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Uma voz vinda do inferno levou São Bruno a fundar os cartuxos

06/10/2025
em Artigos
Tempo de Leitura: 2 mins de leitura
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Certamente, hoje a motivação que levou São Bruno a fundar a ordem mais austera da história, e uma das mais longevas, seria vista como sintoma de neurose ou fanatismo, pânico ou medo crônico. Recentemente, o site O Catequista chegou a tratar dessa forma as santas inspirações de Santa Gema. São sintomas evidentes de que a verdadeira piedade desapareceu do horizonte moderno junto do necessário temor de Deus, substituído por cientificismo e sentimentalismo. É comum ouvirmos que o medo do inferno não é uma boa motivação à santidade. Será mesmo?

Nascido em Colônia, na Alemanha, por volta de 1035, Bruno era nobre da família dos Hartefaust, que o educaram com grande piedade. Na juventude, havia ido estudar em Paris, onde se tornou doutor. Em dada ocasião, a morte de um professor da Universidade de Sorbonne o impactou profundamente. Não a morte em si, mas o que se sucedeu no seu velório.

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O professor era considerado grande devoto católico, muito erudito, e chegou a receber os sacramentos antes da morte. No entanto, algo terrível aconteceu depois de sua morte. Quando o cadáver era conduzido à igreja, para as cerimônias fúnebres e orações habituais, o morto se levantou durante o Ofício de Defuntos, causando grande horror nos presentes. Ainda pior: o cadáver falou e gritou com uma voz terrível e estridente a seguinte frase:

– “A justiça de Deus me acusou!”

O costume era que a cerimônia durasse três dias. No segundo dia, portanto, quando os clérigos chegaram à mesma leitura do Ofício, a voz novamente foi ouvida em alto e bom som:

“A justiça de Deus me rejeitou!”

No terceiro dia, aconteceu o mesmo, mas desta vez o insistente cadáver levantou-se e sentou no caixão em que estava, clamando de maneira ainda mais assustadora:

“A justiça de Deus me condenou!”

Conta-se que todos ficaram pálidos e espavoridos com o ocorrido. O recado não poderia ser mais claro. Conta o livro Inferno, de Monsenhor de Segur, que a conclusão foi unânime em se interromper a cerimônia santa e enterrar o morto em sepultura não santa, dada a gravidade e certeza do que havia sido dado a saber diretamente da alma condenada ao inferno e que, por permissão divina, veio avisar os presentes da inutilidade das orações.

Bruno estava presente junto de outros seis amigos. Assim como muitos dos presentes, a eles ocorreu o óbvio: se aquele professor, grande erudito e intelectual, ainda tendo sido devoto católico piedoso e, ainda por cima, tendo recebido os sacramentos antes da morte, havia se condenado, o que será de nós?

Foi assim, a partir de uma revelação sobre a facilidade da condenação ao inferno, que Bruno interrompeu sua carreira intelectual, abandonou os estudos e trilhou o caminho da radicalidade e austeridade. Imediatamente, Bruno e seus companheiros venderam tudo o que tinham, deram aos pobres, despediram-se de seus conhecidos e migraram de Paris para Grenoble, no sudeste da França, trocando as roupas comuns por vestes modestas de peregrinos.

Surgem os cartuxos

Bruno e seus eremitas contaram tudo o que havia ocorrido ao então bispo Hugo (hoje Santo Hugo), que havia sido seu aluno em Reims, revelando-o seus planos de virarem monges e procurarem viver em solidão e vida piedosa com o fim de garantir a salvação eterna. Hugo ficou entusiasmado com a ideia, tocado por verdadeira graça. Na noite anterior, Santo Hugo havia sonhado com sete estrelas brilhantes caindo a seus pés e, na ocasião, compreendeu imediatamente o seu significado ao ver aqueles sete homens tomados por uma graça especial.

O santo bispo os concedeu um local chamado Chartreuse, nos Alpes ocidentais franceses, lugar isolado por altas montanhas, verdadeiro deserto pedregoso e inóspito até para animais. Para Bruno, porém, este parecia o lugar perfeito para seus objetivos santos, fundando ali uma igreja pequena em honra a São João Batista, o padroeiro da austeridade eremítica que ganhava um novo tesouro em plena Idade Média.

O Papa Urbano II, pregador célebre da primeira Cruzada, foi aluno de Bruno, o que atesta o caráter eminentemente espiritual e radical das cruzadas, especialmente a primeira. O modelo de austeridade monástica dos cartuxos foi imitado por toda a Europa e São Bruno era consultado pelo Papa e por eminentes santos. No entanto, por sua ortodoxia radical, teve inimigos dentro da Igreja, como conta o professor Plinio Corrêa de Oliveira em um fragmento de seu texto sobre o santo.

São Bruno foi perseguido por um bispo indigno e nos deu o exemplo do que se deve fazer quando se está sob a autoridade de um bispo dessa condição: deve-se defender a ortodoxia como ele fez. O bispo, segundo D. Guéranger deixa entender, era herege, era o homem que tinha maus princípios. São Bruno entestou com o bispo e sustentou a verdade. Não lhe desobedeceu no que tinha de autoridade legítima. E assim foi o mais obediente dos súditos.

Autor

  • Cristian Derosa
    Cristian Derosa

    Jornalista e escritor, autor do livro O Sol Negro da Rússia: as raízes ocultistas do eurasianismo, além de outros 5 títulos sobre jornalismo e opinião pública. Editor e fundador do site do Instituto Estudos Nacionais

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