Checadores confirmam vacinas de fetos, mas dizem que notícias são “enganosas”. Entenda

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Os checadores de fatos do projeto Comprova, que abastece os fact-checking de diversos sites da grande mídia, não tiveram meios de negar as verdades denunciadas há anos por sites como o Life Site News, um dos maiores portais pró-vida dos Estados Unidos. Nas últimas semanas, Estudos Nacionais começou a difundir as denúncias sobre o uso de células fetais para a produção de vacinas contra Covid 19. O tema gerou polêmica e foi objeto de diversas checagens, apesar de pouco divulgado entre sites conservadores no Brasil.

O texto, publicado no site da BBC News Brasil, resume-se ao tom cínico e desdenhoso em relação às notícias, classificando-as de “enganosas”, “desinformadoras”, quando não apenas “suposta notícia”. Apesar disso, confirmaram cada informação dada e ainda comprovaram algo mais, como veremos.

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Como toda checagem, o texto inicia apenas descrevendo as informações que pretende “checar”, o que é importante para entendermos o quanto os checadores de fato entenderam aquilo que pretendem impugnar.

Vamos ler parágrafo por parágrafo para que o leitor entenda como o jornalismo constrói narrativas totalmente falsas jogando com a desatenção do leitor médio, subestimando a inteligência dos leitores e, com isso, rebaixando-a de fato em muitos casos.

A matéria leva o título de:

“Fetos abortados, microchips e Bill Gates: as mentiras sobre a vacina da covid-19 que já contam por aí”

Importante notarmos que o título inclui aqui três assunto e os classifica como “mentiras sobre a vacina covid-19”. Vamos nos ater especificamente ao tema dos “fetos abortados”.

Nas últimas semanas, começou a ser compartilhada em redes sociais e aplicativos de mensagens uma suposta notícia, que mistura informações verdadeiras e afirmações imprecisas ou falsas, para denunciar que as vacinas em desenvolvimento para covid-19 “usam células de fetos abortados, segundo especialistas”.

De acordo com a publicação [do EN], as vacinas contra o coronavírus têm estas células em sua composição, “um fato já denunciado há anos por sites pró vida, com base em publicações científicas”. O texto remete a duas outras páginas, Life Site News e Precious Life, ao apontar que uma empresa está “usando células fetais abortadas, conhecidas como HEK-293”, assim como pesquisadores da Universidade Oxford, no Reino Unido.

Em primeiro lugar, uma verdade comprovada não precisa ser colocada entre aspas, exceto se você pretende torná-la suspeita. No caso das publicações científicas é só ler a matéria linkada em nosso texto para o site da Revista Science, que duvidamos que seja suspeita para os jornais. Mas a impressão gerada pelo uso de aspas é suficiente para quem não leu nenhuma das matérias em questão.

O objetivo seria alertar para supostos aspectos eticamente controversos no desenvolvimento destas vacinas, ao ligar esse tipo de trabalho à prática do aborto.

Mas trata-se de mais um episódio de uma campanha de desinformação contra a vacina para covid-19, que é quase tão duradoura quanto a própria pandemia e envolveu até agora Bill Gates, microchips para controle populacional e crianças no Senegal.

O primeiro parágrafo demonstra que o redator de fato entendeu o objetivo de nosso alerta. A ligação “deste tipo de trabalho à prática do aborto”, porém, não é apenas um objetivo nosso, mas algo que ficará evidente nas próprias linhas da BBC News Brasil, como o leitor poderá conferir.

Em seguida, classifica como “campanha de desinformação contra a vacina para covid-19” e alinha nosso alerta a outras denúncias anteriores que envolvem Bill Gates, microchips. O texto não especifica quais “boatos” seriam falsos sobre Bill Gates, um dos maiores investidores de vacinas comprovadamente. Na verdade, querem associar ao estereótipo “campanha de desinformação” qualquer notícia que pareça ser desonrosa à imagem do bilionário. É o que parece.

Muitas dessas supostas notícias são, na realidade, versões recauchutadas de informações falsas que já haviam sido divulgadas antes por pessoas contrárias a qualquer tipo de vacinação, diz João Henrique Rafael Junior, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto e idealizador do projeto União Pró-Vacina, que combate a desinformação sobre o tema.

“É possível encontrar referências à questão da vacina com células de fetos abortados que remontam a no mínimo cinco anos atrás, assim como menções a Bill Gates. Essas teorias vão sendo reaproveitadas e repaginadas sempre que há algum tema em evidência.”

No depoimento do “idealizador do projeto União Pró-Vacina”, o texto apenas ressaltou a defesa previsível de um interessado em falar bem de qualquer vacina e não há qualquer especificação informativa sobre o tema em questão. Ele apenas tenta descredibilizar quaisquer menções a Bill Gates envolvendo vacinas.

Importante ressaltar que, quanto mais no alto de um texto a informação estiver, mais pessoas a lerão. Portanto, até agora o texto apenas deslegitima qualquer denúncia e ainda não ousou tocar no assunto da suposta checagem.

Mas agora vem o melhor

Vacinas contra covid-19 não têm células de fetos abortados

O virologista Aguinaldo Pinto, professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), explica que o desenvolvimento de vacinas realmente pode envolver o uso de culturas de células obtidas de tumores ou de fetos humanos que foram abortados. (grifo nosso)

Este trecho deveria ser emoldurado como um exemplo do jornalismo de nosso tempo. O título diz que vacinas não têm células de fetos abortados, enquanto a frase é desmentida no primeiro parágrafo. Em seguida, vem o pior.

Essas culturas são essenciais para esse tipo de trabalho, porque os pesquisadores precisam de células às quais um vírus possa infectar e se reproduzir. Assim, é possível obter exemplares suficientes para testar e produzir vacinas.

As vacinas normalmente usam cópias inativadas (mortas) ou atenuadas (alteradas para não serem infecciosas) de um vírus, que, uma vez injetado no corpo, leva o sistema imunológico a produzir anticorpos para combater a ameaça.

Quer dizer que, depois do entretítulo dizer uma coisa (provavelmente muitos lerão só até aí), o restante se compromete a refutar tudo e ainda justificar que as células de fetos abortados são “essenciais para este tipo de trabalho”. Em seguida, o texto tenta desviar a atenção do leitor explicando o funcionamento da produção de uma vacina, como se isso justificasse eticamente o uso de células fetais, que é o tema em questão.

Desta forma, o organismo conseguirá combater um patógeno mais eficientemente quando for realmente infectado, impedindo que uma pessoa fique doente.

As culturas de células são usadas para isso desde meados do século passado e estiveram envolvidas na produção de algumas das principais vacinas que temos disponíveis hoje, como para rubéola, catapora e hepatite A.

“A primeira vacina desenvolvida assim foi a contra poliomielite. Antes, era preciso obter o vírus de pessoas ou injetá-lo em um animal, matá-lo, tirar um pedaço do corpo, purificar o material. Quando foi desenvolvida a técnica do cultivo de células em laboratório, foi uma grande revolução na virologia e na biologia de forma geral”, diz Pinto.

Vejam como é importante lermos isso tudo da própria “boca” dos especialistas chamados pelos sites que, não raro, defendem abertamente a legalização do aborto. No trecho acima, admite-se o uso de células fetais em uma série de vacinas, confirmando o que dissemos nas matérias. O último parágrafo, acima, porém, é ainda mais revelador ao sugerir que, antes, era preciso “injetá-lo em um animal, matá-lo…”, parecendo indicar que agora podemos usar um ser humano ao invés de um animal. Animador.

A cultura HEK-293, mencionada pela suposta notícia, foi criada no início dos anos 1970, a partir do rim de um feto abortado na Holanda.

Desde então, ela tem sido reproduzida em laboratório e vendida para pesquisadores de todo o mundo. “Eu tenho essa cultura no meu laboratório. Muita gente tem”, diz Pinto.

O texto classifica como “suposta notícia” para a seguir confirmar a informação que demos sobre o aborto usado na Holanda, em 1972. Em seguida vem algo interessante.

“É importante deixar bem claro que isso foi feito pontualmente uma vez. Não é como se agora estivessem sendo feito abortos para produzir vacinas.”

O mesmo criador da HEK-293, o biólogo molecular Alex van der Eb, desenvolveu outra cultura a partir de células da retina de um feto abortado em 1985, chamada PER.C6.

Primeiro, o pesquisador diz que foi só uma vez e que abortos não serão mais feitos para isso. No parágrafo seguinte, a matéria conta que o mesmo criador da linha celular extraída em 1972 desenvolveu outra linha a partir da retina de outro feto abortado em 1985 (exatamente como contamos nas matérias). Ou o redator montou esse texto sem lê-lo ou ele quis ferrar com o pesquisador entrevistado.

A partir daí, entra o tema de Bill Gates e os microchips, que seguem a mesma linha de lembrar do boato na estranha tentativa de refutar confirmando-o. Estes são os checadores empenhados em esclarecer se o que dizemos é verdade ou não.