Nesta semana, a liturgia católica recordou a grande figura de São Luís IX da França (1214–1270), canonizado prontamente em 1297, como um símbolo adequado aos nossos dias de confusão, falta de sentido ou de convicções. O rei santo recorda as glórias da civilização cristã, a Cristandade, embrião do que poderia ter sido a civilização ocidental. Há ainda tempo para um retorno?
São Luis brilha como um marco luminoso da cristandade medieval. Filho da Idade da Fé, foi rei e cavaleiro, governante justo e pai de seu povo, exemplo de como o poder temporal pode ser exercido em perfeita submissão à ordem espiritual. Diferente de muitos príncipes que se serviam da Igreja, Luís serviu à Igreja e a Cristo como verdadeiro “rex christianissimus”.
Nos dias de hoje, quando o máximo que os católicos podem ambicionar é um presidente que concilie com os erros menos danosos, o rex era homem de absoluta convicção.
Educado na piedade, ele entendia sua realeza como ministério e não privilégio. Vestia-se com simplicidade, praticava a justiça pessoalmente, cuidava dos pobres e órfãos, e sua corte era antes um prolongamento do altar do que um espaço de vaidade cortesã. O rei francês ergueu a Sainte-Chapelle, verdadeira jóia gótica destinada a guardar a Coroa de Espinhos de Cristo, e partiu duas vezes à cruzada para defender os Lugares Santos. Em Luís IX resplandece a harmonia medieval entre a cavalaria e a fé, onde a coragem militar se ordenava à caridade cristã.
Simboliza ainda a perfeita harmonia entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens, esta última perfeitamente submetida à primeira em prol dos frutos espirituais.
São Luis nos diz muito hoje, quando a combatividade católica é vista como carolice, como espécie de rótulo odioso, não raro confundido por uma geração subjetivista com certas ideologias políticas revolucionárias.
O contraste com o espírito humanista
Em contraste, a Renascença, ao proclamar a centralidade do homem e dissolver a unidade entre fé e razão, abriu caminho para a estética sensualista, para o esoterismo gnóstico e para a autonomia contra a ordem católica. A combatividade de um rei santo, disposto a morrer em terras distantes por Cristo, foi substituída pelo culto ao prazer, à ciência desvinculada da verdade e às ideologias que corroeram as bases espirituais do Ocidente. As glórias da cristandade — universidades católicas, catedrais, ordens de cavalaria, famílias cristãs — foram aos poucos relegadas ao esquecimento pela febre de novidade.
Hoje, dentro da própria Igreja, ecoa um progressismo modernista que, ao invés de se inspirar em santos reis e cruzados, flerta com o relativismo, dialogando com o mundo às custas da clareza doutrinal. O resultado é uma crise de convicções: a fé católica, que outrora moveu exércitos, ergueu civilizações e formou santos governantes, parece em muitos lugares reduzida a uma ética social de consensos frágeis.
Os que procuram resistir à maré de relativismos, chegam a propor até a ruptura com a Santa Igreja, tamanha é a confusão que o mundo moderno criou. Opta-se pela excomunhão fácil, pelo pecado de cisma, como uma alternativa menos danosa. A verdade é que a Igreja, prefigurada pela Arca de Noé, permanece de pé navegando em mares cada vez mais bravos, sustentada pela graça dos sacramentos nas almas dos verdadeiros humildes servos. Como São Luís, os verdadeiros católicos jamais abandonam o barco, não importando o tamanho das ondas que surgem no horizonte.
São Luís IX, em sua simplicidade e firmeza, recorda que a verdadeira renovação da sociedade não vem do culto ao ser humano e sua racionalidade ou preferências, mas do culto devido a Deus. Enquanto o humanismo sensualista e o progressismo moderno confundem liberdade com ruptura, o rei santo mostra que a verdadeira liberdade é obedecer a Cristo.
Sua vida é uma advertência: a civilização só floresce quando permanece fiel ao seu fundamento católico.







