Daniel Ferraz (Especial para o EN)
I. Introdução — A ilusão das oposições aparentes
O universo das correntes “tradicionalistas” modernas apresenta, em sua superfície, confrontos e antagonismos que parecem marcar rupturas radicais. Não raro, esses embates são interpretados como um choque entre visões inconciliáveis. Assim, Charles Upton, crítico declarado de Aleksandr Dugin e de sua “via da mão esquerda”, é tomado por muitos como um opositor frontal ao geoesoterismo russo. No entanto, uma análise detida, à luz da doutrina católica, revela uma realidade mais profunda e mais inquietante: o que se apresenta como combate é, na verdade, uma diferença de rota dentro da mesma geografia espiritual.
Upton e Dugin são herdeiros legítimos da mesma matriz gnóstico-perenialista que, desde René Guénon, molda um sistema iniciático que relativiza o Evangelho e substitui a Revelação pelo mito da “Tradição Sagrada” primordial. Divergem apenas no método, no ritmo e no símbolo: Upton, alinhado à chamada “via da mão direita”, opta por uma abordagem hierárquica, contemplativa e ordenada; Dugin, adepto da “via da mão esquerda”, abraça a ruptura caótica, a guerra ritual e a inversão simbólica (1). O primeiro oferece uma gnose de fachada serena; o segundo, uma gnose de impacto violento. Ambos, porém, convergem no núcleo: a recusa da exclusividade salvífica de Cristo e da autoridade única de Sua Igreja.
II. Charles Upton — A mão direita do perenialismo (2)
Poeta e ensaísta norte-americano, Charles Upton alcançou notoriedade no meio schuoniano contemporâneo por obras como The System of Antichrist: Truth and Falsehood in Postmodernism and the New Age. Nesse livro, constrói uma crítica aparentemente precisa contra as patologias da modernidade: globalismo, secularismo, espiritualidade comercializada, paganismo midiático, tecnologias alienantes. A muitos católicos, sobretudo conservadores, essa denúncia soa familiar e reconfortante. Mas sob a superfície, a solução proposta por Upton não é o retorno à Igreja, mas a reintegração do homem numa “Sabedoria Primordial” pré-religiosa, conceito central do perenialismo esotérico herdado de Frithjof Schuon e René Guénon.
A falha doutrinária é evidente: o “sistema do Anticristo” que Upton descreve é um princípio estrutural da história, alheio ao dogma do Pecado Original e à necessidade de redenção pelo Cristo real e encarnado. O Anticristo, para a fé católica, é um homem histórico, previsto pela Revelação; para Upton, ele é um arquétipo simbólico a ser decifrado por uma elite desperta. Ao substituir a escatologia objetiva por uma cosmologia iniciática, Upton dilui o drama salvífico na estética mística.
Cristo, em seu horizonte, não é o Verbo Encarnado (3), morto e ressuscitado, fundador da Igreja e instituidor dos sacramentos, mas um símbolo do Logos universal, equiparável a figuras de outras tradições. Sua espiritualidade incorpora, sem hierarquia dogmática, elementos do sufismo, da cabala, do neoplatonismo e do vedanta hindu. Trata-se de um sincretismo elitista, embalado na retórica da “mão direita”: ordenada, polida e supostamente pura, mas igualmente desviada do caminho católico.
III. Aleksandr Dugin — A mão esquerda do mesmo sistema
Do outro lado do espectro estilístico, Aleksandr Dugin, filósofo e estrategista russo, é frequentemente citado como representante da “via da mão esquerda”: o caminho iniciático que abraça a destruição das formas, a transgressão ritual e a imersão nas forças do caos como instrumentos de “realização espiritual”.
Sua obra The Fourth Political Theory (4) apresenta uma síntese gnóstica que pretende superar liberalismo, comunismo e fascismo, fundando um novo paradigma civilizacional centrado no “Dasein” heideggeriano em lugar da pessoa humana criada à imagem de Deus. Dugin proclama um Eurasianismo que unifica potências antiocidentais sob a liderança da Rússia, inspirado em arquétipos pagãos, cultos órficos e xamanismo.
A simbologia central de seu sistema evoca figuras como Cibele — arquétipo da terra-mãe fecunda e destrutiva —, associada na antiguidade a rituais sangrentos, êxtases dionisíacos e inversões morais (5). Em sua Noomachia, Dugin contrapõe Apolo (ordem e razão), Dionísio (frenesi) e Shiva (dissolução), mas inclina-se deliberadamente para a consagração da sombra e do irracional. É uma anti-mariologia: onde Maria é humildade, Cibele é orgulho; onde Maria é Mãe do Verbo, Cibele é senhora do instinto.
A sua “tradição” é um compósito de influências evolianas, guenonianas, esoterismo ortodoxo, magia ritual, astrologia e guerra como instrumento de transmutação espiritual. É o mesmo perenialismo de Upton, mas vestido de batalha: um aceleracionismo esotérico que não teme expor sua hostilidade à antropologia cristã e ao Reinado de Cristo.
IV. A convergência estrutural — Dois caminhos, um mesmo destino
À luz da doutrina católica, a oposição entre Upton e Dugin é um falso dilema. O que os distingue é apenas a estética e a tática: a “mão direita” de Upton e a “mão esquerda” de Dugin convergem para a mesma recusa do Cristo único e da Igreja. O primeiro busca restaurar uma “tradição universal”, alheia à Igreja, por meio de uma iniciação ordenada, simbólica e contemplativa; o segundo pretende refundar o mundo pela ruptura, pelo mito combativo e pelo caos ritual.
Ambos rejeitam a centralidade da Encarnação e a mediação sacramental da Igreja. Ambos bebem da mesma fonte perenialista, que dissolve a Revelação numa “verdade primordial” indistinta. Ambos, ao criticar a modernidade, oferecem ao homem não a Cruz e a graça, mas um sistema iniciático humano — seja ele revestido de calma mística ou de violência apocalíptica.
Essa convergência demonstra que, no perenialismo, “mão direita” e “mão esquerda” são apenas polos complementares de um mesmo circuito espiritual. Um prepara o terreno pela sedução intelectual; o outro colhe o fruto pela mobilização simbólica e política. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: a substituição do Deus vivo por uma “tradição” construída, e do Reino de Cristo por um império humano.
V. Conclusão — Contra ambas as mãos, o único Caminho
A fé católica não reconhece nem a “tradição” de Upton nem o “império” de Dugin como vias legítimas. A verdadeira Tradição é a da Igreja Católica, Apostólica e Romana, viva no Magistério, na liturgia e nos sacramentos. O verdadeiro Império é o Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não se impõe pelo caos nem pelo mito, mas pela graça e pela verdade.
Contra a mão direita e a mão esquerda do perenialismo, a Igreja proclama o único Caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim” (Jo 14,6). Toda espiritualidade sem Cruz, por mais bela que pareça, é palavra de serpente — e tanto mais perigosa quanto mais dourada for a sua pele.





