No dia 3 de outubro de 1995, portanto há exatos 30 anos, falecia em São Paulo Plinio Corrêa de Oliveira, o mais importante professor, conferencista e ativista católico do Brasil, considerado pelo escritor italiano Roberto de Mattei, como o “cruzado do século XX”, título que deu ao livro biográfico sobre o advogado paulista fundador da lendária TFP (Tradição, Família e Propriedade). Ao longo do século passado, Plinio Corrêa havia se tornado o católico mais conhecido e influente.
A opinião pública dos finais das décadas de 1980 e início de 1990, buscava a todo custo ofuscar aquela personalidade marcante que havia atravessado o século proferindo palavras fortes de defesa da Santa Igreja Católica a um país já em avançado estado de decadência política e moral. Mas desde que foi eleito como deputado mais votado do Brasil, participado da Constituinte de 1934, Plinio Corrêa de Oliveira, tinha essa personalidade aguerrida contra a iniquidade do ambiente político que conhecera. Naquela época de profundo secularismo de um ambiente dos inícios da República e prenúncio do malfadado Estado Novo, um deputado revolucionário e maçom chegou a propor a proibição do voto aos religiosos católicos, uma vez que eles tinham voto de obediência aos seus superiores monásticos. A proposta causou intenso debate e Plinio Corrêa encerrou a discussão levantando outra questão:
Tenho a certeza, entretanto, de que a Assembléia Constituinte, ao enfrentar o estudo da matéria, acompanhará a orientação verdadeiramente brasileira, a orientação verdadeiramente sadia de não negar o direito de voto aos religiosos, como não o nega, por exemplo, aos maçons, que, do mesmo modo, proferem voto de obediência, e de equiparar a assistência espiritual prestada às Forças Armadas ao serviço militar comum.
Em 1933, ainda jovem, publicou Em Defesa da Ação Católica, obra que denunciava riscos de infiltração progressista e de uma leitura secularizante na atuação leiga, defendendo a fidelidade à orientação hierárquica da Igreja. O livro foi acolhido com atenção pelo Vaticano, que lhe concedeu apoio explícito. Mons. Giovanni Battista Montini — futuro Papa Paulo VI — transmitiu-lhe em nome de Pio XII uma carta de elogio, na qual afirmava:
“Sua Santidade regozija-se contigo, diletíssimo filho, pela firmeza com que defendes a Igreja e a Ação Católica contra erros e desvios que poderiam pervertê-la.”
Esse reconhecimento precoce não apenas legitimou sua posição, mas marcou sua trajetória como “fiel repetidor do Magistério”, como muitos de seus seguidores o qualificaram.
Ao longo das décadas seguintes, como professor da Universidade de São Paulo, jornalista e líder católico, Plinio fundou a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), movimento que se expandiu internacionalmente e que buscava formar leigos dispostos a combater a Revolução anticristã e a defender a civilização cristã. Para ele, a crise do mundo moderno só poderia ser enfrentada com uma restauração da ordem católica. Em sua obra Revolução e Contra-Revolução (1959), escreveu:
“A história é a luta entre a Revolução, que visa destruir a Igreja e a civilização cristã, e a Contra-Revolução, que é a fidelidade às suas instituições e valores.”
A obra magna
Publicado em 1959, nas páginas da revista Catolicismo, o livro Revolução e Contra-Revolução é considerada a obra magna de Plinio Corrêa de Oliveira. Nele, o autor descreve a história moderna como o palco de uma luta entre duas forças espirituais: a Revolução, entendida como um processo de dissolução das instituições cristãs e de negação da ordem natural e sobrenatural, e a Contra-Revolução, definida como o esforço de restaurar a ordem cristã no mundo, fundada nos princípios do Evangelho e na doutrina católica.
Essa visão é vista por muitos teólogos como uma visionária atualização ao mundo moderno das palavras do magistério da Igreja ao longo da história, assim como o foi a condenação do modernismo por Pio X. Encíclicas como Quas Primas (1925), de Pio XI, ao instituir a festa de Cristo Rei, por exemplo, afirmam a necessidade de uma ordem temporal regida pelos princípios de Cristo; Mirari Vos (1832), de Gregório XVI, e Quanta Cura (1864), de Pio IX, denunciaram os erros modernos — liberalismo absoluto, laicismo e relativismo — que Plinio identificava como fases sucessivas da Revolução. De modo convergente, o Papa São Pio X, na encíclica E Supremi (1903), qualificou o modernismo como a “síntese de todas as heresias”, formulação que Plinio aplicou ao analisar a infiltração progressista na vida eclesial.
Teólogos e pensadores católicos confirmaram essa proximidade. O dominicano Garrigou-Lagrange, referência no combate ao modernismo, defendia que a história contemporânea se explicava pelo abandono da filosofia e da teologia perene (não confundir com o termo perenialismo) em favor do subjetivismo e do naturalismo — tese que coincide com a análise pliniana sobre as etapas da Revolução. Da mesma forma, o jesuíta Henri Ramière, comentando o Sagrado Coração como bandeira contra os erros modernos, já havia antecipado a ideia de uma Contra-Revolução espiritual e social, retomada de modo sistemático por Plinio.
Em resenhas e apreciações posteriores, diversos prelados viram na obra um instrumento útil para a militância católica. O cardeal Alfredo Ottaviani, então prefeito do Santo Ofício, teria manifestado apreço pela lucidez da análise. No mesmo sentido, também o teólogo Cornelio Fabro, estudioso do ateísmo marxista, escreveu que o diagnóstico de Plinio sobre a Revolução como processo multissecular coincidia com o juízo do magistério sobre a genealogia dos erros modernos.
Revolução e Contra-Revolução não foi uma iniciativa isolada de pensamento, mas um esforço de sistematização em chave leiga e militante de doutrinas já constantes no magistério pontifício e nos grandes teólogos do século XX. Ao traçar um mapa espiritual da luta entre a Igreja e as forças dissolventes da modernidade, a obra serviu de elo entre a tradição da Contra-Reforma, o antimodernismo papal e a atuação católica no mundo contemporâneo.
Centralidade de Cristo contra o comunismo e o fascismo
Plinio Corrêa de Oliveira talvez tenha sido o grande responsável pelo anticomunismo já arraigado na cultura brasileira. As bandeiras, os brados e estandartes da TFP nas ruas, repletas de jovens, tiveram um impacto profundo na sociedade do século passado. Ele combateu tanto o comunismo quanto a sugestão do fascismo daquela época.
Desde os primeiros anos de sua militância, Plinio Corrêa de Oliveira se destacou como um dos mais firmes opositores do comunismo no Brasil. Sua visão não se restringia a uma crítica política ou econômica: para ele, o comunismo representava sobretudo uma ameaça espiritual e civilizacional, diretamente oposta à doutrina católica.
Ainda como deputado federal, na década de 1930, denunciou o avanço das ideias marxistas que, sob o disfarce de reformas sociais, buscavam corroer os fundamentos cristãos da sociedade brasileira. Via no comunismo uma aplicação prática do ateísmo materialista condenado pela Igreja em documentos como a encíclica Divini Redemptoris (1937), de Pio XI, que descrevia o comunismo como “intrinsecamente perverso” por negar a lei de Deus, a família e a propriedade.
Mas, da mesma forma, a ameaça que paira sobre muitos católicos conservadores em nossos dias, diante dos erros da Rússia e suas ramificações nacionalistas pelo mundo, já havia aparecido em outros períodos da história, ocasião em que Plinio Corrêa proferiu seu alerta católico. O erro de então era muito semelhante com o da atual sedução do neofascismo que conduz até mesmo ao elogio do islamismo por conservadores e tradicionalistas. Um engodo talvez até mais perigoso que o do modernismo.
Nos anos 1930, o Brasil assistiu à ascensão do Integralismo, movimento político de inspiração fascista, liderado por Plínio Salgado. Muitos católicos se aproximaram dessa corrente, vendo nela uma alternativa ao liberalismo e ao comunismo. Contudo, Plinio Corrêa de Oliveira, ainda jovem professor e líder católico, levantou uma voz de alerta. Sua crítica ao Integralismo não se limitava a aspectos políticos; tinha um fundamento teológico e doutrinário, inspirado diretamente na tradição da Igreja.
Para ele, o Integralismo, ao proclamar uma mística nacionalista e messiânica, corria o risco de substituir a centralidade de Cristo e da Igreja por um mito político. Denunciava o perigo de uma “religião política” que transformava o Estado em fonte de valores supremos, algo incompatível com a concepção católica da ordem temporal subordinada à lei divina. Nesse sentido, aproximava o Integralismo dos erros já condenados pelo magistério em documentos como a Quas Primas (Pio XI), que afirma a realeza social de Cristo, e a Non Abbiamo Bisogno (1931), na qual o mesmo Papa denunciava o fascismo por usurpar funções da Igreja e tentar monopolizar a juventude.
Enquanto os integralistas usavam seu cumprimento, o “anauê”, Plinio buscou diferenciar a juventude das Congregações Marianas (antes de fundar a TFP) com um cumprimento especial, o “Salve Maria”, comum até hoje entre católicos devotos de Nossa Senhora e entre os discípulos atuais do líder católico.




