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Nesta sexta-feira, o coordenador da UTI do Hospital Getúlio Vargas, em Manaus, no Amazonas, Anfremon Neto, fez um “desabafo” nas redes sociais que foi publicado pelo UOL. No texto, o médico diz responder à crítica do Ministério da Saúde, de que não houve tratamento precoce, o chamado Protocolo de Madri, em Manaus. Mas ao longo do vídeo, o médico deu indícios claros de que desconhece o tratamento, o que pode ter contribuído para o agravamento da crise que afeta a saúde na região. Manaus ficou famosa por uma experiência interrompida que matou 11 pessoas após doses tóxicas de cloroquina, versão mais forte da Hidroxicloroquina, em um experimento para deslegitimar medicação que vinha sendo recomendada por Bolsonaro.

No vídeo do coordenador da UTI, um dos erros que mais alarmou os conhecedores do protocolo precoce foi o uso de corticoide no início da doença, o que demonstra desconhecimento básico sobre a Covid-19, doença que vem sendo tema de estudos e notícias desde março de 2020.

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Diz a matéria do UOL, repercutindo o desabafo do médico:

Nas imagens compartilhadas, Anfremon diz que atende cerca de 50 pacientes infectados pela covid-19 por dia nas UTIs de Manaus. “Eu sei, todos eles fizeram tratamento precoce. Todos eles fizeram azitromicina, ivermectina, que é o mais atual, alguns fizeram anita, até mesmo cloroquina. Tudo aquilo que é preconizado como tratamento precoce foi feito. Alguns doentes utilizaram corticoide em casa, sem ter sintomas respiratórios, o que nem é legal fazer. Tem que ter critério para começar as coisas”, explicou.

O médico menciona “cloroquina”, uma versão menos eficaz da hidroxicloroquina. De acordo com Carlos Nigro, otorrino e doutor em ciências pela USP, o uso de corticoide no início da doença parece demonstrar completo desconhecimento da doença. “O corticoide na fase inicial agrava a viremia e piora a evolução da doença”, explica Nigro.

O coordenador da UTI de Manaus fala, ainda, que o governo deveria “preparar o país para a segunda onda”. O tema envolve uma confusão ainda não resolvida. Afinal, há alguns meses, os jornais brasileiros têm falado que o Brasil já estaria passando pela segunda onda, embora jornais estrangeiros digam que o Brasil estaria ainda na primeira onda.

Experiência macabra e irresponsabilidade

A cidade de Manaus já foi palco de polêmicas éticas envolvendo irresponsabilidades sobre a doença. No início da pandemia, o então ministro Luiz Henrique Mandetta utilizou um estudo que matou 11 pessoas a partir de doses toxicas de cloroquina para deslegitimar o medicamento. O estudo foi interrompido após as mortes, mas a recomendação de ficar em casa e aguardar sintomas respiratórios graves para procurar o hospital continuou sendo feita com base no macabro experimento.

Circula na internet, um receituário atribuído a hospitais de Manaus, que recomendam ficar em casa aguardando a piora da doença, alertando ainda que as medicações do tratamento precoce “não servem para covid”. Embora não se saiba ao certo a origem do documento, médicos que usam o tratamento precoce acreditam que tenha sido essa conduta a possível causadora da crise sanitária pela qual passa o estado do Amazonas.

Em um vídeo postado nas redes sociais, o médico pneumologista Wagner Malheiros também comentou as recentes declarações de médicos de Manaus e se diz horrorizado com a conduta suspeita da administração hospitalar. Com 30 anos de experiência em UTIs, Malheiros vê com suspeita toda a crise na região, dizendo que nenhuma UTI fica sem oxigênio de uma hora para outra.

Sobre o tratamento precoce, Malheiros argumenta que já atendeu mais de 1500 pacientes, todos utilizando o protocolo, sendo que nenhum foi para a UTI ou teve evolução da doença. Sem óbitos entre os médicos que o utilizam, o tratamento precoce vem sendo amplamente recomendado pelo Ministério da Saúde. Trata-se do chamado “Protocolo de Madri”.

“O tratamento usado em Madrid é na verdade do professor Zelenko, de Nova Iorque, baseado nos estudos do dr. Didier Raoult. O tratamento chegou aqui no Brasil graças à dra. Marina Bucar que trabalha no hospital de Madri”, conta Carlos Nigro. “Tratamento precoce significa diagnosticar e tratar à luz das evidências científicas e acompanhando o doente para o tratamento da segunda fase e depois, até a alta”, explica.