O Comissariado imposto aos Arautos pelo Dicastério chefiado pelo desafeto ideológico cardeal Dom Braz de Aviz, contou com a ação de diversos de seus “amigos”, enviados de sua confiança que compartilhavam do mesmo ódio ao carisma católico dos Arautos. O que os unia era a crença fanática, quase sectária, na veracidade das denúncias apresentadas por desafetos da instituição. Para eles, os Arautos manipulavam jovens, abusavam de crianças e escondiam bens vultuosos em suas instalações. Todas essas alegações terminaram sem fundamento, mas a convicção dos caluniadores guiou e justificou uma série interminável de abusos jurídicos, canônicos e até psicológicos, com o agravante de usar para isso os instrumentos da Santa Igreja.
Um dos episódios mais perturbadores narrados no livro O Comissariado dos Arautos do Evangelho: Crônica dos Fatos, 2017-2025, foi a visita da irmã Márian Ambrosio, superiora geral das Irmãs da Divina Providência, nomeada então como Auxiliar do Comissariado chefiado pelo cardeal Dom Raymundo Damasceno. Junto de nomes como o famigerado Frei Evaldo Xavier, que no meio dos trabalhos teve de se afastar devido um escândalo sexual que comprovava sua imoralidade, irmã Márian compartilhava da amizade íntima do cardeal Dom Braz de Aviz, então prefeito do Dicastério para os Instituto de Vida Religiosa e Sociedades Apostólicas.
De acordo com os relatos, que incluem atas de reuniões e farta documentação, a conduta da religiosa produziu grande impressão nas irmãs da Sociedade Regina Virginum, ramo feminino dos Arautos do Evangelho. Era evidente que, assim como grande parte da imprensa e do clero progressista, a Irmã Márian nutria um arraigado preconceito com a instituição, e não poupou métodos de intimidação psicológica das jovens irmãs, sempre evocando sua própria autoridade, confundida com a da Igreja, para simplesmente propor a mudança da identidade e até do carisma dos Arautos. O mais impressionante, porém, foi quando a religiosa procurou colocar-se como espécie de profetiza ou portadora da voz de Deus para as irmãs, em um evidente passo no sentido de um abuso religioso.
Em seu método, propôs as famosas dinâmicas de grupo com clara intenção de abalar as convicções e a vocação das irmãs, o que obviamente não teve sucesso. Sua “metodologia”, procurava, nas palavras dela, “iluminar o caminho”, a fim de discernir um novo rumo da Sociedade.
Partidária de uma ideologia claramente feminista, a irmã Márian discordava da vida que levavam as irmãs dos Arautos, insistindo que elas deveriam modificar a sua natureza e o seu carisma para adaptar-se ao mundo de alguma forma.
De fato, esta é uma característica típica da teologia moderna, marcada pela protestantização e psicologização. Nas falas e textos da irmã espalhadas pela internet, não se encontra uma única menção a Nosso Senhor, a Maria Santíssima ou alguma santa importante, como Santa Tereza Dávila e seu papel marcante como mulher na Igreja. Não. Irmã Márian só fala termos como “identidade”, procura de si mesmo, saber “quem somos” e outros temas comuns em círculos psicológicos típicos das dinâmicas de grupo que historicamente foram criadas para conduzir a psique de elementos desviantes ou desviar para mudanças de comportamento grupos ou pessoas determinadas, como explicaremos mais adiante.
A dinâmica escolhida dizia respeito a uma espécie de parábola, que ficou conhecida como a parábola do bambu: o dono de um jardim via-se na necessidade de corta o mais belo de seus bambus para montar um sistema de irrigação. “Se eu não te cortar, não cumprirei a missão que Deus quer de mim” – era a fala do homem ao bambu, que concordava, embora hesitante. Depois de serrar o bambu e parti-lo em pedaços, o dono dizia: “Para cumprir a missão de verdade, preciso também arrancar o teu coração”. E o bambu assentia.
De acordo com o relato das irmãs dos Arautos submetidas a essa dinâmica constrangedora, a Ir. Márian interpretou a ação de “extrair o coração” como “limpar inteiramente por dentro”.
“A Sociedade Regina Virginum está tão bonita assim, tem tantas irmãs aqui, tudo corre tão bem… mas Deus está dizendo: ‘Eu preciso cortar isso. Eu vou dar um cortezinho em vocês, porque está tendo uma seca enorme no Haiti, tanta miséria existe lá!”, disse a Ir. Márian aparentemente reproduzindo a voz de Deus às irmãs.
Sem nenhum sinal de constrangimento, a irmã Márian afirmou que esta era a surpreendente intenção de Deus a respeito de Regina Virginum.
Quando as irmãs questionaram mais detalhes sobre essa parábola, já que era a surpreendente vontade de Deus, a irmã desconversou.
“Não sei. Isso aí, discutam com Deus. Digam para Ele: ‘Estou fazendo um trabalho tão bonito aqui em Mairiporã, é tão importante isso!’ E Deus vai dizer: ‘Mas lá no Haiti estão morrendo, aí não’”
O que a irmã Márian procurou fazer foi, literalmente, uma lavagem cerebral. O termo, criado na década de 1950 por ocasião da Guerra Fria, obteve uma versão por psicólogos norte-americanos que criaram as chamadas “dinâmicas de grupo”, criadas por Kurt Lewin.
A proposta original era compreender como os grupos influenciam a percepção, o comportamento e a tomada de decisão dos indivíduos. As descobertas mostravam que interações grupais, como pressão social, coesão, identificação e normas implícitas, tinham um impacto muito maior na formação de atitudes do que se imaginava antes. Esse avanço teórico criou uma ponte com os debates sobre “lavagem cerebral”, pois oferecia ferramentas científicas para entender como ambientes sociais intensos podiam moldar a mente.
Sem a carga negativa do termo “lavagem cerebral”, os psicólogos procuraram utilizar as dinâmicas para medir reações e efeitos de certas técnicas descobertas pelos militares. Seu objetivo era domesticar as consciências e reconduzir certos comportamentos e mentalidades vistas como desagradáveis ou socialmente reprováveis em tempos de paz. Em resumo, as dinâmicas de grupo usadas em terapias convencionais possuem um histórico bastante associado aos estudos que foram chamados de “lavagem cerebral”.
A Irmã Márian afirmou inspirar-se no “Itinerário de Emaús”, um método nascido após o Concílio Vaticano II, mas que se considera continuador da pastoral tradicional da Igreja. No entanto, de acordo com críticos, esse método carrega riscos de psicologização da fé, principalmente devido à influência da filosofia personalista, que embora tenha sido incorporada ao Magistério por São João Paulo II, também deu vazão a uma série de usos modernistas, como um tipo de “existencialismo cristão”. Essa corrente esteve associada, ao longo do último século, a uma série de doutrinas não católicas.
Na forma usada pela irmã, o modelo é o de um tipo de terapia psicológica cujo resultado é um foco nos conceitos personalistas de pessoa humana, teologia integral e existencialismo de autores como Emmanuel Mounier e Jacques Maritain, não por acaso as grandes fontes inspiradoras do modernismo teológico que conduziu à Teologia da Libertação.
O resultado fica muito evidente: em seus textos e entrevistas disponíveis na internet, a irmã Márian praticamente não menciona Nosso Senhor Jesus Cristo, a Virgem Maria ou mesmo santos e santas da Igreja. Suas palavras giram em torno de busca de identidade, personalidade, “encontro”, partilha, diálogo etc, enfim, termos que levam precisamente à psicologização cujo resultado bem conhecemos: afastamento da Igreja por parte dos simples, repelidos pela linguagem excessivamente acadêmica e complexa, perda de sentido nos jovens e déficit absoluto de vocações religiosas.
O objetivo da Irmã Màrian com as irmãs dos Arautos foi precisamente provocar uma crise de identidade por meio de análises repletas de chavões freudianos. Graças à sólida formação doutrinal e firmeza na educação recebida pelas irmãs dos Arautos, feita com base no exemplo de santos e santas, além da profunda vida de oração, os intentos da irmã Márian não chegaram perto de serem realizados.
A tentativa de abuso religioso, porém, ficou evidente, coisa muito pior do que os tais “abusos” denunciados nas reportagens disseminadas por quem trabalhava para o projeto de extinção de um dos movimentos católicos que mais cresceu, em tamanho e vocações, no século XXI.




