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Michael Walsh, no livro O Palácio de Prazer do Demônio, lembra da inexistência de uma síntese entre bem e mal. O herói, assim como o vilão (que é o herói da sua própria história), não pode conciliar com o outro lado ou estaria arruinado. A história é cheia de exemplos de santos e heróis e o dado comum a todas as suas belas histórias que inspiraram a civilização é a força e coragem para não negociar. A dialética hegeliana parece ter se tornado a única via de prática política depois de apartada violentamente da possibilidade da defesa de valores.

Já falei outras vezes sobre a micronarrativa, aquele pseudo-ambiente criado por quem tem muito a esconder e deseja colocar os adversários em um cercado estreito em que só temas irrelevantes são permitidos, mantendo a verdadeira agenda segura sob o manto de uma espiral de silêncios consentidos. Isso é precisamente o que está acontecendo na política há décadas e, infelizmente, toda a direita brasileira é um produto disso. Não nos deve surpreender, portanto, que ela se encaminhe gostosamente pelas trilhas da vocação para a qual foi cuidadosamente preparada: as palavras vazias, temas irrelevantes, com objetivos fora de contexto e contra inimigos imaginários.

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Não deixa de ser constrangedor ter que repetir, mais de 20 anos após a popularidade e penetração dos ensinamentos de Olavo de Carvalho, sobre os perigos da conciliação como método retórico. A aceitação de certas regras do jogo impõe uma obrigação de adesão a mentiras das quais dificilmente se pode, depois, retroceder. Um dos caminhos mais óbvios depois de entender isso é buscar, por meio de estudos aprofundados, compreender a estrutura de ferramentas disponíveis para a manipulação da opinião pública e seu funcionamento. Dediquei-me a isso pelos últimos 10 anos e sobre o tema dei cursos e escrevi livros. No mais recente curso, por exemplo, intitulado O cair das máscaras, falei sobre o funcionamento de um sistema de mídia. Aparentemente, este não pareceu ser um assunto tão atraente quanto responder aos estímulos diários do Twitter.

O caminho da mentira tem como que uma “fisga”, que impede ou dificulta muito que os que adere a ele retrocedam. Isso porque a cada mentira é preciso criar outra para ocultar a anterior e assim sucessivamente. A espiral do silêncio atua sempre junto à dissonância cognitiva. São dois processos que se auxiliam mutuamente.

Exemplos não faltam para ilustrar como o foco demasiado nas “vitórias” retóricas leva a escolhas perigosas, capazes de empurrar até mentes outrora brilhantes e dotadas de boas intenções para o fosso profundo da mais rasteira apologética da irrelevância. Trata-se do demônio da conciliação, que arrasta corações e mentes para uma via de mão única para a impotência e consequente confusão moral e cognitiva. Quando não for mais possível retornar, o caos moral dá lugar a uma total inaptidão cognitiva.

É com grande pesar que vemos o debate sobre as vacinas, por exemplo, se tornar, pouco a pouco, um tabu, como avisei que ocorreria. Mesmo tratando-se este tema da pauta central, o topo objetivo do plano globalista, sem o qual nenhuma outra sugestão política faz o menor sentido. Acolhendo uma proibição imposta pelos seus inimigos, as vítimas da estrutura midiática, jurídica e política, têm somente a consciência livre. Mesmo assim, cedem-na por uma questão de prudência e conformismo. Conformam-se com uma “guerra perdida” sem, no entanto, atentar-se para o fato de que são eles que estão entregando suas armas antes mesmo do termo da batalha.

O medo de serem mal vistos por uma parcela da população os atemoriza ao ponto de negar a própria estrutura concreta do poder em sua manifestação programática mais evidente. Os globalistas só pedem que silenciemos sobre isso, na verdade. Todo o resto pode ser falado. A prova disso é que o site Estudos Nacionais vem sendo perseguido de formas violentas, por meios que nem mesmo podemos revelar para não dar ideia e somar ataques aos de outros.

Assim, silenciam. E uma das razões disso está no próprio avanço do processo de vacinação: a cada vacinado, uma pessoa a menos para questionar, além do seu entorno familiar. Isso já foi muito bem demonstrado por Leon Festinger, em A teoria da dissonância cognitiva. Mas em muitos ambientes, essa batalha está perdida para aqueles que julgam uma batalha pela sua própria expectativa de vitória, quase sempre em um campo imaginário muito distante do real. Mais de 1 bilhão de pessoas pelo mundo (segundo o instituto Gallup), resiste às vacinas para Covid. Essas pessoas serão os novos excluídos da distópica sociedade transumanista que se impõe e muitos conservadores brasileiros já anunciaram que não ficarão ao lado dessa pessoas.

Tudo isso se impõe com a maior facilidade quando as notícias escorrem por um fluxo quase irrefreável de fatos cujos sentidos não passam pela fina malha dos critérios de atualidade, informatividade e do instantaneismo viciantes e altamente contagiosos da nossa maravilhosa “era da informação”. A política e a lei, que deveriam impor-se acima das veleidades das massas e da mídia, são totalmente determinadas pela torrente de simulacros e fingimentos autorreferentes. Os políticos mais atuantes competem entre si pela maior submissão à espiral de silêncios. Ganha quem mais silencia ou quem menos fala, embora simule estar falando e agindo.

O Brasil tem uma terrível e demoníaca tradição de conciliação, denunciada por Paulo Mercadante, no livro A Consciência Conservadora no Brasil. Trata-se de uma moda há muito recebida como herança portuguesa que nos empurra a um pensamento burocrático e da lógica puramente retórica. Essa mania tem a potencialidade de jogar para debaixo do tapete todos os temas centrais e vitais do país em troca do tão sonhado consenso entre as partes. Isso determina, muitas vezes, o nosso pensamento jurídico. Os conservadores, ou supostos, alimentam-se com a esperança de lucrar com esse expediente. Mas é um expediente natimorto.

O nosso jeitinho brasileiro incrementou a conciliação retórica com um “rebolado” que nos emburra dramaticamente para fora de tudo o que importa, jogando-nos aos abraços com a futilidade das afeições aparentes e de lugares comuns. Outro aspecto que agrava essa situação, é a nossa característica dispersiva. A dispersão pode ser momentânea, irrisória em alguns casos, mas no Brasil ela adquiriu proporções bíblicas. E digo isso literalmente.

Wolfgan Smith, em seu célebre texto O demônio da distração, reflete sobre essa grave perda de sensibilidade que afeta especialmente o homem moderno. Longe de ser um mero empobrecimento, esse evento não anunciado significa a perda de nossa inteligência mais elevada, de nossa liberdade real e, em certo sentido, de nossa humanidade.

A exposição às notícias diárias sem um mínimo e periódico exercício de atenção e concentração em questões centrais vai rebaixando o nível cognitivo ao ponto de submeter o indivíduo totalmente aos critérios recebidos de fora. Dito de outra forma, se você não convive com a verdade não saberá identificá-la e será facilmente manobrável. Isso é um prato cheio para os constantes e onipresentes esforços de submissão das massas.

O resultado disso é a permanente confecção de um simulacro de realidade que pretende ser onipresente, um clima de opinião, de ações e reações que vai, lenta e progressivamente, empurrando todos para um abismo de auto engano e falsas expectativas. No fim, sobra incompreensões e loucura diante de uma realidade fictícia que não pode fazer o menor sentido devido à falta de seus elementos mais importantes. E ninguém dá falta desses elementos, pois já os jogou fora e esqueceu que existem. Passa-se ao esforço premeditado e obstinado de forjar ainda mais a realidade para preencher de um falso sentido tudo o que já não diz nada a ninguém.

Afinal, as conciliações são próprias dos que acreditam que a verdade e o bem são alcançados mediante uma negociação dialética. Mas tudo isso é método demoníaco e sabiamente utilizado por aqueles para os quais não há verdade, beleza ou bem, mas apenas vitória e derrota, seja por quais meios. O brasileiro, quando ouve que é preciso “aprender com o inimigo”, sonda-lhe exatamente aquilo que não é compatível com a sanidade e o senso de proporções, aderindo apena à parte superficial e abstraindo, de antemão, tudo aquilo que o poderia tornar superior ao adversário. Apostar no Brasil é guerra perdida.