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E eis que a leitura de mundo através da forjada chave “opressores versus oprimidos” escolhe nova vítima: a música. A partir de agora, Beethoven e Mozart estão “cancelados”, pois só produziram música branca da era dos escravos. A afirmação, embora pareça absurda e burlesca, advém, nada menos, que da mais antiga universidade de língua inglesa do mundo, Oxford.

De acordo com matéria do portal Brasil Livre[1], a Universidade de Oxford intenciona “descolonizar” o currículo e, para tanto, “denuncia” a evidente conotação supremacista da música clássica, conivente com o nacionalismo branco. É preciso, segundo professores daquela Universidade, reformar o sistema de escrita musical, uma vez que símbolos como o pentagrama, as claves e as semibreves, por exemplo, fazem parte de um sistema colonialista de representação, que precisa ser “sacudido” para enterrar suas ligações com o passado colonial.

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A conclusão é que, enquanto não houver completa reestruturação do sistema de notação da música clássica, exigir que estudantes de música negros se habilitem em competências obrigatórias no currículo, como piano ou regência, equivale a uma impiedosa “bofetada na cara”, por favorecerem estruturalmente a chamada música branca, capaz de causar grande sofrimento aos alunos negros.

Enquanto isso, em terras tupiniquins, começam a chover teses de doutorado na USP, e em outras universidades públicas, cujo tema de estudo é a premente necessidade de se reconhecer a enorme qualidade musical do funk, geralmente (e injustamente) enxergado como inferior tão-somente por representar a expressão de pessoas pretas e faveladas.

O doutorando “Thiagson”, ouvido pelo UOL[2], na coluna Splash, teoriza que o ambiente acadêmico é muito conservador, o que faz com que todos se sintam confortáveis em deslegitimar o funk e acreditar que a única coisa digna de ser ensinada (nos cursos universitários de música), é “música de concerto”. Prossegue afirmando ser uma unanimidade histórica considerar que Bach e Mozart são “deuses”, mas, do ponto de vista rítmico, segundo “Thiagson”, são bem pobres. O doutorando arremata: “Para quem acha que funk é lixo, o hino da vacina “Bum Bum Tam Tam”, do MC Fióti, é mais complexo que o “todo poderoso” Bach.”

Alienação ou demência?

Para chancelar toda essa lacração, não poderiam faltar os aplausos do G1. Dando ares de feito histórico à composição do funk “Bum bum tam tam”, o portal traça a seguinte linha do tempo:  1) Em fevereiro de 2017, “Bum bum tam tam” foi composta, cantada e produzida por MC Fioti, com o trecho de uma obra de Bach que Fioti não conhecia e achou no YouTube. 2) Em setembro de 2018, se tornou o 1º clipe brasileiro a superar 1 bilhão de views no YouTube. 3) Em janeiro de 2021, virou hino da CoronaVac e trilha de odes ao Instituto Butantan. 4) No mesmo mês, virou tema do Enem, na prova de linguagens, códigos e suas tecnologias. 5) Fioti deu um rolê no Butantan e agora lança o remix.

Segundo artigo publicado na revista Fórum[3], o funk “Bum bum tam tam” vai na contramão do negacionismo e do obscurantismo que marcam o governo Bolsonaro e celebra a ciência, defende a vida e valoriza as mulheres pesquisadoras. Poeticamente, a “música” entoa: “É a vacina envolvente, que mexe com a mente de quem tá presente. É a vacina saliente, que vai curar “nois” do vírus e salvar muita gente”. 

Comovente, não é mesmo? Não faltam intelectuais na mídia, nas universidades e nos bairros mais caros das capitais a reunir palavras elogiosas e atribuir todos os méritos a iniciativas tão comprometidas e humanitárias como a do MC Fióti, e enxergar valores que somente eles, os privilegiados da inteligência[4], na expressão de Mário Ferreira dos Santos, são capazes de captar.

E para fazer Johann Sebastian Bach revirar-se no túmulo, a Orquestra Sinfônica da Bahia, sob a regência do maestro Carlos Prazeres, gravou uma versão para o tal funk da vacina e a incluiu na peça “Bach Eterno”, feita em homenagem ao regente alemão, já que, com muita propriedade e perspicácia, MC Fióti incluiu trecho da Partita em Lá Menor na introdução de Bum bum tam tam.  Que justa homenagem a Bach, mestre supremo da música barroca!

Tudo isso nos revela que a arte não ficou a salvo da divisão de mundo apregoada por ideologias que diferem “música de branco” de “música de preto”, ou “música de rico” de “música de pobre”, e recrudesce e aprofunda um suposto preconceito a pretexto de combatê-lo, enquanto produz coitadinhos em série. Todas as manifestações artísticas agora passam a valer pela mensagem subliminar e imaginária que contêm, não mais por seu valor ou capacidade de transmissão de beleza.

Aliás, foi-se o tempo em que a linguagem da arte servia para dizer o que os simples fatos não dizem, interpretando-os à luz dos sentimentos e trazendo as nuances só perceptíveis pelo espírito. Hoje, qualquer “expressão” é válida, conquanto que “expresse” alguma coisa, e temos assistido à indisfarçável utilização da música como instrumento de bestialização.

É impossível ignorar que a música, mais do que qualquer outra forma de arte, possui enorme influência neuropsicológica, estimulando diretamente a afetividade, as emoções e os impulsos. Essa capacidade de afetar o estado emocional deve-se à produção de reações fisiológicas, ou seja, a percepção musical envolve áreas específicas do cérebro.

No livro Música, Inteligência e Personalidade, o médico Minh Dung Nghiem[5], chama a atenção, de maneira bastante incisiva, para a possibilidade de se determinar o comportamento humano através da manipulação cerebral, e aponta a fisiologia do cérebro como fundamental para a compreensão dos efeitos do tipo de música dominante nos veículos de massa, cujas batidas repetitivas inibem o cérebro emocional e produzem uma espécie de regressão mental, que conduz ao primitivismo. O autor citado chama a isso “cultura do tam-tam”.

O elogio à violência, a redução da linguagem a termos vulgares restritos ao sexo sem sentido, o desprezo à lei e aos costumes, a vanglória material, todos os motes repisados pela cultura do tam-tam imposta pela mídia, exacerbam a prevalência dos instintos animalescos sobre o desenvolvimento intelectual. Segundo Nghiem, basta olhar para jovens trepidando e gesticulando, cobertos de suor, o olhar desvairado ou vazio, para notar o grave comprometimento de sua evolução mental.

Mas o consenso da moda é aceitar todas as expressões autênticas, e ninguém, sobretudo os intelectuais, gosta de ir contra a moda. Mário Ferreira dos Santos, no mesmo livro Invasão Vertical dos Bárbaros, enxergou com clarividência que todos têm medo do show-biz, das pessoas que têm um público a seu dispor. Temos medo de deixar marcas, ainda mais por escrito. Temos medo de tudo! E não completamente sem razão, basta analisar a torrente infinita de cancelamentos de qualquer um que se atreva a falar mal do funk ou outro ritmo similar.

A conclusão de Mário nos aprisiona a um círculo vicioso: os meios publicitários vivem do maior número, e terão, naturalmente, de ceder às imposições de uma clientela, descendo para procurar, nessa mesma clientela, os mais baixos padrões, e numa desídia imperdoável, nada fazendo para elevar o gosto dos clientes. Tudo isso contribui para disseminar o mau gosto, o gosto mais vulgar.

Jovens e crianças, sem que os pais modernos e avançados sequer desconfiem, são bombardeados pela cultura do tam-tam. As batidas primitivas cercam-nos por todos os lados, sem chance de fuga, modelando seu ambiente e, portanto, o desenvolvimento e amadurecimento de seu cérebro, deixando uma marca definitiva que cria uma preferência “natural” e modifica definitivamente seu comportamento futuro. E, assim, o nivelamento por baixo e a degradação do indivíduo se tornam mais que aceitáveis, mas orgânicos.

A reflexão do doutor Dung Nghiem revela com exatidão o atual estado de coisas: os slogans, argumentos e táticas de defesa e agressão dos devotos do tam-tam são os mesmos em todos os países, como se fossem soprados por um organismo internacional. Primário, mas eficaz, se se está tratando com um rebanho de ovelhas sem personalidade, sem tradições sólidas, sem educação. Para vender a cultura tam-tam, argumenta-se com a juventude e a vanguarda de seus expoentes e, inversamente, apregoa-se que a música clássica, além de ultrapassada, é música de privilegiados, dos ricos, dos aproveitadores de todas as categorias, dos canalhas, enfim.

É obvio que a superexposição de crianças e adolescentes aos sons mais primários possíveis embota-lhes de maneira definitiva o bom gosto e a capacidade de apreciar o belo e o sublime. Além disso, há o efeito colateral gravíssimo do empobrecimento do vocabulário e da habituação a um sensualismo vazio, dissociado de qualquer sentimento elevado, que reduz as mulheres à condição de ninfomaníacas histéricas, que não perdem nenhuma oportunidade de mostrar inadvertidamente seus dotes físicos e rebolar o traseiro, e os homens de predadores sexuais movidos a álcool e drogas farmacêuticas.

Fora do universo do funk, os preceitos transmitidos pelos milhares de estilos sertanejos, forrozeiros, pagodeiros e afins também não são exatamente elevados: transformam as mulheres em “pegadoras” seriais, que se vangloriam da extensa gama de machos disponíveis, no raciocínio “a fila anda”, e os homens em fracotes que choram como bezerros desmamados diante de fatos da vida real, como uma rejeição ou uma traição, incapazes de superar os desafios afetivos mais simples e corriqueiros.

A mensagem contida na maioria esmagadora de tudo o que se ouve é a mais baixa e rasteira possível, as relações humanas de afeto são retratadas ora como duelos por interesse financeiro, ora como vale-tudo sexual, ora como culto à matéria e ao materialismo. O que podemos esperar do futuro de uma criança que cresce habituada a ver seu “modelo” de mulher rebolando seminua na televisão e na internet, contando vantagem por fazer do próprio corpo um objeto sexual entregue ao prazer sem limites e cobrando ingresso (e arrecadando milhões) para transmitir ao vivo uma sessão de tatuagem na região anal?

Não surpreende que a maioria das pessoas, hoje, só compreenda o amor dentro das concepções de uma moral utilitária, servindo-se do outro para uma pretendida realização pessoal que nunca ocorre, nem pode ocorrer. Ninguém se dispõe a se abrir ao mistério do outro, a conhecer e aceitar verdadeiramente a quem diz amar, mas a tentativa constante é de moldar o outro a modelos pré-concebidos, mesmo que isso custe sua completa despersonalização e transformação em mero objeto de alguma satisfação, sempre temporária.

Mas, se um consolo há, é o de crer que nada disso é arte, nada disso é música. Como reflete o personagem Gabriel, no romance por mim escrito, O Olhar de um Pai, a verdadeira música não se deixa encontrar por quem não a respeita. É caprichosa e misteriosa, e só se revela a quem a ela se entrega com verdade, a quem nela confia e lhe tem um sentimento de devoção. Há uma distância abismal entre a música como arte, como expressão da beleza, que não cansa, não diminui, e sons, ruídos, barulhos, muitas vezes perturbadores e irritantes, que se vendem como se fossem música, mas que são, na verdade, anti-música.

A verdadeira música não pode degradar. Só a anti-música.


[1] https://portalbrasillivre.com/a-teoria-critica-racial-penetrou-na-universidade-de-oxford-a-musica-classica-e-muito-branca/

[2] https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/03/21/doutorando-sobre-funk-na-usp-criticas-sao-racistas-e-classistas.htm?cmpid=copiaecola

[3] https://revistaforum.com.br/debates/o-funk-as-pesquisadoras-a-quebrada-e-os-subalternos-a-frente-da-resistencia-por-vagner-marques/

[4] Santos, Mario Ferreira dos. Invasão vertical dos bárbaros – São Paulo: É Realizações, 2012, p.41.

[5] Nghiem, Dr. Minh Dung. Música, inteligência e personalidade: o comportamento do homem em função da manipulação cerebral. Campinas, SP: Vide Editorial, 2018.