A nota doutrinal Mater Populi Fidelis, publicada em novembro pelo Cardeal Victor Fernández, Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, foi muito mal recebida entre especialistas católicos, mariologistas e entre os próprios fiéis. Sob o risco de esfriar a devoção mariana que sustenta a Santa Igreja, o Cardeal foi instado a explicar melhor termos como “sempre inoportuno” sobre o uso do título de corredentora dirigido à Santa Mãe de Deus. Em resposta, ele ressaltou os limites da nota.
Ao contrário do que possa parecer, porém, o momento histórico atual pode ser uma oportunidade propícia para aprofundar os privilégios da Virgem e defender seu papel único na história da salvação da humanidade.
Longe de ter sido um documento esclarecedor, a publicação da nota causou consternação entre fiéis e estudiosos, que interpretaram suas afirmações como uma redução dos privilégios que a Tradição da Igreja reconhece unanimemente a Nossa Senhora desde sempre. A reação, portanto, foi imediata e, em muitos casos, de perplexidade. É o que explica o artigo publicado nesta semana pelo site InfoVaticana.
Em sua explicação, o Cardeal Fernández insistiu que a expressão “Corredentora” não será usada na liturgia nem em documentos oficiais da Santa Sé. As razões para isso são evidentemente ecumênicas, uma preocupação mais afeita à hierarquia atual do que à maioria dos fiéis. Isso jamais implicaria uma decisão de proibição do uso do título dirigido a Maria.
O Cardeal ressaltou que seu uso não é proibido na devoção privada, em grupos de oração ou em discussões teológicas entre os fiéis, o que indica que o termo passa longe de ser teologicamente equivocado ou errado. Segundo disse o Cardeal, ressalta o artigo, “aqueles que compreendem ‘o verdadeiro significado’ do termo e leram a nota atentamente podem usá-lo livremente em contextos não oficiais”. Isso quereria dizer que a corredenção de Maria passa a ser um segredo esotérico apenas para católicos iniciados ou iluminados? Ou os católicos ainda são chamados a evangelizar através da verdade? Fica a pergunta.
Questionado se essa proibição também se estendia ao passado, o Cardeal Fernández respondeu com uma tripla negação, esclarecendo que o “sempre” usado na nota não se referia a todas as épocas, mas apenas “ao momento presente”, explicou o texto.
Quando a jornalista Diane Montagna procurou confirmar com o Cardeal se o advérbio deveria ser entendido como “a partir de agora” , o prefeito respondeu inequivocamente: “A partir de agora, sem dúvida”. O que isso que dizer? Uma nota provisória?
O dogma tão aguardado
Há décadas que mariologistas e fiéis católicos em geral aguardam um terceiro dogma a ser proclamado pela Igreja, especificamente a respeito do título de corredentora.
O professor Roberto de Mattei, autor da análise publicada pela Corrispondenza Romana, destaca que a verdade da Corredenção Mariana pertence ao patrimônio doutrinal da Igreja, embora ainda não tenha sido proclamada como dogma de fé. A própria nota reconhece implicitamente essa possibilidade futura ao limitar sua proibição ao presente e ao uso oficial, sem excluir o que possa acontecer amanhã ou depois.
O dogma da Imaculada Conceição foi proclamado em 1854 e a Assunção em 1950, mas mesmo antes disso tais verdades sempre foram autênticas e teologicamente corretas, independentemente de sua definição solene. Este é precisamente o caso do título de corredentora. Os católicos podem continuar a crer, ensinar e promover que a Virgem Maria sempre foi Corredentora e Medianeira de Todas as Graças. Não há nenhum impedimento doutrinal que os obrigue a agir de outra forma.
Se, como explica agora o prefeito, a Mater Populi Fidelis não pretende negar as verdades marianas nem limitar a devoção dos fiéis, mas apenas regular o uso oficial de certos termos em documentos institucionais, o debate doutrinal está longe de terminar. Pelo contrário, muitos fiéis e estudiosos consideram o momento histórico atual uma oportunidade propícia para aprofundar os privilégios da Virgem e defender seu papel único na história da salvação.
De Mattei conclui que as tentativas de obscurecer a luz da verdade, longe de a extinguirem, muitas vezes fazem com que o seu brilho se torne ainda mais evidente. O que aconteceu com esta nota, afirma ele, poderá tornar-se precisamente um desses momentos em que a grandeza de Maria resplandece com maior intensidade, inspirando sacerdotes e leigos a proclamarem os seus privilégios com renovado fervor.



