanto sangue correu por causa disso. Quiçá tenha chegado o momento de perceber que o Caso Arautos não é apenas uma “querela de frades”.





