O perfeito círculo (ou circo?) da alienação da juventude

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As manchetes dos portais de “notícias” não cansam de nos surpreender, ora pelo grotesco, ora pelo absurdo e, em considerável parte das vezes, pelo ridículo.

Enquadra-se nesta terceira categoria, com louvor, a “reportagem” intitulada “Cem mil bexigas: artistas fazem performance de 14 dias por mortos por Covid”.

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A nota dá conta de que, por quatorze dias consecutivos, quatro artistas, confinadas em um apartamento no centro de São Paulo, assumiram a dignificante missão de encher cem mil bexigas pretas para simbolizar as mortes causadas pela Covid-19. A jornalista que assina a reportagem relata que, no terceiro dia, uma das “artistas” desistiu de habitar o seu próprio quarto, pois se tornou inviável dormir com o cheiro forte de látex. Mas, que lástima! Ainda faltavam 11 dias e outras 99 mil bexigas a serem enchidas para concluir a performance “Insuflação de uma Morte Crônica”.

Se você não acredita, confira em https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/09/02/cem-mil-bexigas-artistas-fazem-performance-de-14-dias-por-mortos-por-covid.htm

Pois bem. As cem mil bexigas utilizadas para a performance custaram R$ 6.000,00 (seis mil reais), e o grupo vem levantando os recursos, para esta e outras iniciativas artísticas, em campanhas de arrecadação online.

Como se não bastassem todas essas extravagâncias, é ainda espantoso o fato de que o portal de “notícias” dá ares de seriedade a isso, relatando, minudentemente, todos os esforços e renúncias que a performance exigiu das “artistas”.

Lamentavelmente, cada vez mais se comprova que a disseminação do mau gosto, disfarçado sob as vestes sagradas da expressão artística, é prática reiterada dos bem intencionados jovens progressistas, os quais se mostram muitíssimo sensíveis a todos os tipos de sofrimento humano. Sob o pálio da solidariedade, acobertam as mais desvairadas e sem sentido manifestações de seu pensamento canhestro, completamente alheios à realidade, incoerentes e até inócuos.

A performance tão orgulhosamente destacada na nota de imprensa restringe-se, simplesmente, ao mais completo e rotundo NADA. Não é nada: não é arte, não é protesto, não é campanha, não é nem mesmo um lamento pelas mortes pois, por ser risível, este efeito seria paradoxal. Quatorze dias, de quatro vidas jovens, desperdiçados, seis mil reais (equivalentes ao valor do auxílio emergencial de dez pais de família) queimados, e muito lixo produzido.

Sim, porque por mais que argumentem que os resquícios das bexigas formarão um novo “monumento artístico”, constituído de enorme manto negro, cedo ou tarde todo esse resíduo terá que ser descartado. E o látex, como o plástico, possui longo prazo de decomposição, entre 300 e 400 anos, acarretando consequências danosas que vão desde a contaminação do meio ambiente a problemas de saúde pública, podendo levar ao entupimento e comprometimento de sistemas de escoamento de água de cidades inteiras. Para ficar em apenas um exemplo.

Essa atitude nada “sustentável” das artistas mostra, sem dúvida, o quanto estes jovens progressistas, ambientalistas ferozes, mostram-se incapazes de fazer conexões lógicas e estabelecer simples relações de causa e efeito, movendo-se em espaço e tempo apartados do real.

Jovens que não leem, que não buscam o conhecimento, dotados de um imaginário paupérrimo, aplaudem-se, euforicamente, uns aos outros, atribuindo a si todo o talento e todos os méritos. Sem imaginação, não reconhecem a realidade que se apresenta diante de seus olhos, vagando como zumbis em meio às brumas da incoerência e da auto hipnose. Cada vez mais, sectarizam-se, e tornam-se a audiência exclusiva uns dos outros, e assim, como refletiu Mário Ferreira dos Santos[i], no livro “Invasão Vertical dos Bárbaros”, embotados em seu bom gosto, recebem o insólito e o inesperado com exclamações de surpresa e de satisfação animal, em manifestações mais próximas dos hospícios que do bom-senso, enquanto tudo é apresentado como arte, como sublime arte. Ou, como Olavo de Carvalho[ii], “a autopersuasão delirante se fecha sobre si mesma, num círculo perfeito”.

Esses artistas Brasil afora dão mostras sempre mais concretas de que, para eles, a substância das coisas não tem mesmo nenhuma importância. Fiquemos com a superfície. Para que me preocupar em “ser” se posso “parecer”? Trabalhar?? Sou artista… posso passar quatorze dias dentro de um apartamento, enchendo balões pretos, para mostrar ao mundo o quanto me sensibilizam as mortes por Covid 19. A sociedade que me sustente, a mim e a meus delírios artísticos, pois estou muito ocupado produzindo obras de impacto.

A performance “Insuflação de uma Morte Crônica” é um exemplo eloquente da importância da formação de um imaginário sólido, e de como a falta dele, entre a juventude progressista, leva a disparates como esse, em que ninguém – nem as “artistas”, nem os “jornalistas”, nem os “mecenas” da exposição, percebem o ridículo em que estão metidos, ou, se percebem, não o denunciam, pois soaria mal confessar-se incapaz de compreender tão suprema obra de arte. Isso seria dar provas de ignorância e insensibilidade. Calam-se todos, e a hegemonia cultural do mau gosto grassa a toda velocidade na mídia.

Só podemos concluir, ainda amparados na lúcida lição de Olavo de Carvalho, que, dissolvida a unidade do senso comum pelo bombardeio do imaginário e por mil distorções propositais, as valorações mais absurdas começam a parecer naturais e sãs aos olhos de uma população entorpecida.


REFERÊNCIAS:

[i] Mario Ferreira dos Santos. Invasão Vertical dos Bárbaros. É Realizações, 2012, p.40.

[ii] Olavo de Carvalho, A Longa Marcha da Vaca para o Brejo. Vide Editorial, 2019, p. 35.