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Continuando a série de artigos a respeito da trilogia de Olavo de Carvalho, desta vez aterrisamos sobre a obra ‘O jardim das aflições’. A tarefa ousada, e difícil, a que me proponho neste artigo é passar ao leitor uma imagem mental do que entendo ser a espinha dorsal do livro. Contém, o tomo, um denso conteúdo, de grande envergadura filosófica, histórica, política e espiritual. Ao longo do texto o autor percorre o mundo filosófico partindo da antiguidade grega e chegando até a modernidade, reflete sobre as mudanças políticas e espirituais ocorridas ao longo dos últimos séculos na Europa – berço aglutinador da civilização ocidental -, aborda as diferentes ideologias dominantes que foram surgindo como uma forma de tentativa de resposta aos anseios e inquietações humanas mais variados – ou como reação ao horror diante da realidade presente e tentativa de transformá-la -, algumas com a sua gênese proveniente de um comportamento humano e corpo de ideias chamado de gnosticismo, tendo como pano de fundo a teoria do Império e suas relações com a religião preponderante em cada momento da história do ocidente. Em outras palavras, a tensão permanente na história do ocidente entre autoridade espiritual e poder temporal, ora em aparente harmonia, ora em conflito.

Estamos no início da década de 90 no Brasil. No ambiente político, o país vive uma enorme instabilidade que culmina no Impeachment de Fernando Collor de Mello. O ponto de partida da obra deu-se após o autor participar, em 1990, de uma palestra (“As Delícias do Jardim: a Ética de Epicuro”) sobre Epicuro, filósofo Grego, proferida por José Américo Motta Pessanha, no evento, ocorrido no MASP – Museu de Arte de São Paulo -, denominado ‘Ciclo de Ética’ cujo propósito principal era realizar uma abordagem cronológica das principais doutrinas éticas. A apresentação causou um misto de estranheza e repulsa no escritor, pois, para ele, conhecedor da obra de Aristóteles, Platão, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, nada do que foi exposto possuía consistência intelectual e filosófica. Segundo palavras dele, aquilo era um entorpecente, que entrava pelos ouvidos da platéia, envenenava os cérebros, movia o eixo dos globos oculares, fazendo ver tudo diferente do que era, num giro louco da tela do mundo. Tomado pela consternação, ao chegar em casa, resolve escrever a respeito daquilo para, segundo ele, ajudar a exorcizar-se do que havia ouvido naquele evento. Vira a noite debruçado sobre os escritos. Em função de mudanças de cidade e de endereço, acaba deixando de lado o material, voltando a ele somente no final de 1992 quando começa a lhe chamar a atenção a súbita popularidade da palavra ‘ética’ no meio social brasileiro. O palestrante de Epicuro também havia sido o organizador e editor da série ‘Os Pensadores’, publicada pela editora Abril. Essa série também gera muita inquietação no autor já que, à maneira do Ciclo de Ética, da mais espaço a autores de segunda ordem, ou que promovem a desordem, no campo da filosofia.

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Olavo faz um mapeamento mental das ideias difundidas por Motta Pessanha na palestra assistida e em seus trabalhos editoriais, buscando captar suas referências intelectuais e seus propósitos. Ficou perplexo com a história das ideias do ocidente apresentadas naquele evento. Chamou-lhe atenção a revisão histórica feita pelos palestrantes ao ignorarem filósofos de primeira ordem como Sócrates e Aristóteles e, ao mesmo tempo, tratarem Epicuro como um ‘grande filósofo’ – ao longo do livro, demonstra que de grande filósofo ele não tinha nada. Todo o período da idade média é tratado apenas como um ‘período obscuro’ em razão da Inquisição, ignorando-se grandes pensadores e filósofos (e grandes Cristãos!) como Duns Scotus, São Tomás de Aquino, São Boaventura, etc. Na verdade, a Inquisição é usada como subterfúgio para ignorar e soterrar todo um período intelectual que não contribuiu ao materialismo histórico defendido pela turma do evento. Chegam a deixar de fora, inclusive, grandes pensadores da entrada da modernidade. O palestrante José Américo Motta Pessanha procura estabelecer uma tradição histórica do materialismo, de acordo com o autor, ao buscar em Epicuro a sua origem e lincá-la ao longo do tempo com Lucrécio, Gassendi, vindo parar na modernidade em Marx. Como já dito, José Américo também foi o responsável pela edição da série Os Pensadores da Editora Abril, cujo propósito de fundo também visava a criar uma tradição histórica do materialismo cujo expoente na modernidade foi Karl Marx, deixando meio de lado gigantes como Platão e Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz, etc – visão do escritor.

O espanto causado no autor pelas ideias apresentadas pelo conferencista na palestra no MASP fê-lo questionar-se sobre as origens, motivações e propósitos de tudo o que foi falado à plateia no evento. Acredito que ele tenha utilizado instrumentos mentais encontrados em Aristóteles para analisar as ideias defendidas pelo palestrante, como as questões das quatro causas – causa material, causa eficiente, causa formal e causa final. Afinal, do que estava realmente falando o palestrante, por baixo da retórica encantadora? Quem é ele, ou como se encaixa, ou qual seu papel, no discurso a que se propõe difundir? Qual é a proposta que defende no discurso que expõe? Há como finalidade, ou intenção, projeto (cultural, pedagógico, político-ideológico, religioso etc) em jogo no discurso propagado?

Ao examinar em maiores detalhes a dita filosofia de Epicuro, assim como as palestras do MASP e a série Os Pensadores, Olavo percebe o interesse de Motta e outros de reescrever a história das ideias de tal maneira a buscar a construção de um futuro revolucionário, ou transformador, de base materialista caracterizando-se, portanto, em um verdadeiro propósito de alteração cultural (ou, como atualmente fala-se muito, guerra cultural – guerrear e atacar no campo das ideias e, consequentemente, transformar o horizonte de consciência das pessoas, impondo a elas de maneira sutil e imperceptível, se possível, o que pensar e como absorver determinados valores, instituições, doutrinas e, principalmente, como ‘enxergar e moldar o futuro’), pouco importando se condiz com a realidade circundante ou não. A ‘base materialista’ citada acima quer dizer, entre outras coisas, eliminar qualquer tradição espiritual, religiosa ou metafísica do ambiente cultural. De maneira resumida, relaciono as principais intenções encontradas pelo autor ao examinar o trabalho de Pessanha e os demais:

  1. instaurar como fundamento da cultura um novo corpo de crenças (logo, o que vai povoar a mente das pessoas em suas escolhas pessoais) – nível retórico -, que pela repetição acabarão por se tornar consensuais, afastando dos olhos do público e subtraindo à discussão – eliminando, portanto, o processo dialético -, como irrelevantes ou “superadas”, as opiniões contrárias. Inviabilizar assim o debate, encobrindo-o sob um simulacro de debate. Exercer desta forma a hegemonia  sobre o panorama cultural brasileiro;
  2. promover a ‘tradição materialista” – corpo de crenças falado acima -, sob a qual se empreende um vasto remanejamento de toda a visão da História do pensamento, de modo a colocar no centro da evolução filosófica figuras como Epicuro, Gassendi, La Mettrie, Sade, etc, deixando de lado as grandes filosofias que não se incorporem na cosmovisão materialista (falarei sobre o que Epicuro pensa sobre o cosmos);
  3. a conquista da inteligência teorética é a culminação de um processo de personalização, de libertação da consciência pessoal, iniciado pela filosofia grega e completado pelo cristianismo. É contra o exercício da consciência pessoal autônoma que se voltam as correntes em que se inspira o grupo organizador do curso da Ética.

Um pergunta que o escritor se faz e procura responder no livro como fruto de uma reflexão interior, que acredito merecer destaque, é: Como se produz num indivíduo em particular o embotamento completo da intuição moral (excluindo-se os casos de psicopatia congênita)? O que intriga o autor nesse assunto é: Como um homem de personalidade normal pode ser transformado de tal maneira que seu senso moral se torne idêntico ao de um sociopata de nascença? Como se pode inocular artificialmente a perversidade moral?

A pesquisa realizada pelo autor fez chegá-lo ao fenômeno moderno da manipulação da mente atingida através da ação humana premeditada. Inúmeras técnicas que podem ser utilizadas para subjugar a mente foram encontradas por ele, sendo as principais: reflexos condicionados, lavagem cerebral, guerra psicológica, influência subliminar, controle do imaginário, engenharia comportamental, informação dirigida, Programação Neurolinguística, hipnose instantânea, estimulação por feromônios, etc. Destaco aqui pequenos trechos que considerei relevantes sobre o tema:

“Se retirássemos, enfim, do panorama histórico do século XX as técnicas de manipulação da mente, nada teria podido acontecer como aconteceu.

“Elas estão entre as causas primordiais do acontecer histórico no nosso tempo, e no entanto os historiadores continuam a ignorá-las… Quando se escrever, porém, com suficiente visão de conjunto a história da pesquisa e do uso das técnicas de manipulação da mente no século XX, então se verá que nenhum outro fenômeno o define e o singulariza tão bem quanto esse. Mais que o século das ideologias, mais que o século da física atômica, mais que o século da informática, este foi o século da escravização mental.”  (Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições – De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil, Campinas,SP, Vide Editorial, 2015, p. 88)

No capítulo sobre Epicuro, o autor lista alguns elementos principais da pretensa filosofia do grego que relaciono a seguir:

  • a fuga dos intelectuais para o Jardim (de Epicuro) não é alienação nem covardia, mas uma forma superior de luta política. Ensinava que o filósofo deve abandonar todo empenho de reformar a sociedade, retirando-se para a vida contemplativa na solidão do campo;
  • o corpo é material, a alma também é material, até os deuses são materiais – havendo apenas, entre estes três níveis de seres, a diferença de maior para menor densidade da dita “matéria”. Como tudo é material, só o que é material chega ao nosso conhecimento. Se sonhamos com deuses, isto já prova, segundo Epicuro, que eles existem materialmente, pois aquilo que não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos. Embora materiais como nós, os deuses são compostos de matéria sutil, rarefeita, e por isso são mais duráveis. Aí estão as raízes do materialismo histórico;
  • a única ocupação, para Epicuro, dos deuses é conversar, em idioma grego. Sendo filósofos, eles trocam ideias nas longas noitadas do intermundo. Não interferem em nada na ordem ou desordem das coisas. São indiferentes a nós, não ligam para nossas preces. Epicuro afirma que nada devemos temer nem esperar dos deuses, pois permanecem no ócio contemplativo, e não nos causam nem males nem bens. Afirma ainda que o prazer é o supremo bem, que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações, que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo, e que os deuses são o modelo mais perfeito desse ócio, motivo pelo qual devemos admirá-los. O grego ainda diz que os deuses são inócuos e indiferentes; quem busca prazer no terrestre e no imediato, sem conhecimento da meta suprema personificada na imagem dos deuses, só faz aumentar a dor. Também fala que os deuses, além de ociosos, são indiferentes ao bem e ao mal;
  • uma ética prática – que para o autor não passa de uma psicologia prática – chamada de Tetrafármacon, que o grego propõe a todos os males humanos e que consiste basicamente em quatro convicções: 1ª, não se deve temer a morte; 2ª, é fácil alcançar o bem; 3ª, não se deve temer a divindade; 4ª, é fácil suportar o mal.  

Destaco ainda um ponto que diz respeito a sua cosmologia. Olavo relata que ao criticar a teoria de Demócrito sobre os átomos, Epicuro argumenta que os átomos devem ter também um princípio de movimento livre e indeterminado, chamado por ele de clinamem (“tendência”) e define como o impulso espontâneo de buscar o prazer e fugir da dor (Seria, talvez, uma espécie de pão e circo filosófico dos primórdios?). O autor também faz este comentário sobre as ideias cosmológicas do pensador grego: O cosmos de Epicuro não é um cosmos. É um caos, onde galáxias e amebas, mundos e homens formam-se e desaparecem por acaso, ao bel-prazer dos movimentos fortuitos dos átomos. Essas concepções de Epicuro para o cosmos, na mente de quem as absorve consciente ou inconscientemente, trazem consequências profundas. Se o cosmos é o caos, logo podemos deduzir que não existe uma ordem da natureza, com leis e hierarquias perenes. Se o universo não contém ordem, tudo pode ocorrer a qualquer momento. Essa visão pode fazer a pessoa pensar também que todas as regras e valores são meras convenções sociais, nada mais. Há um descolamento da percepção humana com a realidade circundante a tal ponto que a pessoa não capta que, por exemplo – bem simples -, uma semente de laranja vai, de maneira natural, sempre gerar uma árvore cujo fruto é laranja, e assim por diante, revelando uma ordem na natureza, com infindáveis essências. A semente de laranja não é livre para escolher qual tipo de fruto sua árvore produzirá. Os conceitos de matéria e forma desenvolvidos por Aristóteles com base em sua observação da natureza física podem ajudar a pessoa e captar aquelas realidades e aprimorar (ou mesmo resgatar) a sua percepção sensível.

É nítida, quando se lê o livro, a importância dada pelo autor, principalmente em sua formação pessoal, à gramática, à lógica e à retórica. A palavra gramática tratada aqui não tem o enfoque de regras gramaticais, mas de estudo e absorção da grande literatura universal, como Dante, Cervantes, Shakespeare, Dostoiévski, Goethe, Balzac. A incorporação da grande literatura permite ao leitor conhecer arquétipos humanos, vivenciar mentalmente experiências e sensações que, talvez, nunca experimentasse em sua  vida cotidiana contribuindo, portanto, ao desenvolvimento humano. Certamente essa incorporação literária, juntamente com a filosofia clássica, permitiu ao autor sobrevoar acima do racionalismo moderno, marcado por uma matematização quase alucinante do pensamento. Pela boa literatura Olavo também captou as mudanças culturais e espirituais ocorridas nos últimos séculos ao comparar, por exemplo, os enredos de Dom Quixote e de Fausto. O percurso pelo Trivium (gramática, lógica  e retórica) também marca a caminhada rumo à aquisição da alta cultura, elemento que Olavo considera ter importância capital para quem quer desenvolver uma boa formação humana. A lógica o autor foi buscar na filosofia clássica grega: Aristóteles. É com ela que ele aperfeiçoa o seu trato com a realidade e aprimora o seu discurso. É através dela, e da dialética, que confronta e desmonta as ideias Epicuristas sobre o cosmos, sobre a ética e a lógica, as ideologias modernas, etc. E por fim a retórica, estudada e compreendida para perceber quando o discurso é utilizado para convencimento sobre uma ideia, uma crença, uma preferência política, ou o que quer que seja, sem estar necessariamente ancorado em uma demonstração racional (evidente que falei aqui de maneira muito simplificada de gramática, lógica e retórica).

Arriscaria dizer que podemos extrair do contexto do livro, pelo menos, dois sentidos, ou maneiras de abordagem, para a questão da ideologia – considerando também o que mencionei acima sobre lógica. O primeiro diz respeito a quando apreendemos um conjunto de ideias acerca de um objeto, através de nossa percepção sensível (visão, audição, etc), que representa aspectos da sua realidade, para explicar ou compreender determinadas situações ou comportamentos da sua existência (objeto). Ou, podemos ao longo do tempo perceber inúmeras características, qualidades etc, que descrevem a estrutura do objeto, o que Aristóteles tratou como a sua forma (fórmula, o algoritmo que contém a descrição dos aspectos mapeáveis e possibilidades do ser). Esse sentido do uso da palavra ideologia depende muito da percepção do ser humano, de sua subordinação à realidade que o circunda e se impõe a ele. O segundo sentido de abordagem da ideologia está relacionado a quando o homem desenvolve em sua mente ideias que não estão necessariamente relacionadas à realidade, mas atreladas as suas emoções, medos, angústias, ódios, frustrações, revoltas, alucinações, desejos, prazeres, imaginação muito fértil, a um sonho de resolver os problemas do mundo, transformar o mundo, etc. Ou seja, a pessoa não se vale de sua percepção, ou tem uma percepção distorcida, ou mistura-a com os elementos relacionados acima. Penso que neste cenário entram muitas angústias humanas (o sujeito busca vivenciar muito do que imagina e não do que vê). O exercício da vontade e da inteligência é um importante aliado para guiar a pessoa quando esta deve discernir se as ideias que lhe ocorrem condizem ou não com aspectos da realidade concreta. Por exemplo, ao observarmos um cachorro, percebemos e captamos que é um animal que late, pode morder, não voa, come carne, não mia, etc. O fato de você sonhar que um cachorro esteja voando, ou mesmo imaginar isso no dia-a-dia, não fará com que um cachorro voe na realidade concreta. Esse patamar de percepção é elementar para um intelecto normal e consciente.

Outro tema que merece atenção no livro é a relação entre autoridade espiritual e poder temporal na história do ocidente. Na antiguidade romana a autoridade espiritual estava contida no poder temporal por intermédio da figura do imperador – considerado Deus. Com o advento do cristianismo e a posterior dissolução do império romano ocorreu uma desvinculação entre os poderes espiritual e temporal (político). Houve tentativas de resgate de um império tomando por base a nova autoridade espiritual constituída, o sacerdócio cristão (Carlos Magno, Otto I, …). As mudanças ocorridas na Europa, como a ruptura da unidade cristã, as grandes navegações e o surgimento das línguas nacionais, dão início a um novo tipo de projeto de império, o império colonial. Esse período marca também uma grande mudança nas relações entre poder temporal e autoridade espiritual, com o advento da reforma protestante e a fundação das igrejas nacionais (desvinculadas da Igreja Católica – até então portadora exclusiva da autoridade espiritual publicamente constituída).

“A fundação da primeira Igreja nacional marca uma metamorfose radical na idéia de império e assinala o verdadeiro início dos tempos modernos: tomando do Papa as chaves do Reino, o chefe de Estado se autonomeia representante direto de Deus. Com Henrique VIII, é César que volta ao trono, investido de prerrogativas sacerdotais. O dualismo milenar é resolvido mediante a absorção da Igreja no Império.

“Henrique é, sem sombra de dúvida, o pai da civilização moderna, o fundador da idéia do Estado auto-sacralizado, que inspirará mais tarde Hegel e Robespierre, Napoleão e Comte, e que continuará reverberando até nossos dias nos discursos da Nova Era e da Revolução Cultural.” (Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições – De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil, Campinas, SP, Vide Editorial, 2015, p. 286-287).

O projeto de império Napoleônico, surgido após a Revolução Francesa, rompe a tradição francesa de relações com a autoridade espiritual cristã: Napoleão autocoroa-se Imperador, renegando a benção Papal e inaugurando um império não-cristão (diferentemente de Henrique VIII que havia rompido com a Igreja Católica, mas que manteve ligada ao seu Reinado uma estrutura religiosa inglesa de cunho cristão). Dando sequência a esta nova mentalidade, surge o projeto de império Americano sob uma nova forma: Republicano e Leigo.

“O Estado leigo tem religião, sim. Só que é um esoterismo ao qual não corresponde, no andar de baixo da sociedade, nenhum exoterismo em particular, porque, no novo quadro, a função de exoterismo, ou religião popular, é exercida por toda a pululação de religiões e seitas em disputa. Judaísmo e cristianismo, islamismo e budismo tornaram-se aí meras “seitas populares”, ao lado do espiritismo e da teosofia, da New Age e da ufologia, todas niveladas e integradas na grande liturgia da religião civil, umas a contragosto, outras de bom grado, outras ainda sem terem a menor idéia de a quem servem. Acima de todas elas paira, invisível e onipotente, a Religião do Império, perpetuada no culto discreto oficiado por uma nova casta sacerdotal colhida nos escalões superiores da aristocracia maçônica.” (Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições – De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil, Campinas, SP, Vide Editorial, 2015, p. 332)

Essa nova forma de estruturação do poder temporal vai se espalhar por todos os lados, chegando ao Brasil no final do século XIX, após o golpe da República realizado por meio da quartelada de uma pequena parcela do Exército. Chegamos a ter a denominação de “República dos Estados Unidos do Brazil”. A nova constituição vai receber influência das idéias americanas e francesas, ao ponto de homenagear Benjamin Constant, professor na Escola Militar e seguidor do ideólogo francês Augusto Comte – intelectual da Doutrina Positivista. A frase de nossa bandeira é proveniente dessa ideologia.

Na visão do escritor, a transformação da autoridade espiritual, passando de uma representação cristã e pública para algo sincrético e discreto – sem aderir a uma tradição espiritual específica -, pode ter sua raiz principal em um acontecimento que marcou o mundo espiritual do ocidente, na visão do autor: o rompimento entre os pequenos mistérios e os grandes mistérios – termos empregados por Olavo no livro. No contexto da obra, a instituição portadora dos pequenos mistérios seria a Maçonaria – oriunda das organizações de ofício -, ao passo que a portadora dos grandes mistérios seria a Igreja Católica. Os pequenos mistérios tratam da ordem histórico-cósmica (o conhecimento da natureza pelo homem, do cosmos e da sociedade humana – a polis), ao passo que os grandes mistérios voltam-se ao infinito e ao divino. A ruptura entre os dois planos teria ocasionado ao homem moderno o fechamento de seu horizonte de consciência no mundo humano e material – o materialismo espiritual de que o autor fala no livro, que teria culminado no ‘culto dos deuses do espaço e do tempo’. A simbologia da cruz apresentada no livro representaria na horizontal o primeiro plano (mundo humano representando sociedade, lei e história e mundo natural representando cosmos, lei natural e ambiente físico), ao passo que a vertical indicaria o segundo plano, ou seja, a relação entre a alma e Deus. O escritor faz uma profunda pesquisa histórica sobre as ideologias modernas, chegando a uma associação que cito aqui de maneira bem superficial: deuses do espaço/correntes naturalistas/positivismo/nova era e deuses do tempo/correntes historicistas/marxismo/revolução cultural. Muitas dessas ideias teriam povoado quase por completo o imaginário das sociedades de debates e iniciáticas, excluindo de seus horizontes a perspectiva da metafísica e da vida eterna (naturalmente, neste texto não estou tratando de questões de doutrina e/ou teologia). O exemplo daquela ruptura, vivenciado como um drama humano na alma de Goethe durante a sua vida adulta, é descrito na obra por Carvalho.

“A trajetória de Meister imita a do próprio Goethe — alto dignitário da Maçonaria —, desde a revolta romântica de uma juventude de poète maudit até a esplêndida maturidade que encontra no serviço ao Estado, à sociedade, ao progresso, a realização do sentido da existência terrestre, tal como o primeiro Fausto que conclui pela apologia da indústria e da técnica que abrirão ao homem as portas de uma nova civilização. Mas, na velhice, Goethe conscientiza-se agudamente das limitações da perspectiva histórico-cósmica. Na continuação de Wilhelm Meister e sobretudo no segundo volume do Fausto, ele procura integrar essa perspectiva no quadro maior de uma ascensão puramente espiritual. Ressurgem então os temas cristãos, e o arrependimento aparece como a via que abre as portas da salvação; a alma resgatada, que fora prometeica e dominadora ante o mundo, torna-se, inversa e complementarmente, passiva e “feminina” ante Deus, e, transcendendo a esfera histórico-cósmica, se eleva aos céus. O ingresso final no reino dos Grandes Mistérios coroa a trajetória interior do maior dos poetas modernos com a descoberta de uma Lei superior à ordem cósmica, bem como de uma humildade mais profunda e salvadora que a do mero servidor da História.

É altamente significativo que Goethe, tendo vivenciado a ruptura maçônica com a tradição cristã e se tornado o porta-voz por excelência da ideologia histórico-progressista, sentisse de maneira mais ou menos obscura, durante toda a sua vida madura, a insuficiência espiritual dos Pequenos Mistérios e buscasse insistentemente uma perspectiva espiritual mais elevada. Dividido entre o impulso espiritual e a rejeição maçônica do cristianismo, ele não viu outra saída senão buscar a espiritualidade superior numa tradição religiosa vizinha: o Islam. Os temas da espiritualidade islâmica, aprendidos na devotada leitura dos grandes poetas e pensadores místicos persas e árabes, são uma presença constante na lírica goetheana. Em conversações privadas, Goethe manifestou várias vezes sua apreciação pelo profeta Mohammed, que chegou a tomar por tema de uma peça, infelizmente não concluída. A consideração de uma possível “saída islâmica” para o conflito pressagia, com um século e meio de antecedência e em escala pessoal, a formulação do drama Ocidental que viria a ser dada por René Guénon. De acordo com Guénon, a civilização do Ocidente, se não conseguisse reunificar Maçonaria e Cristianismo — Pequenos e Grandes Mistérios —, restaurando o corpo cindido da espiritualidade tradicional, não teria alternativa senão cair na barbárie ou islamizar-se. Como ambas estas últimas tendências não cessaram de se fortalecer nas décadas que transcorreram desde o diagnóstico guénoniano — sendo as marcas da barbárie ascendente tão pronunciadas quanto a expansão islâmica nos países europeus e mesmo nos Estados Unidos —, não se sabe aí o que é mais notável: a exatidão da profecia do grande asceta francês ou sua antecipação na alma do poeta alemão.” (Olavo de Carvalho, O Jardim das Aflições – De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil, Campinas, SP, Vide Editorial, 2015, p. 338-339)

O livro de Olavo contribuiu para trazer ao debate público uma relação de autores cujas ideias pouco transitavam no mundo acadêmico brasileiro – ou não transitavam mais, ou nunca transitaram -, no mundo jornalístico, no mercado editorial, na mente dos formadores da opinião pública em geral. Para se ter uma noção da variedade de autores, relaciono a seguir uma sequência de nomes da filosofia, da história, da literatura, das ciências, da religião, etc, presentes na obra: Epicuro, Thomas Mann, Goethe, Sócrates, Leibniz, Fichte, Aristóteles, Benedetto Croce, Platão, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Hugo de São Vitor, Duns Scot, Alexandre Herculano, Santo Anselmo, Pedro Lombardo, Pedro Abelardo, Alexandre de Hales, Guilherme de Conches, Ricardo de São Vitor, Santo Alberto Magno, São Boaventura, Stendhal, Edgar Allan Poe, Julián Marías, Guilherme de Ockham, Mário Ferreira dos Santos, Leonel Franca, Bertrand de Jouvenel, Bronislaw Malinovski, Leszek Kolakowski, Friedrich Hayek, Leopold Von Ranke, Ludwig Von Mises, Dilthey, Louis Lavelle, Whitehead, Lukács, Jasper, Helvétius, De Maistre, Maurras, Wittgenstein, Adorno, Jung, René Guénon, Spencer, Thomas Huxley, Gurdieff, Aldous Huxley, Schelling, Edmund Husserl, Lucrécio, Diógenes Laércio, Demócrito, Chesterton, Muniz Sodré, Kurt Levin, Ortega y Gasset, Éric Weil, Eric Voegelin, Juan Alfredo César Müller, Frithjof Schuon, Albert Camus, Konrad Lorenz, Roger Scruton, Edmund Burke, Dostoiévski, Otto Maria Carpeaux, Balzac, Régine Pernoud, Gustavo Corção, Oliveira Martins, Octávio Tarquínio de Souza, Meira Penna, Dante Alighieri, e por aí vai. Atualmente, podemos observar o efeito do livro (e do autor) na vida cultural e literária, como a pululação de novas editoras. Exemplificando, temos a Vide Editorial, Ecclesia, Concreta, Danúbio, Armada, Estudos Nacionais, História Expressa, Kírion. Documentários surgiram para retratar a obra, como o homônimo ‘‘O Jardim das Aflições’, outros para resgatar personagens importantes da história do Brasil, como ‘Bonifácio – O fundador do Brasil’.

            Depois de algumas leituras do livro, acredito que o exemplar possui muitas camadas possíveis de interpretação, em função do interesse do leitor pelos assuntos, seu nível de compreensão e o esforço envolvido na tentativa de entendimento. Destaco abaixo o que eu chamaria de ‘camadas de interpretação’ possíveis:

1ª, a pessoa rejeita o comunismo e o socialismo, e lança-se a defender o capitalismo/economia de mercado quase como que uma tábua de salvação a todos os problemas;

2ª, adquiriu a camada 1 e combate a visão moderna do estado que se intromete em todos os assuntos da vida pública e privada das pessoas;

3ª, adquiriu a camada 2 e começa a dar crédito ao tema da cultura, procurando mais informações sobre as ideias conservadoras no campo da cultura e da política;

4ª, adquiriu a camada 3 e capta o conteúdo envolvendo as questões de autoridade espiritual e poder temporal – aristocracias e castas sacerdotais na histórica do Ocidente, etc;

5ª, adquiriu a camada 4 e entende a relevância que o autor dá para a boa filosofia grega, a literatura universal e sua importância na formação humana;

6ª, adquiriu a camada 5 e absorve o conceito da ‘simbologia da cruz’ tratado no livro. Entende que o autor argumenta no sentido de que acima de qualquer corrente política (histórica, científica, esquerda, direita, etc) ou cultura filosófica está a importância do indivíduo, sua consciência, seu confronto com a realidade presente e sua relação com Deus através da autoridade espiritual portadora da revelação dos grandes mistérios.        

            Após ter lido o texto até aqui, você pode estar se perguntando:

– Mas o que isso tudo pode representar para mim, que não sou filósofo – nem quero ser – e nem intelectual?

Pois bem, você verá no livro que pode, por exemplo, ter abandonado a Fé Cristã em razão de mitos e lendas, como o mito de que a Inquisição matou milhões, criado por ideólogos que defendem as ideologias mais assassinas da história. Ou o mito de que a Igreja foi uma ferrenha perseguidora de personagens históricos como Galileu Galilei por ser contra o desenvolvimento da ciência. Pode também ter aderido a idéias, ou movimentos espirituais, que carecem de bases empíricas. Quais seriam as consequência disso para a sua vida e sua alma? Tem o hábito mental de querer ‘administrar o futuro’ (sua vida, a sociedade, a política, etc)? Como esse comportamento chegou até você? Qual a origem desse hábito mental? Notou que durante todo o seu período escolar nunca, ou quase nunca, teve contato com as grandes obras literárias (Shakespeare, Dante Alighieri, Cervantes, Camões – o Pai da língua Portuguesa -, Dostoiévski)? O que você teria perdido com isso? Uma escola voltada somente para o preparo do estudante para o mercado de trabalho, ou para a criação de militantes revolucionários, está cumprindo um papel de formação humana? E a filosofia? Como chegou até você aquela idéia de que “o poder do pensamento” (ou da mente) é capaz de fazer você realizar coisas revolucionárias? O que você estudou em biologia na escola foi conhecimento extraído da natureza (reinos, gêneros, espécies), por meio da percepção humana, ou foi mera ‘invenção burguesa”? Teria a ideologia de gênero alguma relação com isso? Será que algumas das idéias de Epicuro podem estar impregnadas em sua mente? Enfim, alguns pontos que podem ajudar você a refletir melhor sobre a leitura do livro e, quem sabe, eliminar – ou pelo menos atenuar – alguma aflição que possa existir em seu próprio “jardim”.