(Trecho adaptado do livro Raízes ocultas da Nova Direita, que pode ser adquirido aqui)
Hoje vemos cada vez mais os movimentos de direita unirem-se a inimigos declarados da Igreja Católica, como partidos políticos fascistas ligados a movimentos esotéricos, grupos cabalistas, islâmicos, ortodoxos cismáticos russos, protestantes e até mesmo maçons. A multiplicidade de novas espiritualidades tolerada pela Nova Direita possui uma explicação que está na base do seu ressurgimento e vai muito além de alianças estratégicas e provisórias.
Paralelo ao progressivo afastamento da Igreja, o fenômeno da Nova Direita possui uma base profunda em movimentos intelectuais pouco conhecidos. Até mesmo tradicionalistas católicos flertam com esse movimento, o que pode explicar a sua indisposição frequente com a hierarquia da Igreja, embora digam o contrário. Ocorre que muitas veze nem mesmo os católicos conhecem a base das ideias às quais aderem no justificado combate ao mundo moderno.
Um dos efeitos de tudo isso é a mesclagem confusa e indissociável entre o discurso religioso e as doutrinas neonazistas, criando condições para a criminalização e perseguição das ideias religiosas, especialmente as que se dizem universalistas, ou seja, a doutrina católica. E tudo isso está sendo orquestrado pelos próprios movimento de direita com a ajuda de católicos e conservadores distraídos.
História da revolução anti-universalista
Após a derrocada do fascismo e do nacional-socialismo, movimentos associados à direita política europeia, ligados aos hegelianos de direita e a Konservative Revolution, foram amplamente desacreditados e associados ao autoritarismo, ao racismo e ao totalitarismo. Os marxistas aproveitaram essa oportunidade para estigmatizar todos os seus críticos pela alcunha de nazistas e fascistas, como bem sabemos. Nesse cenário, as opções políticas viáveis no Ocidente pareciam se restringir à social-democracia de inspiração marxista e ao liberalismo de mercado promovido pelos Estados Unidos e a futura União Europeia. Arranjos retóricos entre os dois, como o neoliberalismo, restaram como únicas alternativas permitidas. Eis a hegemonia que a Rússia de Putin (e Dugin) diz combater hoje em dia. Mas as raízes dessa nova direita ainda não parece ter sido suficientemente explicada para compreender como ela representa, na verdade, um resgate de uma antiga face da mentalidade revolucionária.
A verdade é que a direita convencional foi “reduzida” ao conservadorismo parlamentar, tornando-se, aos olhos de muitos jovens intelectuais, incapaz de enfrentar o avanço do igualitarismo progressista, do globalismo e da corrosão das identidades culturais europeias que se manifestaram de certa forma autoritária.
Foi nesse contexto que surgiu, na França, no final dos anos 1960, o Groupement de recherche et d’études pour la civilisation européenne (GRECE), liderado por Alain de Benoist. Este grupo formou o núcleo da chamada Nouvelle Droite (Nova Direita), um movimento metapolítico que propunha reconfigurar a direita a partir de fundamentos filosóficos, antropológicos e culturais profundos, distanciando-se do legado imediato do fascismo e da direita clássica. Apesar de defensor da tradição, Benoist nunca defendeu a doutrina ou tradição da Igreja Católica, resumindo-se à crítica radical do liberalismo e da modernidade contra os quais não parecia haver solução.
Embora não fosse um pensador político no sentido estrito, Martin Heidegger exerceu forte influência filosófica sobre os principais intelectuais da Nova Direita. Também crítico da Igreja Católica, a crítica ao tecnicismo, à metafísica moderna e à esquecida questão do Ser serviu como base ontológica para uma rejeição do humanismo iluminista, do liberalismo e da modernidade progressista. Heidegger propôs um retorno ao enraizamento ontológico do ser humano, à experiência autêntica do mundo e à superação do pensamento calculador que domina o Ocidente desde Platão. Não apenas isso: para Victor Farías, no livro Heidegger e sua herança, o pensamento do filósofo alemão conduziu grande parte do percurso ideológico das doutrinas modernas, que vão do neofascismo, neonazismo, passando pelo radicalismo islâmico, ambientalismo e até na teoria queer do movimento Woke. Tudo graças à moda da busca por resgates de identidades perdidas com a Modernidade. Essa busca por identidades é o que explica como uma visão supostamente conservadora usou para o seu crescimento o profundo sentimento de igualitarismo contra toda forma de universalismo, incluindo o cristão.
Alain de Benoist, em particular, incorporou essa crítica à sua visão de mundo, argumentando que a crise da civilização europeia decorre de um esquecimento das raízes culturais, religiosas e míticas dos povos europeus, substituídas por uma visão economicista e globalista do ser humano. A valorização do enraizamento identitário, do ethnos e da diferença entre os povos torna-se, então, uma forma de resistência ao universalismo moderno. Essa crítica ao universalismo explica sua indiferença com a Igreja Católica, que propõe a universalidade da fé cristã.
O segredo dessa “nova direita” tem sido precisamente o suposto combate ao igualitarismo a partir de uma nova roupagem do próprio igualitarismo, expresso nas ideias de Heidegger para quem, ao invés da superioridade do povo ariano, deixada para trás, era o momento da rebelião dos “povos da Terra”. Ou seja, o princípio da nova ordem multipolar defendida por Dugin e expresso politicamente no bloco do BRICS.
Essa Nova Direita, portanto, rejeita tanto o marxismo quanto o liberalismo, acusando-os de serem expressões de uma mesma matriz racionalista nascida no Iluminismo como proposta de universalismo. De fato, o racionalismo iluminista propunha substituir o universalismo católico por um novo criado pelo homem, daí a razão de que é uma expressão do mesmo antropocentrismo iniciado no Renascimento. Mas a base metafísica dessa corrente era uma “independência”, um senso de libertação das amarras do dogma cristão e, portanto, uma defesa da diversidade de pensamento contra a afirmação da autoridade expressa pela hierarquia da Igreja. Por isso, os alvos prioritários começaram pela Igreja, mas depois centraram-se na expressão do simbolismo católico na política, isto é, as monarquias. A Nova Direita parece tenta resgatar esse simbolismo, mas se afasta da versão católica dele, indo parar bem longe como estamos vendo.
Contra a ideia de uma humanidade abstrata e universal dos iluministas, os pensadores da Nouvelle Droite francesa defendem o princípio da “diferença, o direito à identidade e a pluralidade dos povos e culturas”. Essa visão é sintetizada no slogan “direito à diferença” (droit à la différence), que inverte o multiculturalismo progressista para propor uma separação e preservação das culturas.
Inspirados por Antonio Gramsci, os integrantes da Nova Direita acreditam que a mudança política duradoura só pode vir depois de uma transformação cultural e simbólica profunda. Assim, o movimento abandona a militância partidária direta e aposta na disputa de narrativas, no campo da cultura, da educação e da mídia. O objetivo é mudar o imaginário coletivo, penetrar no senso comum e restabelecer os fundamentos tradicionais da civilização europeia.
A partir dos anos 1990 e 2000, a influência da Nova Direita se expandiu para além da França, alcançando grupos identitários e movimentos nacionalistas na Itália, Alemanha, Rússia e Estados Unidos. A chamada “Alt-Right” norte-americana, embora com diferenças marcantes, absorveu parte do léxico e da retórica da Nova Direita europeia, especialmente a crítica ao liberalismo e à imigração massiva.
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