Sejamos diretos: a diferença básica entre o movimento New Age e a Escola Tradicionalista do perenialismo é muito pequena. Para o católico ela é apenas formal. Para quem não conhece, o tradicionalismo perenialista é uma linha esotérica representada principalmente por René Guénon e Fritjoff Schuon, pautados pela crença numa “tradição primordial” que estaria presente, de forma sutil e secreta, em todas as grandes religiões tradicionais. Já o movimento New Age foi uma moda disseminada por gurus e místicos no Ocidente, baseada na mistura pragmática de práticas e cultos de diversas religiões, entre elas alguns conhecimentos tradicionais mesclados a doutrinas modernas como o espiritismo, teosofia e conhecimentos pseudo-científicos.
A origem das duas correntes é a mesma, mas a diferença básica da sua manifestação precisa ser bem compreendida por católicos, sob pena de deixar-se levar por doutrinas gnósticas muitas vezes disfarçadas de zelo à tradição.
O livro mais conhecido sobre a New Age é Falsa Aurora, de Lee Penn. O problema é que o prefaciador do livro é ninguém menos que o tradicionalista perenialista Charles Upton. A presença dele no livro, no entanto, explica a estrutura por trás das duas formas de espiritualismo.
New Age é a primeira fase, onde o indivíduo se “liberta” do pertencimento à tradição a que está inserido, no caso a tradição católica. Como dissemos, a onda da Nova Era foi uma moda de espiritualismos desagregados de denominações religiosas, onde a mistura de práticas e crenças tinha um pressuposto de que há uma “verdade para além” das religiões.
A New Age não possui um conteúdo religioso propriamente, mas uma “espiritualidade” esvaziada e sem convicção dogmática. Tão logo o indivíduo esteja suficientemente esvaziado de suas convicções, resta realimentá-lo de uma nova doutrina. Este é o papel da Escola Tradicionalista, o de “devolver” o sentido espiritual perdido.
Ou seja, a New Age apenas abre as “portas da percepção” para o perenialismo da Escola Tradicionalista, que amplia a ideia de um aprofundamento “tradicional” até levar à completa “imersão” (ou devemos chamar submersão) no mundo do ocultismo.
Diferença
- New Age: se baseia na crença de que há uma sabedoria superior em todas as práticas religiosas..
- Perenialismo: se baseia na crença de que há uma sabedoria superior em todas as TRADIÇÕES religiosas.
Um espiritualista da New Age é um individualista que presta culto a si mesmo através das suas próprias escolhas de prática religiosa, supostamente espiritual, mas conveniente e confortável, em geral sem um código moral claro. Na prática, há um componente evidentemente satânico nisso. Mas não para por aí.
Perto dele, o perenialista é um grande sábio.
Quando o espiritualista da New Age encontra um perenialista ele fica imediatamente fascinado pelo conhecimento sobre religiões e espiritualismo. Dessa forma, ele facilmente vai entrando no mundo intelectual dos estudos de religiões, comparando e delineando práticas e conhecimentos até perceber que, para compreender mais profundamente e acessar os mistérios espiritualmente, ele precisará passar por uma iniciação. A iniciação é a marca do perenialismo esotérico, que se distingue da prática religiosa exotérica (exterior), pública, vista como inferior.
O perenialista pode muito bem se ocultar sob um véu de muçulmano ou de católico ultra-tradicional, radtrad, desde que ele “entenda” que a sua ligação tradicional é porque ele está “conectado” com o resíduo de tradição primordial que há no catolicismo. Mas ele pode muito bem se converter ao islamismo depois, afinal, o próprio René Guénon afirmou que o ocidental que deseja acessar os mistérios da “tradição primordial” o fará mais facilmente pelo islã. Há nisso uma já rejeição do catolicismo como via de santificação. Aliás, esse termo nem faz sentido dentro do universo perenialista.
A grande semelhança
Mas é aí que a New Age e o Tradicionalismo se unem e mostram ser, no fundo, a mesmíssima coisa.
Há nessas doutrinas uma profunda indiferença quanto à verdade da religião que se professa publicamente, preferindo, no fundo o utilitarismo do efeito psicológico (New Age) ou pseudo-espiritual (perenialismo). O perenialista é crítico da New Age porque ele pretende trazer os espiritualistas para os seus centros de estudo aprofundado. No fundo, são seitas ocultistas, de caráter gnóstico, tanto quanto a New Age.
Jesus Cristo disse não ter ensinado nada em segredo. Mas para os perenialistas (e já antecipadamente os espiritualistas) acreditam que tudo o que é verdadeiro é o que está oculto, discreto e escondido, razão pela qual são facilmente seduzidos pelo exotismo ocultista de crenças diversas.
Se para o espiritualista da New Age, toda religião possui uma sabedoria que está acima das práticas e confissões, para o perenialista essa sabedoria perene pode ser acessada pela iniciação, cerimônia que se entende mais como uma espécie de pacto, por ser uma entrega da alma aos mistérios.
A premissa de que há algo superior às religiões e que está fora delas, sendo apenas uma parte verdadeira, não é algo realmente tradicional mas o traço mais característico da Modernidade.
Esse tipo de premissa está em qualquer católico que respeita demais as outras religiões, ainda que se mantenha numa perspectiva tradicional da prática religiosa. Ambos praticam a mesma crença INDIFERENTISTA, condenada pela Igreja, embora uma certa teologia moderna tenha flertado, por respeito humano, com essas crenças numa tentativa de diálogo etc. Mas isso é mais por um método pastoral equivocado do que fazer parte, de fato, da doutrina católica, que continua sendo a ideia de que a Santa Igreja é a única verdadeira por ter sido fundada pelo próprio Cristo.
Não existe um “Cristo cósmico” nem uma “tradição” descolada do catolicismo, pois é a doutrina católica a única revelada aos homens pelo próprio Deus, através de Nosso Senhor e da inspiração do Espírito Santo concedida unicamente à Santa Igreja Católica.




