Universidades africanas superam as bilionárias universidades brasileiras

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Os jornalistas da extrema-imprensa estão em silêncio quanto a uma tragédia administrativo-educacional que vem se consolidando no sistema universitário brasileiro. Essa catástrofe das universidades do Brasil se confirma nas posições que elas ocupam nos rankings internacionais.

Se tomarmos a Times Higher Education (THE) e a revista americana U.S. News & World Report como referência descobriremos que as universidades africanas estão ganhando de lavada das universidades brasileiras.

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Nesse ano de 2020, por exemplo, a Universidade de São Paulo (USP) pleiteou junto a Comissão de Orçamento da Assembleia Estadual do Estado de São Paulo, a aprovação de 5,9 bilhões de reais para a sua manutenção e operações universitárias. Embora a USP seja a sétima universidade no mundo que mais produz publicações científicas – segundo o ranking da Universidade de Leiden; a universidade sequer figura entre as 200 primeiras melhores do mundo no ranking da THE.

A coisa se complica quando se vê que à frente da USP está a universidade sul-africana da Cidade do Cabo na posição 155° com um orçamento três vezes menor. Curioso que em termos de produção científica a Universidade da Cidade do Cabo ocupa a posição 399° no ranking da Leiden, mas, por outro lado, tem cinco ex-alunos laureados com prêmio Nobel, enquanto a USP ainda não tem nenhum ex-aluno premiado.

O ranking da U.S. News, outra agência de classificação internacional, escancarou um pouco mais essa questão quando analisou universidades que publicaram mais de 1.250 artigos entre os anos de 2014 a 2018 chegando ao número de 1.748 instituições de 86 países. Nesse critério foram habilitadas 45 universidades brasileiras e apenas uma delas, a USP (posição 122°), figura entre as 250 primeiras universidades de melhor reputação acadêmica, segundo os critérios da própria revista.

Ao passo que a África do Sul, no critério de reputação acadêmica, ranqueou duas instituições entre as 250 melhores: Universidade da Cidade do Cabo (103°) e a Universidade de Witwatersrand (197°). Essa última, inclusive, tem a metade do orçamento da USP, no ranking de publicações científicas está na posição 448, mas contabiliza em seu histórico quatro ex-alunos laureados com prêmio Nobel.

Se baixarmos a régua um pouco até a posição 342 do ranking da U.S. News, aparece a primeira universidade federal brasileira, a UFRJ, com um orçamento anual de 3.9 bilhões de reais, atendendo 67 mil alunos/ano. Porém, a UFRJ está a vinte e uma posições atrás da sul-africana Universidade de Stellenbosch (321°) e dez posições atrás da também sul-africana Universidade de KwaZulu Natal. Essa última, além de ter 40% do orçamento da federal do Rio de Janeiro, atende 55% a mais de alunos.

Para não dizer que apenas as sul-africanas estão desbancando as universidades brasileiras, na posição 555° posiciona-se a quinta universidade federal do Brasil no ranking, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que em 2019 operava um orçamento de 1,6 bilhão de reais para atender 39.515 alunos. Porém, a UFSC, segue duas posições atrás da Universidade Addis Ababa da Etiópia que além de atender 48.673 estudantes em 2018, opera um orçamento 5,4 vezes menor, um montante de 293 milhões de reais.

Outra instituição etíope que aparece no ranking da U.S. News é a Universidade de Gondar que na posição 826° divide posição com a Universidade Federal do Paraná (UFPR). Porém, a universidade etíope possui um orçamento de 218 milhões de reais ao ano – 7,3 vezes menor que a dotação orçamentária da UFPR (R$ 1,595 bi) – para atender 15 mil alunos (UFPR atende 32 mil alunos).

Um pouco mais a frente na posição 792° está outra africana, a Universidade de Nairobi do Quênia, atendendo 84 mil estudantes com um orçamento de 338 milhões de reais/ano.

Tudo isso são amostras daquilo que a extrema-imprensa anda se recusando a debater. Pior do que o mal ranqueamento é o sentimento de esterilidade científica onde tudo que se produz no Brasil chamado ciência simplesmente o mundo dá de ombros. Tudo no sistema universitário brasileiros é muito caro, há um ralo de dinheiro que parece nunca ter fim. O ex-ministro da Educação Abraham Weintraub buscou contingenciar uma ínfima parte desses bilhões de verbas para apenas equilibrar as contas públicas, logo houve protestos e vociferações de professores, alunos e reitores. Uma Nota Técnica do Ministério da Educação de 2018 observou que em 2017 as 63 universidades federais custaram aos cofres públicos 50 bilhões de reais, com quase 75% desse montante comprometido para pagamentos de funcionários, de fato, uma máquina bilionária universitária.

Ainda hoje, muitos jornais da extrema-imprensa veiculam alardes sobre os cortes orçamentários nas instituições de ensino superior, porém, ninguém discute sobre o modelo de universidades que estamos adotando no país. As universidades da África do Sul, Nigéria, Etiópia, Egito, Gana, Argélia, dentre outras instituições na Ásia, Oriente Médio e até na América Latina – Universidade do Andes, na Venezuela, está à frente da UFBA no ranking da THE – operam com orçamentos extremamente reduzidos, mas produzem publicações relevantes para o mundo.

A USP pode até ser uma máquina de produção de artigos e de papers para o mundo, mas sua relevância não se provou – no sentido de que nenhum de seus ex-alunos ainda se laureou com algum prêmio Nobel. O que de fato isso significa é que a formação desses acadêmicos ainda não foi suficiente para fazer descobertas científicas de valor para a humanidade. Por outro lado, universidades desconhecidas do mundo, marcadas por guerras civis e extrema corrupção governamental, como a estoniana Universidade de Tartu, tem  contabilizado pelo menos um laureado dentre seus acadêmicos.

Talvez, essa seja a maior e mais custosa esterilidade científica de um povo.

Links importantes

Ranking Times Higher Education (THE)

Ranking U.S. News & World Report

Ranking Leiden

Blog Teorítica (fiz uma postagem com outros detalhamentos)

Orçamento UFPR

Universidade Addis Abba

Números da UFSC

Orçamento do governo da Etiópia

Orçamento da USP

Nota Técnica do MEC