Em falsa checagem, Comprova classifica matéria como “desaconselhável”. Entenda

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O Projeto Comprova afirmou ter “checado” a matéria de Estudos Nacionais intitulada “Morto após tomar vacina pode ter sofrido alterações neurológicas“, publicada na última semana. Classificando a matéria do EN como “enganosa”, a suposta checagem acaba assumindo, afinal, que considera “desaconselhável” lançar dúvidas sobre vacinas, em especial a vacina da Coronavac produzida pela China. Além disso, o suposto confronto de estudos científicos evidenciou ainda mais o despreparo de jornalistas para lidar com a pluralidade científica e mesmo os óbvios limites característicos da atividade científica.

Por isso, consideramos a matéria do Comprova um exemplo típico do que chamamos de Falsa Checagem. Entenda como chegamos a esta classificação.

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Em primeiro lugar, tentando confrontar os dados apresentados, a suposta checagem se vale de juízos absolutos a partir de interpretações de estudos que não são conclusivos. A própria matéria objeto da “checagem” tratou os estudos como hipóteses científicas ainda sem comprovação. No entanto, o Comprova classificou o conteúdo pelo termo “enganoso” utilizando-se de outros estudos igualmente inconclusivos. A explicação sobre a classificação aparece no penúltimo parágrafo da suposta checagem, no qual o autor admite considerar “desaconselhável” divulgar estudos que levantem suspeitas sobre vacinas em teste no Brasil. Os supostos checadores de fatos, portanto, assumem flagrante postura de censores de conteúdo ao simplesmente discordarem da abordagem e dos possíveis efeitos sociais da divulgação das informações, como veremos abaixo.

Acreditando apontar argumento contra os estudos apresentados na matéria, o Comprova inicia sua “checagem” valendo-se da opinião de uma imunologista e de seus conhecimentos sobre o assunto:

“Segundo a imunologista Cristina Bonorino, não há comprovação na literatura médica de que uma vacina possa causar danos neurológicos. Até o momento, os voluntários que participaram do teste não apresentaram danos neurológicos”.

Ocorre que em nenhum momento, a matéria de EN afirmou haver “comprovação” disso, nem de que os voluntários do teste teriam apresentado “danos neurológicos”. A matéria se referia a estudos que apontaram alterações neurológicas (não danos) e que foram observados, sim, nos estudos clínicos citados (vacinas da gripe e da febre tifóide) e não no teste da coronavac. Portanto, o Comprova começa falsificando a abordagem da matéria, que foi feito com o cuidado para apontar hipóteses científicas presentes em tipos semelhantes de vacinas, para poder classificá-la como enganosa.

Levantar suspeitas sobre soluções apressadas para doenças é uma prática comum no jornalismo e o Comprova parece não ter se interessado por nenhuma delas quando levantadas por grandes grupos jornalísticos.

É o caso da matéria do UOL, publicada em 5 de julho de 2020, com o título: “Médicos descobrem danos cerebrais em crianças com síndrome misteriosa ligada ao coronavírus“. A matéria, repercutida em diversos sites, fala de uma síndrome rara que não foi observada em pacientes de covid, portanto, sem ligação com o coronavírus, e valeu-se de estudos em andamento. Buscando notícias recentes sobre a referida síndrome, encontramos os mesmos estudos inconclusivos desde o mês de julho, o que indica que a ligação com Covid já pode ter sido até mesmo descartada.

Mas a manchete produziu medo em pais de família, o que poderia ter sido classificado igualmente como “desaconselhável”.

Voltando ao tema das vacinas, a suposta checagem continua com as declarações da especialista consultada:

“Um efeito psiquiátrico, que eu saiba, nunca foi relatado para nenhuma vacina. O que pode causar efeito psiquiátrico é o vírus vivo, não a vacina. Essa vacina CoronaVac é o vírus inativado (agentes mortos ou apenas partículas do vírus, sem capacidade infecção), então não tem como ele fazer isso. O vírus tem essa característica de infectar neurônios, diferentes tipos deles. Inclusive os do olfato e do paladar, que são sintomas nos pacientes (com covid-19). Então, o vírus vivo poderia fazer. O que é mais uma razão para se tomar a vacina. O vírus morto vai te proteger e ele não pode fazer isso. Um vírus que não está vivo não consegue infectar um neurônio”, lembra Bonorino. (grifo nosso)

A imunologista afirma desconhecer os relatos apontados pela reportagem do EN, o que em si mesmo não invalida-os. Mas ela aponta que o vírus morto não causaria alterações neurológicas. Esta crença é o que embasa o uso do vírus inativo, o que os estudos citados por Estudos Nacionais trataram justamente de confirmar. Conforme observado nesses estudos, há registros de possíveis alterações, informação que os supostos checadores apenas julgam “desaconselhável”. Para o Comprova, a ocultação ou a ignorância (como a assumida pela imunologista consultada) seriam as condutas mais aconselháveis.

Finalmente, os checadores de abordagem perscrutam os estudos citados na matéria. Após explicarem no que consistiam os estudos, os autores acrescentaram que são inconclusivos e que a amostragem foi pequena, “não representando todos os estratos sociais”. Em primeiro lugar, é importante destacar que são raros os estudos deste tipo que representam “todos os estratos sociais”. Em segundo, as limitações de estudos científicos existem em 100% dos trabalhos e os jornalistas que lidam com ciência sabem muito bem disso. Mas essas limitações parecem sem importância em alguns casos. Que casos?

Quando se fala em uso de máscaras, por exemplo, essas limitações nunca são citadas. Em 19 de outubro de 2020, o UOL repercutiu uma matéria da agência Reuters que afirmava no título: CDC faz “forte recomendação” por uso obrigatório de máscara em aviões e trens. A obrigatoriedade das máscaras estão embasadas em uma série de estudos, entre eles, o trabalho do CDC sobre a transmissão aérea do Sars-Cov2. Após todas as evidências apontadas, o CDC encerra concluindo que o vírus é novo e há diversos estudos a serem feitos para obter respostas conclusivas.

“Existem várias perguntas críticas que precisam ser respondidas para refinar a orientação para a prevenção de COVID-19, incluindo:Quão eficazes são os esforços de mitigação para prevenir a propagação de SARS-CoV-2, especialmente ventilação e mascaramento?

Qual proporção de infecções por SARS-CoV-2 são adquiridas por transmissão aérea?

Quais são as condições que facilitam a transmissão aérea?

Qual é a dose infecciosa do SARS-CoV-2 (quantos vírions são necessários para que a infecção ocorra)?

O tamanho do inóculo e a via de inoculação afetam o risco de infecção e a gravidade da doença?

É possível que salientar essas dúvidas em torno do uso de máscaras corresponda ao mesmo conceito de “desaconselhável” usado pelo Comprova, o que pela mesma lógica caberia rotular a matéria da Reuters, repercutida pelo UOL, de “enganosa”.

Abordagem inquisitorial

Ao final da checagem, imaginando ter desacreditado o conteúdo da matéria do Estudos Nacionais, o Comprova tenta tornar suspeita a abordagem da qual afirma discordar. Os checadores fazem uma “varredura” nas informações sobre o site em busca de informações comprometedoras.

O artigo “Morto após tomar vacina pode ter sofrido alterações neurológicas graves” foi publicado no Estudos Nacionais. Em sua página no Facebook, o portal se descreve como “Observatório de mídia, com artigos, vídeos, palestras e cursos e lançamento de projetos editorais [sic]”. Suas publicações costumam ser mais conservadoras e alinhadas ao governo Bolsonaro, como contestações da vitória de Joe Biden sobre Donald Trump na eleição estadunidense e críticas à mídia tradicional. Também há outras publicações sobre vacinas, algumas contestando a efetividade dos imunizantes.

Observem o tom que simula linguagem objetiva com clara intenção de fazer suas inferências se passarem por descrições telegráficas da realidade. A linguagem jornalística aqui é utilizada como forma de manipulação por meio do fingimento retórico deliberado, com o intuito de minar a credibilidade e insinuar uma suposta atividade ilegal.

Demonstrando grandeza e benevolência, o autor da checagem finalmente se utiliza das minhas respostas à sua pergunta, mas não sem os característicos requintes de cinismo que vêm se tornando marca do que chamamos de “jornalismo tradicional”.

Mas antes, leia algumas perguntas feitas por e-mail e em seguida como o Comprova as retratou:

Comprova: No texto, as inflamações são apontados como possíveis causas de alterações neurológicas. Mas a própria covid-19, bem como outras doenças infecciosas, provocam esse tipo de reação. Por que acredita que as vacinas seriam mais propensas a gerar problemas?

Estudos Nacionais: Em nenhum momento afirmamos, na matéria, que vacinas são mais propensas a causar as reações inflamatórias do que a própria doença.

Comprova: A coronavac usa o método do vírus morto ou atenuado no imunizante, que é uma técnica antiga, usada em vacinas já disponíveis no mercado. Alguma razão específica para desconfiar desse produ1to específico agora (a coronavac, no caso)?

Estudos Nacionais: Diversos setores da sociedade brasileira estão preocupados com a rapidez da produção de vacinas, assim como a procedência chinesa, considerando episódios de contaminação em testes além de críticas da comunidade internacional por conta de má gestão da pandemia, demora no aviso de emergência etc. Portanto, essa vacina específica tem especial relevância, já que a sociedade espera do jornalismo uma cobertura completa e que atenda os diversos pontos de vista.

Na matéria, o Comprova resumiu algumas respostas da seguinte maneira:

“Os motivos que levam jornalistas a ligar hipóteses de causa sobre determinado fato diz respeito a escolhas editoriais previstas pela liberdade de imprensa. Em nenhum momento afirmou-se taxativamente a causa, mas buscou-se, como eu disse, estudos já consagrados sobre o tema, assim como há estudos que lançam suspeita sobre medicamentos diversos, frequentemente usados no jornalismo, inclusive no contexto da pandemia”, complementou.

O jornalista respondeu às perguntas com uma série de informações questionáveis – algumas já desmentidas – e sem apresentar provas. Já sobre a menção no texto sobre a CoronaVac, que usa a tecnologia do vírus inativado ou atenuado, Cristian alegou que “a sociedade espera do jornalismo uma cobertura completa e que atenda os diversos pontos de vista.”

Nota-se que o autor recortou um pedaço da minha resposta para fazê-la parecer incompleta, uma “desconversa”, quando na verdade a resposta principal era sobre uma pergunta omitida.

O jornalista do Comprova buscou saber se tínhamos alguma implicância com a vacina chinesa, o que tratei de responder e dei menos importância à afirmação feita no início da pergunta. O checador omitiu minha resposta sobre as justificativas de se suspeitar da vacina chinesa, preferindo ressaltar uma frase carente de contexto para fazer parecer uma desconversa. É comum que entrevistadores não utilizem todas as respostas ou mesmo as perguntas que fizeram. Mas isso não dá a permissão para descontextualizar falas. Talvez tenham achado que a minha resposta sobre a China convenceria alguém de que se deve mesmo suspeitar do país de onde veio o vírus e que tenta a todo custo aprovar uma vacina.

O checador finge achar muito estranho que alguém suspeite de uma vacina.

Além disso, quais seriam as “informações questionáveis” referidas pelo Comprova? Não seriam elas suficientemente questionáveis para merecer uma “checagem”?

Quem somos nós e quem é o Comprova?

Em seguida, o Comprova mostra impressionante capacidade de investigação:

Usando a ferramenta Whois, que verifica informações sobre o domínio de sites, não há dados que indiquem o nome de quem é responsável pelo site. Porém, o recurso revela que a cidade onde o registro foi feito é Burlington, nos Estados Unidos.

A cidade americana é apenas onde está o servidor, mas o Comprova tenta fazer parecer que estamos nos “ocultando” ilicitamente. O Comprova não descobriu nenhuma ilicitude em nossa estrutura ou algo que comprometa o Estudos Nacionais.

No entanto, o que encontramos quando pesquisamos o Projeto Comprova?

Verificando o Whois do Comprova, confirmamos que o site tem como titular a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), órgão financiado pela Open Society, do bilionário George Soros, conhecido por seu financiamento de pautas da ultraesquerda como ideologia de gênero, aborto, descriminalização de todas as drogas, conflitos raciais e outras propostas essencialmente contrárias à opinião da maioria da população brasileira e que ganham relevo frequente em grandes jornais.

O responsável pelo site é Guilherme Alpendre, executivo da Abraji que trabalha Rádio Novelo. A rádio é produtora do podcast Foro de Teresina, da Revista Piauí (Folha). Foi no polêmico podcast que, em maio de 2018, o então editor da Piauí, Fernando de Barros e Silva, afirmou ter participado de uma reunião com diretores de grandes jornais, incluindo a Folha, e que a conclusão era de que se deveria “tentar pegar Bolsonaro fingindo fazer jornalismo”. A frase deu o tom de perseguição e demonização da cobertura das eleições que iniciavam e se confirmou nos anos seguintes.

Grandes grupos internacionais, como a Open Society, utilizam sua abrangente estrutura de mídia para perseguir jornalistas independentes e censurar certas opiniões na internet, o que já justifica que o EN oculte os dados de propriedade do seu Whois por motivos de segurança pessoal de sua equipe. Todos os fundadores, colunistas e colaboradores do Estudos Nacionais são listados e identificados na área correspondente do site. A suposta checagem tentou dar ar de ilegalidade à atividade do site.

O Projeto Comprova é mantido pela Abraji de um lado e pela First Draft, de outro. Ambas as entidades são financiadas por mesmas fundações internacionais. A First Draft e a Abraji recebem financiamento da Ford Foundation e da Open Society Foundation.

Como parte de uma grande estrutura internacional, a First Draft integra Comitê Diretor de Inteligência Artificial e Integridade da Mídia da Partnership on AI (PAI), empresa de tecnologia com sede na Califórnia. Entre os membros fundadores do seu comitê estão a BBC, CBC / Radio-Canada, Facebook, First Draft, Microsoft, New York Times, WITNESS e XPRIZE, entre outras, destacados no site da Draft como “membros iniciais”.

A Partnership on AI é uma empresa que fornece tecnologia de “inteligência artificial para a mudança social”. Na lista de seus parceiros, que podemos interpretar como clientes, estão tanto a Google e o Facebook como a BBC, New York Times, Apple e a Amazon. Mas também conta com entidades de especial interesse em mudanças sociais, como a ONG britânica Artigo 19, que milita pela descriminalização dos crimes contra a honra, além da participação de outros órgãos de governos e departamentos especialmente direcionados à mudança nas legislações informativas e acesso a dados no mundo. Entre as mais conhecidas financiadoras da Partnership está a Fundação McArthur, famosa por sua militância feminista e pela expansão do aborto no mundo.