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Tenho refletido muito sobre a condição do Prof. Olavo de Carvalho como formador de tantos alunos brilhantes e admiráveis. Reflito também sobre a sua condição de cidadão brasileiro que vive do ofício de escrever, analisar cenários e passar seu vasto conhecimento adiante para que forme, como ele sempre desejou em seu exercício de necrológio, “um exército de intelectuais”.

Prof. Olavo, ele mesmo, é a fonte da intelectualidade brasileira conservadora, goste-se dele ou não.

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É, como ele mesmo afirma, um dos maiores alvos da história de detração, perfídia, distorção intelectual, espezinhamento pessoal e, last but not least, o centro da tríade máxima do cancelamento moderno: calúnia, injúria e difamação.

O trabalho contra o Professor Olavo é basicamente jogar uma espessa cortina de fumaça sobre o conteúdo de suas ideias em uma campanha de mais de quatro décadas em um debate ad hominem. Não importa aos seus detratores o que ele diz, mas sim como diz e quem eles, detratores, dizem quem Olavo é (o que, de fato, não corresponde à verdade de quem ele, Olavo, realmente é).

A esquerda fez isso por décadas e agora, infiltrada na Direita e até no próprio COF, segue pacientemente injuriando, caluniando e difamando o homem, o professor, o pai e o fiel cristão Olavo de Carvalho.

Negar que Olavo tenha pecados é negar-lhe a condição de cristão, mas definir-lhe pelos pecados é revelar, na palavra de quem lança mão dessa definição, um espírito-de-porco típico dos macumbeiros.

Dito isso, preciso aqui seguir na tarefa de tentar alertar ao residual de bom senso na direita, acerca do papel do intelectual no debate político, sobretudo no brasileiro.

É inegável que Jair Bolsonaro tem méritos próprios pela vitória de 2018.

Mas como disse em textos anteriores, o mérito pela conquista de votos ocorreu porque no espírito do eleitor entre 2013 e 2018, uma janela de consciência foi aberta para que o discurso de Bolsonaro-2018 pudesse fazer sentido aos ouvidos de quem estava acostumado a decidir entre PT e PSDB. E isso, essa abertura de consciência, foi obra de um único intelectual: Olavo de Carvalho.

Mas foi o nosso único intelectual que viabilizou que o então solitário discurso de Bolsonaro dos anos 90 se aperfeiçoasse para o discurso de 2016-2018 e assim, ecoasse bem nos ouvidos de 57 milhões de brasileiros.

Como já falei alhures, colocar Olavo como causa da eleição de 2018 é uma estupidez. Olavo não foi causa da eleição, assim como nenhum intelectual é ou será causa de um sucesso eleitoral. Não é esse o papel do intelectual.

Marilena Chauí não foi causa do Lula 2002.

Essas pessoas apenas tornam as verdadeiras causas eleitorais, visíveis para uma quantidade de eleitores que estão cegos ou olhando só para parte da realidade. O intelectual chama a atenção do povo para aspectos da realidade que, por si só, o povo não tem mais a capacidade de enxergar sozinho.

A famosa hashtag OLAVOTEMRAZÃO prova que a causa eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018 tornou-se visível para seus eleitores. A causa existe antes da organização que o intelectual faz dela, transformando-a em causa eleitoral.

Assim como a causa eleitoral de Lula, em 2002, tornou-se visível para um bando de tolos na FFLCH porque a então Professora Marilena Chauí (e todo o seu séquito de papagaios) tornou a causa eleitoral de Lula visível para uma massa gigantesca de estudantes, que a tornaram visíveis para outros estudantes do ensino Médio e assim por diante, as causas eleitorais de Bolsonaro tornaram-se visíveis pelo esforço de quatro décadas de Olavo, ao mostrar parte da realidade que vinha sendo obscurecida pela esquerda.

Veja o papel do segundo escalão da intelectualidade: estes Estudos Nacionais com os irmãos Derosa, assim como Flávio Morgenstern em seu Senso Incomum e seu livro sobre as manifestações de 2013, Paulo Eneas com seu Crítica Nacional e seu livro sobre a Esquerda Globalista, todos amigos queridos que outrora lutaram lado a lado, deram ainda maior visibilidade para os alertas do intelectual Olavo de Carvalho.

Assim como André Singer, na época áurea do petismo, fazia o mesmo, do outro lado, na Folha de São Paulo e na USP, ao lado de Laura Carvalho e outros do secundo escalão da esquerda, exatamente nos mesmos palcos (USP + Folha).

O PSDBismo também se organizava em torno de perfis que seguiam a voz de intelectuais orgânicos do partido como o próprio FHC, que formou inúmeros quadros na Isentoleft e no campo “liberal, neoliberal ou social-democrata”.

Esses intelectuais tem o papel, mais ou menos definido, de cobrar internamente um rumo, um direcionamento político e um curso de ação que possa levar, por meio das “políticas públicas”, a resultados políticos determinados.

Há uma massa amorfa e mutante, entretanto, que se movimenta na política sem intelectuais: é o centrão e uma fatia dele, os neocons.

Os neocons ou o centrão não se sustentam por meio de uma estrutura que envolve o papel de intelectuais – pelo contrário, a presença de intelectuais é nociva a esse cartel de interesseiros. Eles se sustentam por meio de partidos não-orgânicos e esquemas organizados de poder que conhecemos por deep state ou aparato burocrático. É o próprio estamento burocrático, como lembra Faoro.

Por isso é que eles emprestam o deep state para certas políticas funcionarem, mas, em contrapartida, quem “aluga” os seus serviços sempre teve a decência de proteger seus intelectuais, mesmo sabendo que eles fariam críticas mais duras aos fisiológicos, do que aos seus verdadeiros adversários políticos.

Nem mesmo Lula cometeu o erro de detonar seus intelectuais e quando Dilma optou por fazê-lo assumindo ela mesma a posição de “analista” e “cronista”, deu no que deu.

Collor, o neocon “old school” ao lado de Paulo Maluf (este nas esferas estadual e municipal) e figuras como Geisel, Médici e Costa e Silva fizeram governos com a construção de políticas públicas sem a presença de intelectuais aos seus respectivos lados. Pelo contrário: todos morderam a mão de quem alimentou suas campanhas com ideias e sugestões anti-establishment que todos, sem exceção, fizeram questão de dispensar e desdenhar publicamente.

Na direita, entretanto, há uma confusão enorme por parte, sobretudo, de muitos alunos do Professor Olavo.

Quando Olavo trata do Imbecil Coletivo fazendo referência ao intelectual orgânico de Gramsci (isso, de certa forma, é bem proeminente em suas aulas no COF bem como, com alguma margem de depuração, no Jardim das Aflições ao tratar do iogue comissário), com ricas explanações sobre o Contra Acadêmicos de Santo Agostinho, muita gente vê no intelectual como um todo um alvo de ataque, quando na verdade ele está apenas explicitando como funciona a cabeça do intelectual de esquerda para que, num debate com eles, você possa ter desempenho próximo ao que Olavo teve ao debater com Allaor Caffé Alves e Dugin.

Parte do “povo de direita” acha que deve desafiar todo e qualquer intelectual e ai alguns até se acham no desplante de se pensarem aptos a atacar o próprio Olavo pelas causas mais estapafúrdias.

Fazem isso porque simplesmente desconhecem a acepção do termo intelectual.

Qual seja, agem assim por desconhecer o significado da palavra intelectual e caem no ridículo de desafiar Olavo para debater sobre temas cujo significado de dicionário, desconhecem.

Para isso e antes de chegarmos à conclusão deste texto, é preciso saber o que significa ser um intelectual.

Eu poderia lançar mão de muitos escritos, mas vou aqui me ater a um dos maiores pensadores e intelectuais do mundo: Thomas Sowell.

Sowell escreveu a soberba obra Intelectuals and Society e logo nas primeiras páginas, já dá a sua definição de intelectual pelo objeto: intelecto é a capacidade de apreeensão e manipulação de conceitos e ideias complexas. Uma proposta de Reforma do Judiciário é um exemplo de conceito e ideias complexas.

Ele adverte, na primeira linha do livro, que “intelecto não se confunde com sabedoria”. Eis ai a razão pela qual os melhores filósofos são figurados, desde a Grécia Antiga, como senhores de idade. Nenhum escultor, desde Apelis irá, em sã consciência, retratar Sócrates com 18 anos, Platão com 25 ou Aristóteles com 30 e poucos. Nada contra os jovens, muito pelo contrário, mas a sua respectiva função na vida é outra.

Intelecto e sabedoria, inclusive, fazem parte da Virtude Cardinal da Prudência, segundo alertaram Platão, Cícero e Santo Ambrosio.

Nessa esteira, Sowell vai ainda dissertar sobre a diferença entre intelecto e inteligência.

A inteligência vai mostrar se o sujeito é capaz meramente de compreender as teorias que aprende e, assim, aplicando a capacidade de julgar, são também capazes de “promover testes empíricos” às teorias que aprendeu.

O intelectual deve então não apenas reunir o intelecto, mas deve ter inteligência e sabedoria.

O que Olavo muita vez mostra na esquerda é que parte de seus intelectuais é carente de sabedoria e em muitos, de inteligência. E mesmo assim são (corretamente, por uma questão funcional), considerados intelectuais. Parte das lições de O Imbecil Coletivo é sobre isso.

Os políticos conservadores são dotados, por seu turno, de ótimos quadros intelecutais pois reunem sujeitos que além de possuir intelecto, apresentam inteligência e sabedoria (qual seja, a Virtude Cardinal e verdadeira da Prudência, não essa mímese tosca da “covardia” e da “não ação” que muitos liberais tentaram espalhar por ai).

Desta forma, a definição de Sowell para intelectual não de distingue muito daquilo que Gramsci bolou como sendo o “intelectual orgânico” dos Caderno do Cárcere: “é uma categoria ocupacional”, qual seja, categoria composta por pessoas “cujas ocupações profissionais operam fundamentalmente em função de ideias”, a saber, “escritores, acadêmicos e afins”. Sowell, ele mesmo, é um exemplo de intelectual pois ao escrever sobre os intelectuais, ele faz da sua ocupação uma ativiade intelectual em si.

Há os “bons” intelectuais e os “ruins”, como tudo na vida. Ao tratar dos “pseudo-intelectuais”, Sowell lembra do “intelectual superficial, desonesto e confuso” como, mesmo assim, “sendo membro de sua ocupação, tanto quanto o modelo máximo” para logo atalhar na questão que quero adentrar aqui: “a questão maior é, certamente, como o comportamento dos intelectuais afeta a sociedade na qual eles vivem”.

Nassim Nicholas Taleb chegou a ser duro com parte dessa intelectualidade ao criar, em seu Skin in the Game, o termo IYI, a saber: intelectual yet idiot. Trata-se do mesmo esforço de Sowell para diferenciar intelecto de inteligência e sabedoria (que demanda experiência empírica em alguma área).

É Sowell também que divide a intelectualidade em escalões (conforme mencionei acima) e trata da intelligentsia, por ele considerada o primeiro escalão da intelectualidade por segregar em um grupo distinto a classe dos intelectuais que detém inteligência e sabedoria. É dentro da intelligentsia que você acha a ideologia.

Assim como Taleb, Sowell preocupa-se com a prestação de contas dos intelectuais, qual seja, se pela verificação empíricacoerência no que dizem.

Em relação a esse critério de verificação empírica que eu chamo de coerência, Sowell aponta como maior perigo a existência de “bolhas”, onde as ideias não podem ser testadas fora da própria bolha: qual seja, é o intelectual que nunca teve colhões para ir na casa de um adversário político como Nando Moura para debater a essência da ideia a respeito do combate à tirania da toga por meio de CPI ou impeachment. Falo do meu próprio caso para não ferir susceptibilidades, mas há também o exemplo de Olavo com Allaôr (que debateu em pleno Largo São Francisco) ou de Allan dos Santos na própria “CPMI das Fake News” debatendo com toda a esquerda o conceito de fake news, em pleno Congresso Nacional.

Para a turma do circle jerk, Sowell adverte: “O grande problema – e o grande perigo social – de um critério puramente interno é que ele pode facilmente blindar as ideias, protegendo-a das verificações e dos feedbacks do mundo externo, instituindo, assim, a permanência de métodos de validação meramente circulares. A plausibilidade ou não que uma nova ideia incita, depende do que cada um já tem incorporado como crença. Quando o único critério de validação externa se assenta no que outros indivíduos acreditam ou deixam de acreditar, tudo passa a depender da posição que esses outros indivíduos ocupam, ou seja, quem eles são. Caso sejam pessoas simples, as quais têm, em geral, um pensamento similar, então o consenso do grupo sobre uma nova ideia em particular dependerá do que o grupo já acredita em linhas gerais” (grifos meus).

Pronto, chegamos no âmago do problema do debate político na direita neste Outubro de 2020, exatos dois anos após o sucesso eleitoral de 2018.

A tática de cancelamento dos intelectuais da direita, sobretudo do Prof. Olavo, cria exatamente para o atual governo essa simulação de aprovação.

A direita está abrindo mão de orientar-se e de orientar suas ideias pelo filtro dos intectuais (por piores que eles sejam, são os únicos que a direita têm – para formar nova leva, demorará ai mais outros 20 anos e o bolsonarismo não tem esse tempo).

Trocar essa tática no meio do jogo e assumir uma forma de governo mais collorida (na acepção política e não ética ou criminal do termo, que fique aqui bem claro) é estratégia suicida.

Sem uma imprensa alternativa e independente consolidada para ecoar as ideias formuladas por intelectuais, apenas as críticas falsas, baratas e estapafúrdias da mídia mainstream irão aparecer diante de seu eleitorado.

Tentar conquistar essa imprensa que já foi representada em vídeo na forma de hienas, em detrimento da construção de uma mídia que dê voz às ideias que representam o projeto de 2018, é um ato de suicídio político jamais visto na história do Brasil. Quem o governo acha, depois de “rifar” intelectuais da altura de Olavo de Carvalho, que irá proteger as ideias, transformadas em plataformas eleitorais, de ataques que provavelmente o bolsonarismo irá sofrer da parte de gente como Monica De Bolle, Ruy Fausto, Fábio Comparato, Laura Carvalho, Samuel Pessoa, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Mendonça de Barros e outros? Contas de twitter com 100 seguidores e que ficam impulsionando hashtags do tipo BOLSONARO2026?

É verdade que os eleitores mais a direita estão, até então, sem opções eleitorais nesse campo da direita. Mas é também verdade que os pretendentes a cargos em 2022 estão, item, sem qualquer opção de orientação estratégica e intelectual para acompanhá-los nessa saga em que a troca dos intelectuais pelo Centrão certamente trará mais frutos para o Centrão do que para o bolsonarismo.

Isso não é uma “torcida contra”. É um vaticínio.

E como prova do que aqui apelo, alguns frutos já poderão ser colhidos nas eleições deste Novembro de 2020 – a antecipação de 2022 não ocorre ano que vem: ela já está ocorrendo agora.