Reportagem omite dados do desarmamento e ataca o governo

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No último domingo (19/07), o programa Fantástico, da Rede Globo, exibiu longa e controversa reportagem de mais de 17 min discorrendo acerca da política de armas no Brasil, acusando, sem rodeios, o presidente Bolsonaro por uma virtual nova escalada de violência, apontando como causa o aumento das armas em circulação no país.

Como sói ocorrer, democraticamente, foram ouvidos 07 especialistas desarmamentistas, e, como contraponto, por exatos 32 segundos, o presidente da Frente Parlamentar da Segurança Pública, Deputado Capitão Augusto. Um desses experts contra-armamentista apresentou estudo relacionando que, a cada aumento de 1% na circulação de armas, os homicídios subiriam 2%.

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A premissa midiática-acadêmica é: mais armas, mais violência; menos armas, menos violência. Para subsidiar e alarmar, a reportagem assinalou gráfico indicando um incremento substancial na venda de armas de fogo desde 2017, destacando acréscimo mais acentuado no ano de 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, além do número de 140 mil só no ano de 2020. Desse modo, associa-se o governo ao aumento de armas e, pressuposto do capcioso silogismo jornalístico, ao aumento da violência.

O que a reportagem obliterou, entretanto, foi que, em 2019, os homicídios tiveram significativa redução de 19%, e as mortes violentas de quase 22%, sendo que todos os estados do país apresentaram redução de assassinatos no período, de acordo com o Monitor da Violência, parceria do G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, essa última entidade, aliás, vinculada à Fundação Ford e à Open Society. Conforme infográficos do G1, portal de notícias online da própria Globo:[1]

 

[2]Portanto, ao contrário do argumento central da reportagem, os dados desmentem a causalidade entre aumento de armas e de mortes violentas. Embora não se possa vincular a queda da violência ao incremento de armas no país, pode-se seguramente asseverar que a maior quantidade de armas não provocou mais crimes, muito menos criou o cenário apocalíptico de velho oeste descrito pela reportagem e por abordagens símiles.

Outro dado deturpado na reportagem se refere aos alegados efeitos benéficos do Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826/03); segundo o Fantástico, os índices de segurança pública melhoraram após a entrada em vigor da draconiana legislação desarmamentista. Ocorre que o número de homicídios com armas de fogo cresceu durante esse período – de 2003 (um ano antes do Estatuto entrar em vigor) a 2017, saltando de 36.115 a 47.510, na órbita de 23,9%, consoante o Atlas da Violência, vinculado ao IPEA:[3]

Nesse aspecto, ainda que não abordado na reportagem, o ardiloso raciocínio dos lumiares desarmamentistas é que, mesmo aumentando, o crescimento diminuiu em relação aos períodos anteriores. Veja-se: crescimento diminuir soa favoravelmente retórico pelo último verbo empregado, sinalizando a priori redução; porém, é bom que se deixe claro, crescer, sob qualquer prisma, é aumentar. Trata-se de uma artimanha de manipulação linguística, moeda corrente da ginástica teórica dos scholars e da mídia. “O vocabulário e a sintaxe afirmam o que nega o pensamento implícito neles e, na disputa entre eles, é o pensamento que sai derrotado.”[4] Com efeito, crescer menos não deixa de ser um indicador ruim, suficiente para demonstrar a ineficácia do Estatuto do Desarmamento no controle da violência e da escalada de mortes.

Ademais, o progresso de crescimento tende a diminuir à medida que os números absolutos aumentam; se o salto for de 01 homicídio para 02, tem-se um aumento de 100%, e de 02 para 03, de 50%. Ora, o crescimento foi percentualmente menor, não obstante o número de mortes tenha sido o mesmo. Ainda, quanto mais homicídios acumulados, mais difícil fica de ampliá-los; obviamente que dos longínquos 4.770 homicídios por arma de fogo em 1979 para 30.865 no ano 2000[5], o crescimento foi maior, pois a base (4.770) é menor, comparativamente a base de mais de 36.000 homicídios em 2003. Da mesma forma que na medição econômica de crescimento; dificilmente um país rico terá um aumento de riqueza superior a um país em desenvolvimento, com condições de pujança econômica em ambos. Por exemplo, os EUA provavelmente não crescerão na casa de dois dígitos do PIB, já a China, ou até mesmo o Brasil, têm maior probabilidade, por ter uma base de riqueza inferior. De fato, é mais fácil crescer aquele que tem menos relativo a quem tem mais. Nesse diapasão, insta registrar que a multiplicação dos homicídios no transcurso do Estatuto do Desarmamento coincidiu com os anos de bonança econômica do governo Lula, o que desmistifica, pelo menos em parte, o também dogmático binômio pobreza-criminalidade.

Para arrematar a ardilosa reportagem, ao tratar das mudanças no Estatuto do Desarmamento atualmente no Senado, a jornalista Sonia Bridi coloca do seguinte modo a conclusão: “o que deve prevalecer: o direito individual a ter uma arma, ou o direito de todos a mais segurança?” A lógica torpe é evidente, o direito à arma é um capricho individualista e perigoso em detrimento do direito coletivo à segurança e ao bem-estar.

Claro que as informações omitidas na reportagem, por serem desagradáveis à mídia bem-pensante e à nomenklatura acadêmica, sequer foram consideradas para fazerem parte das estatística expostas, seja por ignorância analítica fruto do sectarismo progressista, seja por ocultação deliberada. Independentemente do porquê, fato é que o contraditório efetivamente não existe na imprensa tradicional, como se conclui diante desses fatos e dados, apartados de qualquer teoria político-ideológica. Na esteira do clima atual de histeria da imprensa mainstream, quiçá tais estatísticas sejam rotuladas inclusive de fake news pelas agências de fact checking, as quais curiosamente são vinculadas aos grandes veículos de comunicação em verdadeira verificação autofágica.

As Informações faltantes (queda nos índices de criminalidade), a supressão do contraditório (ausência ou desproporção de especialistas pró armas), as sutis distorções (crescimento a menor) são armas – com o perdão da expressão – recorrentes e históricas da grande imprensa tradicional, e apontar aí o menor sinal de incoerência ou desequilíbrio é visto com histriônico pavor e indignação, dissimulando como se ataque à imprensa ou à liberdade de expressão fosse. Dizer que é fake news, então, é quase crime de lesa-pátria. Contraditoriamente, veículos conservadores alternativos de menor porte são rotineiramente acusados e agora judicialmente perseguidos como propagadores de desinformação.

Tranquilize-se. As instituições estão funcionando. Vivíamos em uma plena democracia com segurança pública de sobra até o obscurantismo das fake news, do governo Bolsonaro e sua política de armas emergirem. Aclame-se a imprensa tradicional e as suas agências de verificação heroicamente lutando por um Brasil mais seguro.


Referências:

[1]https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2020/02/14/numero-de-assassinatos-cai-19percent-no-brasil-em-2019-e-e-o-menor-da-serie-historica.ghtml.

[2]https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2019/11/25/brasil-registra-queda-de-22percent-nas-mortes-violentas-em-9-meses-revela-indice-nacional-de-homicidios.ghtml.

[3] https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/dados-series/31.

[4] SCRUTON, Roger. Uma filosofia política: Argumentos para o conservadorismo. Tradução Guilherme Ferreira Araújo. 3.ed. São Paulo: É Realizações, 2017, p.207.

[5] https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/dados-series/31.