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Todo mundo diz que a corrupção financeira pode matar. O exemplo mais característico disso é quando ela ocorre na área da saúde. Graças aos silêncio criminoso dos jornais da grande imprensa brasileira, que já carrega a culpa pelo crime do negacionismo do tratamento precoce contra Covid 19, uma pilha de cadáveres vem pesando sobre os ombros do jornalismo organizado no caso de Manaus. O Covidão que atingiu Manaus foi notícia ao longo do ano de 2020, mas convenientemente vem sendo deixado de lado no momento em que o saldo aparece a olhos vistos.

A crise sanitária de Manaus parece ter aparecido do nada, fruto de omissões do Governo Federal ou da própria sanha assassina do vírus chinês sobre a capital amazônica, do descaso de Bolsonaro, do Ministério da Saúde que não faz nada etc, etc. Mas foi graças ao sensacionalismo e à seletividade dos jornais que pouca gente relacionou a atual tragédia de Manaus à operação Sangria, da Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal, que ao longo de 2020 investigou uma série de escândalos de corrupção envolvendo o desvio de verbas do Governo Federal na aquisição dos respiradores que se tornaram o grande estopim para o caos sanitário do estado.

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A verdade, no jornalismo, sempre depende da perspectiva e de um olhar seletivo sobre os fatos, o que os jornalistas aprenderam a chamar cinicamente de contextualização (e pode se manifestar pela descontextualização). Neste método, cabe ao jornalismo do momento apresentar os fatos que explicam outros fatos, deixando o inconveniente de fora. Em meio às mortes de centenas de pessoas por falta de oxigênio nos hospitais, os jornais deram toda a atenção ao drama sensacionalista sem, no entanto, dar a devida atenção ao que teria causado o problema.

Sem uma causa aparente, o drama das vidas perdidas fica à mercê do oportunismo narrativo, ou seja, da especulação do sensacionalismo que sempre ganha com o horror e o pânico. Poucos lembram, por exemplo, que em junho de 2020 o governador amazonense, Wilson Lima (PSC) foi alvo de busca e apreensão e bloqueio de bens. Oito pessoas tiveram prisão temporária decretada. 

Entre os alvos de prisão temporária estiveram Simone Araujo de Oliveira Papaiz, secretária de saúde; João Paulo Marques dos Santos, ex-secretário executivo de saúde; Perseverando da Trindade Garcia Filho, ex-secretário executivo adjunto de saúde; Alcineide Figueiredo Pinheiro, ex-gerente de compras da secretaria de saúde; Fábio José Antunes Passos; Cristiano da Silva Cordeiro; Luciane Zuffo Vargas de Andrade; e Renata de Cássia Dias Mansur Silva, segundo informou o site Amazonas Atual.

Trata-se do Covidão, o conjunto de escândalos de corrupção e desvio de dinheiro público que ocorreram, a torto e a direito, em meio à pandemia e que já pode ter causado a morte de milhares de pessoas. Silenciar sobre isso, assim como negar remédios a doentes, é matar pessoas. E este é precisamente o crime que vem pesando a cada dia nos ombros do jornalismo brasileiro.

Os desvios de dinheiro dos governadores, que oportunamente foram habilitados pelo Supremo Tribunal Federal a gerir a pandemia, são o objeto da Operação Sangria, desenvolvida em Manaus. 

De acordo com o site da Casa Civil, a primeira fase da Operação, foi investigado um superfaturamento de cerca de R$ 500 mil pela compra de 28 respiradores de uma empresa comercializadora de vinhos. A segunda, realizou buscas e apreensões para verificar a atuação de agentes públicos e empresários que teriam participado do processo de aquisição.

Para a terceira fase, em dezembro de 2020, foram investigadas as irregularidades no pagamento de R$ 191 mil para o transporte de 19 respiradores pelo Governo do Estado do Amazonas, frete que deveria ter sido custeado pela empresa fornecedora dos referidos equipamentos. Foram cumpridos 4 mandados de busca e apreensão no município de Manaus. Crimes financeiros costumam ser associados a vítimas de calotes ou prejuízos do dinheiro público. Neste caso, porém, o resultado se manifestou em mortes de pessoas inocentes.

Apesar do Governo Federal ter sido impedido pelo STF de atuar na pandemia, foi obrigado a sustentar a festa dos covidões regionais. Foram mais de R$ 185,5 milhões repassados para o Amazonas através do Fundo Nacional de Saúde (FNS) para combater a Covid-19.

Recentemente, o pneumogista Wagner Malheiros, que tem 30 anos de experiência em UTIs, disse em um vídeo nas redes sociais ser pouco convincente que o oxigênio tenha acabado tão rápido. Em geral, conta ele, o hospital dispõe de tempo para a compra de outro fornecedor ou para avisar autoridades. Junta-se aí a política e o sensacionalismo: ampliar as mortes por covid e criar uma justificativa para mais restrições e mais acusações faz parte da nova função do jornalismo nacional, unido ao pior da política.

Desde que se começou a falar da crise em Manaus, portanto, montou-se um teatro envolvendo o alerta e a consequente omissão de socorro do Governo Federal, que apesar de não poder atuar na pandemia enviou os insumos para que os servidores pudessem se servir e matar a população. Ao menos esta é a versão que ficou de fora do palco da grande mídia, que preferiu fazer política com os corpos que se empilhavam pela falta do oxigênio roubado do que denunciar o escândalo que vem se alastrando Brasil a fora.