Andrea Gagliarducci*
O autor da presente resenha é um dos mais reconhecidos vaticanistas da atualidade e especialista na diplomacia vaticana, traz a lume para a opinião pública um livro publicado e organizado pelo canonista Dr. José Manuel Jiménez Aleixandre e pela Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, doutora em Filosofia, cujo título é “O Comissariado dos Arautos do Evangelho: Crônica dos fatos 2017-2025, punidos sem diálogo, sem provas, sem defesa” (original em italiano no Vatican Reporting).
Entre a herança do pontificado do Papa Francisco, há também uma questão que envolve em suspensão e que prevê uma intervenção adiada sine die por acusações nunca realmente comprovadas, mesmo nos casos em que os processos civis instaurados (30 no total) sempre terminaram com o arquivamento ou a absolvição das pessoas envolvidas. Este caso é relatado em um livro detalhado, composto por um terço de documentos originais, chamado O comissariado dos Arautos do Evangelho, cronologia dos fatos 2017-2025, lançado recentemente em italiano [n.r. o original é português e há também tradução para o espanhol]. O livro pode ser adquirido no link.
Escrito por José Manuel Jiménez Aleixandre e Irmã Juliane Vasconcelos Almeida Campos, ambos dos Arautos do Evangelho, o livro detalha em mais de setecentas páginas toda a história dos Arautos do Evangelho, a partir da decisão de seu comissariamento em 2019, após uma visita apostólica iniciada em 2017.
A visita apostólica e, posteriormente, o comissariado, afetaram uma das realidades mais prósperas das congregações religiosas, com obras em 78 países e uma vocação para trazer cultura e criar uma civilização do amor que agradou a João Paulo II, tanto que os Arautos foram a primeira associação de religião erigida pela Sé no novo milênio.
Por que falar do caso dos Arautos do Evangelho hoje?
Porque, em primeiro lugar, o caso dos Arautos parece representativo de vários casos ocorridos durante o pontificado do Papa Francisco. Num dos últimos casos, o do Sodalitium Christianae Vitae viu a supressão da associação por parte do Papa Francisco no leito de morte – mas já em 2024, o cardeal Carlos Castillo Mattasoglio, arcebispo de Lima, escreveu um artigo no jornal espanhol El País para pedir a sua supressão.
O caso do Sodalitium mostrou uma inversão na praxe da Santa Sé, porque mesmo quando ocorreram casos graves de abuso por parte dos fundadores – veja-se o caso Maciel e os Legionários de Cristo – a escolha foi sempre a de reformar a congregação e manter os bons frutos.
Mas o caso do Sodalitium também relata uma situação que, na América Latina, se tornou polarizada a tal ponto que é a distinção do bem e do mal, da ideologia e da realidade, e onde erros e pecados são misturados de uma forma que leva todas as decisões difíceis a serem políticas e a concretizar a luta entre progressistas e conservadores que, na realidade, é cada vez mais absorvida pelos fiéis.
Nesse sentido, certamente não ajudou o fato de que, à frente do Dicastério nos anos descritos, havia um cardeal brasileiro, João Braz de Aviz, que não teve boas experiências com os Arautos e que, em seus anos como bispo no Brasil, se encontrou em posição antagônica.
Os Arautos, porém, não têm abusos reconhecidos, pelo menos até agora. A obstinação pode ser justificada pela quantidade de acusações, mas, na verdade, quando nenhuma acusação é provada em tribunal, por que continuar o ataque?
Mas o caso dos Arautos do Evangelho lembra também, mutatis mutandis, o processo sobre a gestão dos fundos da Secretaria de Estado do Vaticano, o famoso “Processo Becciu”, porque, ao fim e ao cabo, há várias decisões que parecem arbitrárias, várias acusações que parecem preconceituosas e uma construção de narrativa que só pode levar a um ataque.
E, finalmente, o caso dos Arautos do Evangelho lembra muitos outros processos vaticanos dos últimos anos, com os investigados no centro de um estrondo mediático muito antes de poderem defender-se. Uma situação que lembra o personagem do Processo de Kafka, que se encontra num processo sem saber porquê e não pode fazer outra coisa senão defender-se sem saber como proceder.

O livro, é preciso dizer claramente, foi escrito por dois Arautos do Evangelho. No entanto, o aparato documental, com cartas, comunicações e palavras exatas do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, é o que realmente deve ser analisado, sem preconceitos, para se ter uma ideia da situação.
Os pedidos para transformar a natureza da associação de fiéis, de privada para pública, são interpretados como uma vontade de se apropriar dos bens da própria associação. E sim, a visita apostólica, iniciada em 2017, obteve resultados definitivamente positivos, de acordo com o que foi apurado por várias fontes. O Dicastério, no entanto, decidiu colocá-los sob tutela.
São muitas as reivindicações levantadas contra os Arautos do Evangelho. Diz-se que os Arautos desobedeceram à decisão do Dicastério de não acolher menores. Na realidade, foram todas as famílias desses menores, chocadas com essa decisão e feridas em seus direitos, que assumiram a responsabilidade de manter as crianças em um ambiente saudável e católico. Falou-se de exorcismos realizados fora das atribuições diocesanas, mas na realidade tratava-se de “orações de cura”, uma espécie de “exorcismo carismático” cuja natureza foi esclarecida também pelo bispo local.
Acima de tudo, o fato é que mais de 30 acusações civis e canônicas movidas contra os Arautos do Evangelho terminaram bem para eles, como atestado pela própria comissão encarregada pela Santa Sé.
O que chama a atenção é que os Arautos enfatizam que nunca foram informados dos motivos da visita apostólica e da nomeação do comissário. Mas nem mesmo o comissário Cardeal Raymundo Damasceno Assis foi recebido como esperado, enquanto o bispo de Bragança Paulista, sob cuja jurisdição se encontra um número muito significativo de casas dos Arautos, nunca foi recebido.
Como uma realidade florescente da Igreja, os Arautos do Evangelho, desde 2019, não podem receber ordenações diaconais e sacerdotais – contrariamente à praxe do próprio Dicastério –, têm obstáculos para abrir novas casas, nem mesmo podem acolher novos membros. Tudo foi congelado em nome de um processo que parece não ter fim.
O que fará agora Leão XIV? Esta é a questão que permanece. Ele ouvirá também a versão dos Arautos do Evangelho, permitirá que eles se defendam ou tomará uma decisão com base no que foi produzido pelo Dicastério ou nas informações que ele chegar?
O livro é uma leitura necessária, pelo menos porque é justo ler os documentos e ouvir o outro lado da história. É necessário sair do preconceito ideológico e tentar compreender se realmente se deve pedir aos Arautos que enfrentem a situação interna ou se, pelo contrário, se deve certificar que as acusações não têm fundamento na realidade.
Este equilíbrio é, hoje, o exercício mais difícil. É necessário, porém, que a Igreja supere a estação dos antagonismos e entre na estação da comunhão.
Por Andrea Gagliarducci, original em italiano no Vatican Reporting




