Como muitos já devem ter visto em campanhas de vendas por aí, o livro Dugin Contra Dugin, de Charles Upton, está sendo lançado pela editora Vide Editorial, histórica publicadora de títulos conservadores que também mantém selos católicos como Ecclesia e Kyrion, voltados ao público católico. Charles Upton é um muçulmano adepto do sufismo, ala esotérica e iniciática do islã, o que faz dele um autor pouco ou nada recomendável a católicos. No entanto, a pretexto de alertar o público conservador contra a ideologia eurasiana de Aleksandr Dugin, a editora trouxe ao Brasil um livro que é uma declarada propaganda do esoterismo sufi da Escola Tradicionalista, representada principalmente pelo também sufi islâmico perenialista, René Guénon. O escritor francês sobre o qual Olavo de Carvalho tanto alertou já conta com outras publicações entre os alunos do filósofo, não como alerta, mas como produto de propaganda das ideias perenialistas.
O perenialismo é um conjunto de doutrinas que crê na existência de uma “tradição primordial” anterior a todas as grandes tradições religiosas. Essas últimas seriam expressões imperfeitas dessa tradição ancestral, que só pode ser acessada na forma mais tradicional de cada religião, mas principalmente através da chamada iniciação. Estas foram as ideias que embasam sociedades secretas, seitas e movimentos espiritualistas modernos. A Maçonaria e outras sociedades são exemplos dessa crença, que disseminou a ideia mais superficial de que “toda religião salva”. Mas o tradicionalismo perenialista se diz muito mais profundo e termina por atrair almas sedentas por conhecimentos privilegiados. Trata-se, no entanto, de uma doutrina claramente gnóstica e, portanto, incompatível com a doutrina católica.
O avanço dessas ideias espiritualistas entre conservadores e católicos no Brasil tem sido previsto pelo Instituto Estudos Nacionais há pelo menos três anos, quando publicamos o curso Raízes Espirituais do Globalismo e Eurasianismo (ainda disponível aqui). O curso, que antecipou o conteúdo do livro O Sol Negro da Rússia: as raízes ocultistas do eurasianismo, lançado logo em seguida, estabeleceu a relação definitiva entre a ideologia russa atual e o tradicionalismo perenialista, sendo este um dos principais elementos da estrutura ideológica das atuais ideologias de terceira posição, das quais o eurasianismo faz parte, que crescem em todo o mundo, especialmente entre conservadores.
Fica a pergunta dirigida aos executivos da Vide: por que promover um livro muçulmano contra Dugin se há pelo menos dois livros católicos?
Infiltração progressiva vertical
“Nada está na política de um país que não esteja, antes, na sua literatura”, escreveu Hugo Hofmansthal, em um ensinamento sempre recordado por Olavo de Carvalho. As ideias espiritualistas e filosóficas sempre vêm antes da cooptação ideológica. Foi atento a isso que o Instituto Estudos Nacionais previu o crescimento do duguinismo em escala política, o que evidentemente já vinha avançando no espectro intelectual. A publicação da Vide é uma evidência desse processo vertical de infiltração que vai na contramão do catolicismo e sobre o qual os católicos precisam estar atentos.
Nos últimos anos, vimos os ex-olavistas do Estúdio 5º Elemento entrevistarem o próprio Dugin por duas vezes, cortejando o guru russo sem qualquer ressalva, numa evidente demonstração de apoio. Esse é apenas um fruto de um processo mais profundo. Já era hora, portanto, de vermos as ideias perenialistas que embasam o duguinismo encontrarem eco em propagandas que desafiam a fidelidade alegada à obra de Olavo de Carvalho.
Mas o leitor do Instituto EN, como sabemos, não precisa ler muçulmanos gnósticos para compreender os erros da Rússia. Basta-lhe o ponto de vista católico.
Um dos erros mais comuns que pode estar por trás da decisão de publicar o livro de Upton, pode ser a ideia de que o eurasianismo, por si só, devesse ser condenado apenas por ser revolucionário, ou por vir da Rússia, o que seria de uma superficialidade imperdoável. Afinal, o aspecto satânico de Dugin está justamente na sua adesão fundamental à gnose perenialista, da qual a sua ideologia busca ser uma entre tantas expressões desastrosas ao longo da história. Trata-se, como dito, de um erro imperdoável a quem trabalha com livros. Mais ainda a quem se arroga o rótulo de continuadores do trabalho do professor Olavo de Carvalho.
Ao invés de enaltecer aspectos positivos da obra do filósofo, porém, pareceu-lhes mais vantajoso desvincular Dugin dos erros gnósticos, restando apenas uma imagem de guru ideológico exótico associado apenas ao mero expansionismo russo. Como temos alertado, o duguinismo é a ponta do iceberg da doutrina gnóstica convertida em modo de pensar revolucionário dentro da própria direita.
O que faz o livro de Upton?
Embora Guénon tenha sido umas das principais bases espiritualistas da ideologia de Dugin, o livro de Upton busca desassocia-lo, “salvando” o perenialismo da imagem negativa que Dugin atraiu para si, principalmente no Brasil, após ser desmascarado pelo filósofo Olavo de Carvalho.
Olavo também alertou inúmeras vezes sobre o perigo da leitura e da retórica atraente de Guénon, espécie de “poder hipnótico” que seduz as almas sedentas, como já dissemos, por um conhecimento espiritual privilegiado. O leitor pode imaginar o efeito de popularizar uma obra dessas a um publico católico cada vez mais bombardeado por ambiguidades doutrinárias difundidas e exploradas por influencers através de um quase combate interno contra a Igreja Católica.
A infiltração do perenialismo entre os católicos, sob a forma de estudos de “religiões comparadas” tem sido responsável por atrair almas para fora da comunhão com a Igreja ou ainda a conversão ao islã. Não por acaso, Olavo de Carvalho alertou para a “coincidência” de que a atual islamização da Europa foi não apenas prevista como prometida por Guénon como única alternativa para uma salvação ocidental. Da mesma forma, vemos por toda a parte ideias cada vez mais antiocidentais enquanto cresce a simpatia a doutrinas orientais, estéticas de força e violência ligadas a regimes populistas neofascistas.
Há, portanto, pelo menos duas camadas do problema:
- a infiltração russa na direita, aspecto da política e geopolítica, e
- a infiltração perenialista no catolicismo, elemento que sustenta e mantém o aspecto político fundamentando-o a partir de uma camada intelectual densa e sedutora que apresenta justificação de aparência filosófica.
O próprio Dugin, classificado como filósofo por seus adeptos, é um ideólogo, como comprovou Olavo de Carvalho no debate entre ambos publicado pela mesma Vide Editorial que agora difunde propaganda gnóstica disfarçada de anti-duguinismo.
Na prática, o livro de Charles Upton difunde duas grandes mentiras com objetivos claramente ideológicos:
- Desassocia Dugin do perenialismo tradicionalista;
- Propaga do perenialismo como fundamento das “tradições da humanidade”.
O primeiro ponto só parece verdadeiro diante da evidência do segundo: o duguinismo só parece diferente do perenialismo quando diante da propaganda deste mesmo perenialismo.
As duas vias da gnose
Dugin admite, em mais de um texto, que é um gnóstico. Mas diferente de Guénon, ele se associa ao chamado “Caminho da mão esquerda”, corrente interna do gnosticismo pautado pela destruição do mundo e do aspecto revolucionário mais evidente. Já Guénon pertenceria ao “Caminho da mão direita”, ligado à busca por conhecimento esotérico e pautado por uma relação de negação com o mundo, não de destruição. Ou seja, ambos são gnósticos, sendo um o caminho que conduz certas almas para o outro.
Na sinopse do livro, publicada na própria página da Vide Editorial, fica evidente o caráter de propaganda tradicionalista promovido pela editora, sem qualquer ressalva a católicos (grifos nossos):
Dugin contra Dugin se estende para além da simples refutação, colocando-se como uma defesa da Tradição como eixo transcendente às ideologias. Ao destacar a metafísica tradicional como via de libertação diante das corrupções modernas, a obra conclui com um chamado ao reencontro com as raízes espirituais da humanidade.
Trata-se de um fenômeno continuador do movimento New Age, condenado pela Igreja Católica, que aprofunda e “gourmetiza” a espiritualidade evanescente em uma moldura e estética ligada a tradições espirituais, colocando-as em pé de igualdade.
Mas é justamente essa igualdade que torna o perenialismo completamente incompatível com a fé católica, herdeira da única tradição verdadeira e revelada. Não por acaso, o tradicionalismo de Guénon deu origem a todas as formas ideológicas do igualitarismo revolucionário que embasa a velha heresia da gnose.
A busca por verdades das “tradições da humanidade” remonta a teosofista Helena Blavatsky, inspiradora da ariosofia que embasou o nazismo. A ariosofia foi uma tentativa de procura da tradição primordial na Alemanha e suas origens indo-europeias, assim como Dugin faz com a Rússia e propõe que cada pais procure a sua “identidade tradicional”. Essa grande articulação “tradicionalista” só é possível a partir de uma premissa de igualdade entre várias tradições, o que é evidentemente incompatível com a fé católica.
Uma coisa é o respeito às tradições de cada povo. Outra bem diferente é julgá-las em pé de igualdade, como se todas fossem simetricamente verdadeiras.
Leia abaixo a sinopse na íntegra e tire suas conclusões.
Dugin contra Dugin: Uma crítica tradicionalista à Quarta Teoria Política
Em sua crítica ao liberalismo pós-moderno, hegemonizado pelos Estados Unidos, Aleksandr Dugin identifica um leviatã global. Fundador da Quarta Teoria Política, o pensador russo propõe uma síntese altiva entre religião, metafísica tradicional, sociologia e ação política, em resposta à crise espiritual e cultural de nosso tempo. Sua construção teórica, no entanto, revela contradições e uma frouxidão conceitual que enfraquecem sua autoridade enquanto representante da Tradição. Em Dugin contra Dugin, Charles Upton se dedica a desmontar essa proposta ambiciosa.
Mussulmano, sufi, veterano e pacifista americano, Upton partilha da preocupação central de Dugin, mas rejeita os caminhos abertos por ele. Sua crítica revela inversões metafísicas, deturpações do cristianismo ortodoxo e do Islam e indícios de flerte com o satanismo. Embora reconheça o mérito de Dugin ao enfrentar a decadência espiritual moderna, Upton afirma que seu afastamento da Tradição Primordial — conforme entendida por Guénon e Evola — inviabiliza qualquer alternativa real ao colapso que denuncia.
Para embasar sua crítica feita a partir da própria Tradição, Upton analisa a história da esquerda americana, os riscos da alt-right e propõe um patriotismo espiritualmente enraizado. Dugin contra Dugin se estende para além da simples refutação, colocando-se como uma defesa da Tradição como eixo transcendente às ideologias. Ao destacar a metafísica tradicional como via de libertação diante das corrupções modernas, a obra conclui com um chamado ao reencontro com as raízes espirituais da humanidade.




