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Renascentistas foram o produto da decadência do ensino e corrupção social, dizem historiadores

18/09/2025
em Artigos
Tempo de Leitura: 5 mins de leitura
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Ao contrário do que se pensa, o Renascimento, época conhecida pelo surgimento de um tipo de arte e filosofia vistos como superiores ao período medieval, foi, na verdade, o resultado de uma queda na qualidade educacional e de um avanço na corrupção social observada especialmente na Itália, berço da Renascença. É o que se conclui da obra de historiadores da educação como Jacques Le Goff, Ruy Afonso da Costa Nunes e testemunhos como os de Ricardo de Bury.

Bem diferente da imagem que temos na modernidade, o período que conhecemos como Renascimento ou Renascença foi o resultado, não de um avanço, mas de um retrocesso na inteligência provocado pela queda da qualidade do ensino, o que ocorreu devido a diversos fatores históricos, incluindo a criação do diploma, a separação da Universidade com o clero, entre outros, que levaram a uma mudança drástica nos pressupostos educacionais que vigoraram durante a maior parte da Idade Média. Isso é atestado tanto por estudos históricos quanto por testemunhos da época.

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O livro O Código da Educação, uma história verdadeira, traz boa parte desses testemunhos, reunidos numa densa história da educação no Ocidente.

O professor brasileiro Ruy Nunes, por exemplo, em sua obra História da Educação na Idade Média mostra dados que testemunham esse processo de decadência do ensino já observado a partir do ano 1300, com a institucionalização mais formal da Universidade. Ocorre que a universidade medieval havia sido inspirada no antigo ideal da Academia de Platão, adaptado ao catolicismo que já havia se desenvolvido a partir dos primeiros eremitas, e depois dos padres do deserto, progressivamente constituindo os primeiros mosteiros e ordens monásticas que se dedicavam ao estudo como forma de ascese e amor à obra de Deus.

Ideal acadêmico

Santo Agostinho havia organizado o Trivium e o Quadrivium como educação dos católicos, mas cuidou precisamente de evitar os perigos alertados por Platão, de a filosofia cair nas mãos de classes menos ilustradas e vaidosas, interessadas em jogos de linguagem e competições retóricas. Platão tinha motivos para temer isso e previu o surgimento dos sofistas.

Na era cristã, porém, as Artes Liberais buscaram se orientar pelo ideal platônico e socrático para quem a filosofia não era um ensino ou um conhecimento apenas, mas um modo de vida. Para a vida monástica, isso combinava perfeitamente e assim a Igreja construiu literalmente a civilização ocidental pela educação nas catedrais e mosteiros, que formavam tanto sacerdotes, religiosos ou leigos. O objetivo não era claramente formar sacerdotes ou monges, mas havia um ideal de dedicação total ao estudo e à contemplação que naturalmente conduzia a isso. Mais do que vida religiosa, os universitários medievais desejavam realmente aprender e esse desejo fazia com que se dedicassem de maneira exemplar.

Mudança administrativa

Estudo e contemplação eram, naquela época, inseparáveis. Mas isso demandava certa dedicação, o que a partir da expansão da universidade começou a ser amenizado. O Trivium era dedicado às artes retóricas, mas com o cuidado de educar a imaginação dentro do mundo cristão, sem o recurso de nenhuma literatura pagã.

Alguns fatores históricos, porém, começaram a conduzir a mudanças. O primeiro deles foi certa autonomia da universidade em relação às ordens monásticas e ao clero, o que foi uma necessidade devido justamente à sua expansão e prestígio alcançado, graças à qualidade demonstrada. O primeiro fator de decadência foi a criação do diploma, na forma de licenças para ensinar, dando autonomia e prestígio automático á classe dos professores. Isso contribuiu para a expansão das universidades por toda a Europa como um modelo institucional, levando à necessidade de organização diferenciada na sua administração, o que afetou a qualidade do ensino, tanto a partir dos professores quanto dos alunos e suas razões para buscar a universidade.

Não mais para aprender, mas para ter um emprego e prestígio, os alunos se matriculavam e professores buscavam trabalhar em uma profissão respeitada. As razões já não eram aprender, tampouco contemplar a verdade ou viver o estudo como um modo de vida.

A diferença do ensino foi gritante. A educação universitária de 1200 ficava para trás também graças às mudanças sociais a partir de 1300. O historiador Ruy Nunes explica:

“A sociedade dessenvolveu-se, apareceram novos empregos, o dinheiro ganhou mais importância que nas épocas anteriores, enquanto a vida intelectual amortecia e só chispeava, ainda, nos raros sábios que sustentavam a honra da estirpes dos primeiros pobres e devotos estudiosos”.

E diz ainda:

“Neste ambiente o intelectual da Idade Média aos poucos foi desaparecendo para ser substituído pelo humanista, que apreciava o ócio e o lazer da aristocracia antiga, abandonando uma das principais tarefas do intelectual, ao perderem o contato com o povo e ao desfazerem o liame entre ciência e o ensino”

Richard de Bury, chanceler da Inglaterra no início dos anos 1300, dá testemunho valioso do que via quanto à dedicação ao estudo:

“os contemporâneos de nosso século, só lhe consagram alguns poucos anos da juventude, justamente na época das paixões e dos vicios, quando poderiam tirar mais proveito de tal estudo em uma idade mais avançada, mais serena e propícia à reflexão”.

Na mesma medida em que se “democratizou” o estudo, ampliando a sua fama e prestígio, decaiu sua qualidade e tornou-se um meio de lucro. “Todos seguem os estudos que levam ao ganho, mas poucos aprendem para saber”, escreve Bury.

A peste negra

Dentro dessa situação de uma decadência nas premissas existentes para o estudo, ocorre a famosa Peste Negra, levando milhares à morte. De acordo com historiadores, a situação chegou a grande calamidade em toda a Europa, levando a uma decadência material sem precedentes. Enquanto proprietários de terras, trabalhadores e comerciantes fugiam para o campo, deixando nas cidades um grande vazio de penúria, o clero, obrigado por seus votos a permanecer com os doentes, morria da peste. Um certo clero, porém, fugiu e sobreviveu, precisamente aquele que consentiu na tentação à desobediência aos votos por fraqueza moral. Ou seja, o clero obediente e comprometido foi reduzido, sobrando o desobediente e dado a fraquezas morais, como o medo da morte.

O mesmo ocorreu com comerciantes: os que tinham constituído menos patrimônio fugiam por medo. Os que trabalharam mais ficaram corajosamente e morreram valorosamente. A pandemia rebaixou a moral e legou à Europa uma classe de pessoas atemorizadas e fracas.

Ainda segundo muitos historiadores, o medo da morte provocou, nos termos da época, uma “febre de viver”, desejo de aproveitar a vida e construir um patrimônio neste mudo para gozá-lo intensamente. A morte não pareceu mais um encontro esperado com Deus, mas um tormento horroroso sobre o qual não é bom nem pensar. O desejo da vida e dos reinos deste mundo ganhou a sociedade que sobreviveu. Isso favoreceu um modo devida baseado nos pecados capitais do orgulho e da sensualidade, que marcou para sempre o decurso histórico a partir de então.

Um outro fator que daria todo um artigo a respeito foi o resultado dessa decadência moral na Itália, berço da Renascença, sobre a qual historiadores como Jacob Buckhard, em seu livro A cultura do renascimento na Itália, fornece grandes evidências. O nível de corrupção política na época chegava a ser alarmante, dando origem a intelectuais bem diversos dos anteriores, como atestamos na obra de Nicolau Maquiavel, entre tantos outros, surgidos justamente dessa sociedade que apresentava ao mundo um grande contraste: na mesma medida que decaia moralmente, demonstrava grandes avanços estéticos e glamurosas inovações artísticas e científicas.

Junto da corrupção, o progresso da vaidade levava a uma acirrada disputa de egos entre os governantes italianos o que levou a contratar e selecionar os melhores artistas para construções e obras que glorificassem a si mesmos. Os mecenas foram o resultado dessa primeira classe de humanistas, que competiam entre si quem financiava e valorizava mais as aparências e os gostos estéticos, numa verdadeira competição de vanglória e qualidades pessoais.

O estudo das virtudes passou a fazer parte da educação da época, mas não como recurso de adquirir graças e méritos espirituais, e sim como forma de demonstração de virtudes políticas, militares ou glórias de poder. O foco das virtudes passou a ser a ambição pessoal, individual do Príncipe e dos nobres associados a ele.

A filosofia nominalista

Antes mesmo da destruição deixada pela Peste, a filosofia decaia a olhos vistos. Ressurgia, pelas letras de Guilherme de Ockham, uma forma arcaica de filosofar, típica dos antigos sofistas. Era o nominalismo, uma forma de conceber a inteligência humana que é particularmente típica de períodos de decadência da inteligência. Em resumo, os nominalistas questionavam a existência das essências puras dos conceitos, isto é, dos universais. Para eles, esses conceitos são meramente construções da mente humana ou, se são objetivamente existentes, existem apenas na mente humana e não na realidade. A realidade é restrita aos objetos aos quais esses conceitos se aplicam. Isso pode parecer uma discussão abstrata demais, mas provocou uma mudança drástica no mundo quando conseguiu se expandir pela Europa.

Séculos antes, as ideias nominalistas surgiam em um ponto ou outro, mas sempre eram refutadas e condenadas por grandes teólogos, como Santo Anselmo e outros. Até mesmo quando ressurgiram, em 1340, por Guilherme de Ockham, na Universidade de Oxford, foram mal recebidos. No entanto, devido aos outros processos de queda educacional e da inteligência, as ideias nominalistas conquistaram adeptos e, por volta de 1500, já havia chegado à Alemanha, onde naquela época, Martinho Lutero estudava teologia. Toda a formação de Lutero foi com base neste erro filosófico típico dos antigos sofistas, classe de pseudo-filósofos da Antiguidade contra os quais Platão tanto alertou.

A classe dos humanistas

Os humanistas foram o produto de todo esse caldo cultural, filosófico e político. Endeusados por si mesmos, cansaram de todo aquele sistemismo teológico e tedioso, preferindo o estudo da poesia e da retórica, gozoso da vaidade e da vanglória. Tornaram-se, assim, aos poucos o modelo de intelectual, de cientista, artista, político e, em breve, do cidadão burguês que se via como merecedor de cada vez maiores direitos e glórias intelectuais.

Voltaire, Diderot, Rousseau, entre muitos outros, são expoentes dessa classe de homens vaidosos, sensualistas e profundamente igualitários, que gostavam de ver a si mesmos como homens benevolentes que “amam a humanidade”. O termo “humanidade”, aliás, passou a representar uma substituição à anterior Cristandade, comunidade de batizados, para incluir ali os cidadãos pertencentes aos clubes que frequentavam, aos cafés em que discutiam tudo e quetionavam valores e, é claro, às sociedades maçônicas que surgiam, recuperando antigos cultos pagãos e esotéricos que floresciam de maneira periférica e oculta na Idade Média.

O resgate do platonismo (neoplatonismo) experimentou grande desabrochar de heresias e erros antigos em uma roupagem moderna. Como mostra os estudos do abade Augustin Barruel, os gnósticos maçônicos que surgiram dessa classe de intelectuais favoreceram a preparação da segunda e mais profunda revolução ocorrida na Europa, a Revolução Francesa, filha do iluminismo e da Renascença, onde o culto ao estético foi veículo para a inserção do paganismo e da mística gnóstica no imaginário ocidental, construindo assim o que hoje conhecemos como modernidade sobre as ruínas da antiga Cristandade.

Autor

  • Cristian Derosa
    Cristian Derosa

    Jornalista e escritor, autor do livro O Sol Negro da Rússia: as raízes ocultistas do eurasianismo, além de outros 5 títulos sobre jornalismo e opinião pública. Editor e fundador do site do Instituto Estudos Nacionais

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