Trump está interferindo indevidamente nos negócios brasileiros? Afinal, a soberania é uma pauta da direita ou da esquerda?
Diante da sanção aplicada pelo governo Trump contra o ministro Alexandre de Moraes através da Lei Magnitsky, muitos influencers que orbitam o meio conservador, como tradicionalistas (não os católicos) e duguinistas em geral, expuseram sua insatisfação com a interferência dos EUA nas questões internas brasileiras. Eles certamente parecem preferir que o PT dê as cartas por aqui, justificados por uma suposta ameaça à soberania nacional. Mas será que o valor da soberania é absoluto?
O fato é que os soberanistas se unem ao governo brasileiro que está ansioso por usar essa interferência como justificativa para alinhar-se ainda mais ao eixo do Brics, a camarilha neofascista da marginalidade global, enfim, a nova ordem multipolar. Assim, essa parte da direita soberanista engrossa o processo que já venho observando da formação de uma terceira posição, isto é, de união de uma parte da esquerda com uma parte da direita, especificamente os espectros vistos como mais extremistas dos dois lados, se é que podemos chamar assim.
Essa melhor definição entre um polo oficial, ocidental, e outro marginal, composto de “todo o resto”, pode estar entre os objetivos de Trump, que fortaleceria ainda mais a América que deseja “great again”. A volta da bipolaridade mundial também é um dos anseios de Aleksandr Dugin, o ideólogo russo que vem utilizando a crença numa Tradição Primordial — anterior e ancestral às religiões atuais — para unir ortodoxos, islâmicos, hindus e toda sorte de “sacralidades” tribais numa espécie de copa do mundo das tradições, em que cada um formará, pela via da força, guerra e caos, seu próprio imperiozinho protegido por direitos de autodeterminação.
Mas o que estamos vendo é a definição de papeis distintos pela divergência sobre o alcance e os limites do conceito de soberania: afinal, soberania nacional é um valor universal ou relativo?
De um lado, a agenda multipolar crê no valor absoluto e ilimitado da soberania, daí porque são chamados também de “soberanistas”. Para eles, qualquer regime tem direito soberano de impor escravidão, tortura e mortes aos seus cidadãos sem que nenhuma outra nação possa interferir nos seus negócios. Afinal, essa soberania, segundo Dugin, baseado em Heidegger, usa um critério imutável, associado a uma identificação entre povo, destino e terra. Não por acaso, Heidegger, crítico da modernidade, também tem sido relido por ambientalistas da antropologia indigenista que separam radicalmente os indígenas e restringem seu contato com a civilização. A soberania multipolar é radical e ilimitada, portanto, e em se tratando dos EUA, símbolo máximo da Modernidade e do mundo ocidental, isso se torna ainda mais duro e imutável. Neste ponto de vista, eles são coerentes com a condenação da sanção a Moraes pelos EUA.
Mas parte dessa narrativa soberanista depende de convencer a todos de que quem discorda disso é globalista, isto é, que crê na desconstrução total de todas as soberanias nacionais em nome de uma Nova Ordem Mundial de caráter liberal e indiferentista frente aos valores espirituais. O problema está nos limites da narrativa, pois nem sempre é disso que se trata. A maioria dos conservadores, liberais ou não, estão preocupados com o poder ilimitado de Alexandre de Moraes e do PT de Lula e não em dissolver as soberanias.
Nada disso seria problema se, como limitação do valor da soberania, colocarmos valores universais acima e como critério. E que valores seriam estes? Durante muito tempo foi a doutrina católica, baseada na distinção harmônica entre as Duas Cidades, de Santo Agostinho. Mas a modernidade tratou de reestruturar essa dualidade reduzindo-a à unidade dos “direitos universais do homem”, uma expressão análoga à raiz maçônica da Fraternidade Universal — na doutrina católica não há fraternidade universal entre criaturas, mas somente entre filhos de Deus, isto é, entre batizados. A solução para os não batizados é simples: serem batizados e integrados nessa nova fraternidade.
Sem essa ideia, restou a solidariedade meramente humana, natural, desenvolvida pela filosofia ocidental até o ápice do secularismo: o liberalismo, que somado ao socialismo resultou no que chamamos de globalismo.
O globalismo tentou impor a ideia dos "direitos universais do homem" esticando-o até ao limite máximo conforme o interesse de finalmente destruir esses limites. Aí encontramos uma grande identidade entre globalismo e eurasianismo: a meta dos “direitos do homem” (hoje direitos humanos) sempre foi alcançar o relativismo absoluto, isto é, a partir da permissividade extrema chegar-se à imposição global da bestialidade e do culto totalitário. Mas diante da impossibilidade de impor isso globalmente, restou a imposição regional, "multipolar".
Afinal, se a ideologia de gênero defende bestialidade, pedofilia e incesto, cabe agora à multipolaridade garantir devida proteção a essas práticas e “valores” dentro de um ideal de soberania sob o critério do “sagrado” e das "tradições locais" intocáveis pela civilização ocidental — aquela única civilização nascida da relação entre o indivíduo e o Logos, ou seja, a verdade e da mentira identificadas com um Deus único e uma Igreja universal. Tanto o globalismo quanto o eurasianismo são propostas semelhantes de substituição da universalidade salvífica verdadeira, cuja única depositária é a Santa Igreja Católica.
É com esse arsenal relativista com base no “sagrado” de cada povo que Dugin defende o expansionismo russo frente à Ucrânia, razão pela qual também precisa fomentar todas as outras formas de conflitos mundiais, desde que devidamente embasados em justificativas históricas e tradicionais locais elevadas à sacralidade.
Então, o conceito ocidental de soberania é, para essa vertente multipolar, totalmente relativo e até inexistente. Mas torna-se útil quando é para criticar quando os EUA interferem para punir a tirania em nosso país.
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