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Upton e Dugin: duas faces do mesmo perenialismo

13/08/2025
em Artigos
Tempo de Leitura: 4 mins de leitura
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Daniel Ferraz (Especial para o EN)

I. Introdução — A ilusão das oposições aparentes

O universo das correntes “tradicionalistas” modernas apresenta, em sua superfície, confrontos e antagonismos que parecem marcar rupturas radicais. Não raro, esses embates são interpretados como um choque entre visões inconciliáveis. Assim, Charles Upton, crítico declarado de Aleksandr Dugin e de sua “via da mão esquerda”, é tomado por muitos como um opositor frontal ao geoesoterismo russo. No entanto, uma análise detida, à luz da doutrina católica, revela uma realidade mais profunda e mais inquietante: o que se apresenta como combate é, na verdade, uma diferença de rota dentro da mesma geografia espiritual.

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Upton e Dugin são herdeiros legítimos da mesma matriz gnóstico-perenialista que, desde René Guénon, molda um sistema iniciático que relativiza o Evangelho e substitui a Revelação pelo mito da “Tradição Sagrada” primordial. Divergem apenas no método, no ritmo e no símbolo: Upton, alinhado à chamada “via da mão direita”, opta por uma abordagem hierárquica, contemplativa e ordenada; Dugin, adepto da “via da mão esquerda”, abraça a ruptura caótica, a guerra ritual e a inversão simbólica (1). O primeiro oferece uma gnose de fachada serena; o segundo, uma gnose de impacto violento. Ambos, porém, convergem no núcleo: a recusa da exclusividade salvífica de Cristo e da autoridade única de Sua Igreja.

II. Charles Upton — A mão direita do perenialismo (2)

Poeta e ensaísta norte-americano, Charles Upton alcançou notoriedade no meio schuoniano contemporâneo por obras como The System of Antichrist: Truth and Falsehood in Postmodernism and the New Age. Nesse livro, constrói uma crítica aparentemente precisa contra as patologias da modernidade: globalismo, secularismo, espiritualidade comercializada, paganismo midiático, tecnologias alienantes. A muitos católicos, sobretudo conservadores, essa denúncia soa familiar e reconfortante. Mas sob a superfície, a solução proposta por Upton não é o retorno à Igreja, mas a reintegração do homem numa “Sabedoria Primordial” pré-religiosa, conceito central do perenialismo esotérico herdado de Frithjof Schuon e René Guénon.

A falha doutrinária é evidente: o “sistema do Anticristo” que Upton descreve é um princípio estrutural da história, alheio ao dogma do Pecado Original e à necessidade de redenção pelo Cristo real e encarnado. O Anticristo, para a fé católica, é um homem histórico, previsto pela Revelação; para Upton, ele é um arquétipo simbólico a ser decifrado por uma elite desperta. Ao substituir a escatologia objetiva por uma cosmologia iniciática, Upton dilui o drama salvífico na estética mística.

Cristo, em seu horizonte, não é o Verbo Encarnado (3), morto e ressuscitado, fundador da Igreja e instituidor dos sacramentos, mas um símbolo do Logos universal, equiparável a figuras de outras tradições. Sua espiritualidade incorpora, sem hierarquia dogmática, elementos do sufismo, da cabala, do neoplatonismo e do vedanta hindu. Trata-se de um sincretismo elitista, embalado na retórica da “mão direita”: ordenada, polida e supostamente pura, mas igualmente desviada do caminho católico.

III. Aleksandr Dugin — A mão esquerda do mesmo sistema

Do outro lado do espectro estilístico, Aleksandr Dugin, filósofo e estrategista russo, é frequentemente citado como representante da “via da mão esquerda”: o caminho iniciático que abraça a destruição das formas, a transgressão ritual e a imersão nas forças do caos como instrumentos de “realização espiritual”.

Sua obra The Fourth Political Theory (4) apresenta uma síntese gnóstica que pretende superar liberalismo, comunismo e fascismo, fundando um novo paradigma civilizacional centrado no “Dasein” heideggeriano em lugar da pessoa humana criada à imagem de Deus. Dugin proclama um Eurasianismo que unifica potências antiocidentais sob a liderança da Rússia, inspirado em arquétipos pagãos, cultos órficos e xamanismo.

A simbologia central de seu sistema evoca figuras como Cibele — arquétipo da terra-mãe fecunda e destrutiva —, associada na antiguidade a rituais sangrentos, êxtases dionisíacos e inversões morais (5). Em sua Noomachia, Dugin contrapõe Apolo (ordem e razão), Dionísio (frenesi) e Shiva (dissolução), mas inclina-se deliberadamente para a consagração da sombra e do irracional. É uma anti-mariologia: onde Maria é humildade, Cibele é orgulho; onde Maria é Mãe do Verbo, Cibele é senhora do instinto.

A sua “tradição” é um compósito de influências evolianas, guenonianas, esoterismo ortodoxo, magia ritual, astrologia e guerra como instrumento de transmutação espiritual. É o mesmo perenialismo de Upton, mas vestido de batalha: um aceleracionismo esotérico que não teme expor sua hostilidade à antropologia cristã e ao Reinado de Cristo.

IV. A convergência estrutural — Dois caminhos, um mesmo destino

À luz da doutrina católica, a oposição entre Upton e Dugin é um falso dilema. O que os distingue é apenas a estética e a tática: a “mão direita” de Upton e a “mão esquerda” de Dugin convergem para a mesma recusa do Cristo único e da Igreja. O primeiro busca restaurar uma “tradição universal”, alheia à Igreja, por meio de uma iniciação ordenada, simbólica e contemplativa; o segundo pretende refundar o mundo pela ruptura, pelo mito combativo e pelo caos ritual.

Ambos rejeitam a centralidade da Encarnação e a mediação sacramental da Igreja. Ambos bebem da mesma fonte perenialista, que dissolve a Revelação numa “verdade primordial” indistinta. Ambos, ao criticar a modernidade, oferecem ao homem não a Cruz e a graça, mas um sistema iniciático humano — seja ele revestido de calma mística ou de violência apocalíptica.

Essa convergência demonstra que, no perenialismo, “mão direita” e “mão esquerda” são apenas polos complementares de um mesmo circuito espiritual. Um prepara o terreno pela sedução intelectual; o outro colhe o fruto pela mobilização simbólica e política. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: a substituição do Deus vivo por uma “tradição” construída, e do Reino de Cristo por um império humano.

V. Conclusão — Contra ambas as mãos, o único Caminho

A fé católica não reconhece nem a “tradição” de Upton nem o “império” de Dugin como vias legítimas. A verdadeira Tradição é a da Igreja Católica, Apostólica e Romana, viva no Magistério, na liturgia e nos sacramentos. O verdadeiro Império é o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não se impõe pelo caos nem pelo mito, mas pela graça e pela verdade.

Contra a mão direita e a mão esquerda do perenialismo, a Igreja proclama o único Caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim” (Jo 14,6). Toda espiritualidade sem Cruz, por mais bela que pareça, é palavra de serpente — e tanto mais perigosa quanto mais dourada for a sua pele.

Notas

1) Via da Mão Direita e Via da Mão Esquerda — Essas expressões vêm originalmente do vocabulário esotérico e tântrico hindu-budista, posteriormente absorvido pelo ocultismo ocidental. A “mão direita” representa a senda iniciática que mantém uma aparência de ordem, moralidade e pureza ritual, ainda que desvinculada da graça e da Verdade revelada. A “mão esquerda” é a senda que busca o despertar espiritual por meio da transgressão, da inversão moral, da destruição de formas e da imersão no caos. Do ponto de vista católico, ambas são igualmente condenáveis, pois partem do princípio de que o homem pode alcançar o divino por forças próprias, ignorando a necessidade da Redenção operada por Cristo.
2) Perenialismo — O termo, no contexto aqui tratado, não se refere à simples noção de que há verdades morais e metafísicas universais, mas a uma doutrina esotérica desenvolvida por autores como René Guénon, Ananda Coomaraswamy e Frithjof Schuon. Essa doutrina sustenta que existe uma “Tradição Primordial” anterior a todas as religiões históricas, que as conteria e as transcenderia. Na prática, isso implica relativizar a Revelação de Cristo, colocando-a como apenas uma manifestação parcial da Verdade. O Magistério da Igreja sempre condenou tais relativizações: Pio IX, na Syllabus Errorum (1864), rechaça a tese de que “o homem pode encontrar, pela razão, um caminho suficiente para a salvação” sem a fé em Cristo e a pertença à Igreja.
3) Logos Encarnado vs. Logos Simbólico — No tomismo, o Logos (Verbo) não é um mero arquétipo metafísico ou símbolo universal de razão e ordem, mas a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, que “se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Essa distinção é decisiva para desmontar o perenialismo: enquanto o catolicismo professa um Logos pessoal e encarnado, que entra na história para salvar, o perenialismo o trata como uma abstração, acessível por múltiplas vias iniciáticas. Como lembra Garrigou-Lagrange, “fora da Encarnação não há reconciliação possível entre Deus e o homem”.
4) Eurasianismo — No pensamento duginiano, o Eurasianismo é um projeto geopolítico-religioso que procura fundir povos, culturas e sistemas políticos em um império continental liderado pela Rússia, articulando forças antiocidentais (incluindo o islamismo xiita e regimes autoritários asiáticos). Trata-se de uma apropriação política do mito da “Tradição”, mas despida de qualquer enraizamento no dogma cristão. O perigo, do ponto de vista católico, é a tentativa de substituir o Reinado Social de Cristo (Pio XI, Quas Primas) por um império pagão travestido de ordem sagrada.
5) Cibele vs. Maria Santíssima — O culto a Cibele, na antiguidade, estava ligado a ritos extáticos e, muitas vezes, violentos: castrações rituais, sangue derramado e inversão da ordem social. A associação feita por Dugin desse arquétipo à sua geopolítica representa, espiritualmente, uma “contra-Mariologia”: enquanto Maria é a Mãe humilde do Verbo e medianeira de todas as graças, Cibele encarna o instinto selvagem, a fecundidade cega e a destruição cíclica. Na teologia mariana, como ensina S. Luís Maria Grignion de Montfort, a vitória final sobre Satanás se dá “por Maria” — e não por arquétipos pagãos.

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