Em novo sinal de aproximação com o guru esotérico Aleksandr Dugin, o arcebispo Carlo Maria Viganó, excomungado pela Santa Igreja Católica no ano passado por desobediência ao Papa, compartilhou na rede social X uma postagem do russo em que diz lamentar os atritos com Trump, considerando-o “louco”. O ex-arcebispo interage com Dugin unindo-se à queixa acrescentando uma frase de Santa Teresinha, que diz “tenho medo do Deus que passa e não volta”.

Viganó ficou conhecido mundialmente depois da excomunhão emitida pelo Vaticano no ano passado, mas o prelado já tinha o nome associado à ideologia política do Kremlin desde a Pandemia, quando participou de um congresso online ao lado de Dugin. Pouco tempo depois, Viganó admitiu sua aderência ao Kremlin dizendo que via na Rússia a possibilidade de uma “nova Roma”.
Um dos elementos fundamentais da ideologia eurasiana é justamente a tese da Terceira Roma, que sonha com o estabelecimento de um novo centro espiritual com sede em Moscou. A tese é evidentemente herética, uma vez que atenta contra a Igreja Católica e sua estrutura.
Ao compartilhar publicamente postagem do guru esotérico e assumidamente gnóstico, Viganó presta evidente serviço à heresia, colocando em risco as almas de todos os que o seguem na rede social. Entre os seguidores de Viganó, contam-se numerosos tradicionalistas católicos, entre grupos e movimentos que têm se insurgido abertamente contra a Santa Sé.
Embora não tenha sido a aproximação com o neofascismo esotérico de Dugin a razão de sua excomunhão, mas a desobediência à Santa Sé e o não reconhecimento da autoridade do Papa (Francisco), o flerte com doutrinas falsas e heréticas tem sido observado há algum tempo, levando Viganó a ser apelidado por uma revista polonesa como o “Dugin para católicos”.
De acordo com o Catecismo da Igreja Católica, a pena de excomunhão “é uma censura pela qual alguém é excluído da comunhão da Igreja, sendo-lhe vedado participar da vida sacramental e exercer certos atos eclesiásticos.” (CIC, cân. 1331).
O excomungado está fora da plena comunhão com a Igreja, perdendo, portanto, o estado de graça eclesial, embora não perca o caráter sacramental do episcopado (que é indelével). No entanto, não pode receber os sacramentos e também está proibido de ministrar ou receber o sacramento da confissão, unção dos enfermos, etc., salvo em perigo de morte (CIC, cân. 1331 §1). Não pode conceder absolvição válida, exceto em perigo de morte (cân. 976).
Como efeito espiritual advindo da pena de excomunhão, o fiel (ou clérigo) sem a graça santificante, pode aprofundar no erro, caindo de abismo em abismo, legando outros fiéis à mesma condição.
Possível estado de heresia
Embora ele não tenha sido acusado nem julgado por heresia, a sua aproximação com o guru da ideologia russa e a simpatia aos interesse do próprio governo russo induzem a uma conclusão de perigosa aproximação com grandes heresias contemporâneas.
Um dos pilares da ideologia de Dugin é o perenialismo da Escola Tradicionalista, representada fundamentalmente por René Guénon, da qual se diz devedor doutrinário apesar da contrariedade de alguns adeptos da doutrina (como Charles Upton). Não há, porém, uma “ordotoxia perenialista” clara que se possa anatematizar internamente os adeptos da heresia. Historicamente, o perenialismo de tipo guenoniano foi utilizado por diversas doutrinas e ideologias. Dugin se vê como um tradicionalista e sua história é indissociável dessa doutrina, embora ele dê a sua própria interpretação do tradicionalismo perenialista colocando-o a serviço do expansionismo da Rússia, nem que para isso precise lisonjear outros nacionalismos pelo mundo dando-os permissão para invadirem e expandirem-se pelos territórios que julgarem associados cultural e espiritualmente aos seus interesses regionais.
Do ponto de vista católico, porém, não há como separar Dugin do tradicionalismo perenialista de Guénon, sendo ambos expressões do gnosticismo esotérico que sustenta uma “igualdade tradicional” entre todas as religiões, defendendo práticas de iniciação, indo além até mesmo da tese ambígua da “unidade transcendente das religiões”, que também possui elementos e expressões gnósticas e heréticas.







