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Tem circulado, recentemente, pelos telefones celulares, trecho de uma palestra da professora de filosofia Lúcia Helena Galvão[1], no qual ela cita a seguinte frase de Benjamin Disraeli:

“Uma sociedade só tem chance quando os homens de bem têm a mesma audácia que os corruptos.”

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Ela reflete que crianças começam a trabalhar para o tráfico aos sete ou oito anos de idade, e são submetidas desde então a uma disciplina rígida, pautada pela busca de eficiência máxima.

Essa disciplina e eficiência que lhes são impostas, com as quais crescem habituados e familiarizados, fá-los-á, sem dúvida, mais fortes que o adolescente de classe média que cresce acastelado, tendo como desafio máximo diário apertar os botões do controle remoto, ou, hoje, diríamos, do joystick.

Enquanto os “maus” são treinados no máximo de disciplina e eficiência, os “bons” são treinados na lógica da lei do menor esforço.

Fatalmente, isso fará com que o grupo dos “maus” se potencialize, prevalecendo sempre por sua grande capacidade de enfrentamento de dificuldades e subjugação das circunstâncias, enquanto a lei do menor esforço vai produzindo pessoas “de bem” cada vez mais débeis.

G. K. Chesterton, no ano de 1909, escreveu, no livro “Ortodoxia”[2], a primorosa frase:

“As virtudes enlouqueceram porque foram isoladas uma da outra e estão circulando sozinhas.”

De acordo com o magistral Chesterton, se subtraio de uma virtude a sua finalidade e a isolo de seu conjunto, posso perfeitamente “enlouquecê-la”, ou seja, empregá-la a fins não legítimos, tal como o crime organizado faz com a eficiência e a disciplina, que são, em si mesmas, virtudes.

Refletindo mais a fundo sobre estas premissas, chegaremos à conclusão de que a mesma subversão tem ocorrido com inúmeras outras virtudes. No contexto atual, podemos afirmar que o medo e a covardia agora são “empregados” como qualidades humanas imprescindíveis, ainda que disfarçados sob a máscara da virtude da “prudência”. Já a coragem e o destemor são enxergados como vícios, mais que vícios, defeitos morais.

A realidade que nos circunda pode nos deixar, muitas vezes, desalinhados com a nossa própria condição humana e longe de nossos anseios. Estamos educando crianças com a confusa mensagem de que é possível se esconder, dentro de casa, da vida, do sofrimento, das adversidades…

A confusão generalizada dessa tal sociedade moderna faz com que não saibamos, muitas vezes, nem mesmo quem somos. As mães se esmeram em ser como os pais, trabalhando loucamente, equilibrando casa, carreira, filhos e salão de beleza. Querem e exigem ganhar o mesmo, ou mais, que os homens, pois precisam ter o melhor carro,  e condições de fazer as melhores viagens, o melhor celular, relógios, tablets, notebooks, e as crianças precisam se vestir como verdadeiros ícones da moda, ou, “blogueirinhos”. As festas de aniversário têm que acontecer como megaeventos, numa gastança infernal e muito desperdício, com direito a transmissão simultânea pelas redes sociais, para o parente que, coitado, mora longe e não pôde comparecer por causa da “pandemia”.

 Já os homens, os pais, esmeram-se em ser como mães. Só serão considerados bons e dignos se trocarem as fraldas, derem banho, o almoço, o jantar, a frutinha amassada, a papinha sem carne, passarem batom com as meninas, deixar que pintem suas unhas. Ah, e é preciso, é claro, levar e buscar à escola, pessoalmente, todos os dias, ler todos os livros infantis que forem lançados pelo Lázaro Ramos ou pelo Jairzinho do Balão Mágico, e proverem suas crianças de um afeto indulgente, que beira ao sentimentalismo.

Obviamente, uma vez mais, a virtude e o vício não estão nas atitudes em si mesmas consideradas: os pais podem, e devem, fazer tudo isso pelos filhos. A questão é: quem é quem?

É inegável, a menos que se queira enganar os próprios olhos, que as gerações têm se enfraquecido cada vez mais. A única mola propulsora do mundo, hoje, é o dinheiro, quase sempre acompanhado de corrupção. A fama, momentânea ou não, também costuma mover. Mas, não se faz nada por idealismo, por desejo de progresso ou por vontade de melhorar o mundo. Nem por coragem.

Quando dizemos sobre a “volta da mãe ao lar” não estamos defendendo, como pode supor alguma feminista desvairada, que a mulher deva se anular produtiva e intelectualmente, mas sim que esteja mais próxima da finalidade precípua de sua vida, que é a de auxiliar, amparar e instruir os filhos. Para encorajá-los, não para mimá-los. Uma proximidade que permita amparo, não escora.

Mas, diante de uma dita pandemia, de uma doença cuja letalidade se mostrou menor que a da gripe comum, inócua, graças a Deus, à saúde de crianças e adultos saudáveis, a atitude da sociedade foi a da mais absoluta covardia, atendendo a um não comprovado toque de recolher, escondendo os filhos dentro de casa, exigindo que só voltem ao convívio social, e à escola, após a “invenção” de uma vacina (não importa quem a inventará, nem como). Adultos escondidos debaixo da cama, assustados, morrendo de medo do bicho papão.

A histeria coletiva chega ao ponto de, ao arriscar dizer que não temos medo do vírus, sermos olhados como débeis mentais, alienados, fora da realidade. Ora, a coragem não é justamente o que se exige do ser humano? Que ilusão é essa? A ilusão de poder evitar o sofrimento, que é próprio da condição humana… estamos enganando nossos filhos?

Nem se diga, para não piorar o já difícil quadro, a respeito do que as crianças estão fazendo dentro de casa em todo esse tempo. Quem são os ídolos, aos quais assistem boa parte do dia, com os olhinhos vidrados no YouTube? Quais são os jogos que raptam a atenção, enquanto as mãozinhas ligeiras se convulsionam nos botões do joystick?

A maioria dos casais não se mostra nada preocupada em fazer dos filhos homens e mulheres de bem, éticos, honrados e responsáveis por si mesmos e pelos outros. Antes, a preocupação é fazer deles youtubers de sucesso, blogueiros de alcance, “influencers” digitais, ou “gamers” imbatíveis. Muitos vestem seus filhos com camisetas e colares dos cantores de funk, e acham a coisa mais linda do mundo que a filha saiba dançar como a Isa. Ou melhor, rebolar. O bicho papão, nós o estamos criando.

Dolorosa, mas muito precisa e verdadeira, é a mensagem trazida por Theodore Dalrymple, no livro “Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico.”[3] Essa geração que cresce desfrutando das supostas vantagens da civilização, tomando o conforto como pressupostos, gratuitos e garantidos, desde sempre e para sempre, nada serão além de pessoas mimadas, despreparadas, para quem os bens de que gozam custam muito pouco. Serão eterna e doentiamente dependentes, e reivindicarão, doa a quem doer, seu direito inalienável ao egoísmo.

É tão comum pais, que consideram a si mesmos bons ou ótimos, perguntarem-se por que seu filho é tão problemático. Como entender isso se “lhe demos tudo?” Dalrymple responde que esses pais estão aprisionados pela ideia romântica, de inspiração freudiana sentimentalóide, que os problemas do ser humano advêm do cultivo de desejos irrealizados. Os pais de crianças a quem nada foi negado mostram-se chocados quando elas se revelam egoístas, exigentes e intolerantes.

A dor, a perda, o sofrimento, a frustração, a mudança, tudo isso é fundamental para a formação completa do ser humano. Por que tantos parecem se esquecer disso, desdobrando-se como marionetes para prover aos filhos tudo, absolutamente tudo, evitando, a todo custo, que sofram a mais mínima frustração? A criança precisa de proteção, e faz parte disso muni-la, ou municiá-la, do aparato sentimental necessário ao enfrentamento da vida real. Superproteção não é, nem nunca foi, amor… infelizmente, muitos estão aí para provar que esta não é apenas uma frase feita, mas um dado irrefutável da realidade.

As adversidades existem e sempre existirão. Somos, inclusive, o resultado delas. Somos o resultado das lutas de muitos dos nossos antepassados que enfrentaram, com coragem e bravura, lutas que nem sequer podemos imaginar. Temer as adversidades é tão inútil quanto acreditar na ilusão de que podemos viver sem elas.

Coragem, é preciso seguir adiante! Com sabedoria, permitir que as provações e as contrariedades nos levem aos pés da Cruz, pois, se em algo nos podemos distinguir em meio a esse mundo louco, é escolher, livremente, por herança, um Deus Crucificado, que não fugiu ou tentou se esconder do sofrimento.


[1] Palestra disponível em https://youtu.be/oYOhMurCH-w

[2]  Chesterton, G. K. Ortodoxia. 1. Ed. São Paulo: Editora Ecclesiae, 2013.

[3] Dalrymple, Theodore. Podres de Mimados: as consequências do sentimentalismo tóxico. 1. Ed. São Paulo: É Realizações, 2015.