“Atos antidemocráticos”: entre exílio e perseguições, o Brasil falece

2
Foto Agência Brasil
Anúncio:

Eu acordei com a Polícia Federal no meu quarto. A minha primeira reação foi colocar meu corpo de modo que protegesse meu filho e entregar o celular. Por alguns segundos pensei que era um ladrão, com arma na mão. Meu endereço, há algumas semanas, foi divulgado pelo Diário do Centro do Mundo, sob o título ‘Militante da Extrema-Direita’. Fiquei gelada.

O agente, educado e calmo, disse: “Polícia Federal, senhora” e por alguns segundos me senti protegida. Anestesiada talvez. Logo percebi: o inquérito do semi-deus Alexandre de Moraes.

Anúncio:

Levantei, olhei no corredor e mais três agentes estavam olhando meus cadernos de pautas, minhas fichas de anotações e meu computador que estava aberto. ‘Devia ter desligado’, pensei.

“Como entraram na minha casa” indaguei. “Forçamos a porta senhora”, um deles me respondeu, entregando-me o mandado. Não conseguia ler. Queria trocar de roupa, pentear os cabelos e me compor para aquela ocasião.

Entrei na sala e dei de frente com dois funcionários da padaria ao lado.

– Sempre chamamos duas testemunhas para acompanhar, senhora.
– Ok – respondi e emendei: Posso pentear o cabelo?
– Pode.

Não sei por que, mas deixei a porta do banheiro aberta e coloquei o pé na porta para que ninguém a fechasse. Fiquei com medo de pensarem que eu estava escondendo alguma coisa.

– Nós vamos procurar documentos e lacrar os equipamentos. Os dois celulares são seus?
– São – respondi – Qual a acusação?, questionei.
– Não sabemos – um dos agentes prontamente respondeu.

Peguei um café, um cigarro e fiquei olhando.

– O que é essa ficha? – questionou um dos agentes.
– Sites de confiança.
– Vamos levar.

Cadernos, fichas, planilhas e planejamentos. Tudo. Até um computador que não funciona há meses. Tinha intenção de arrumá-lo.

Meus filhos. Não acordem meus filhos, único pedido que fiz.

– Fique tranquila – disse o agente sem jeito. Um clima estranho. Confuso. Eles estavam incomodados com o que estavam fazendo. Cada gaveta aberta, cada armário, bolsa, abertos, era uma ação tímida dos agentes.

Respeitaram, fisicamente, a mim, meus filhos e minha mãe. Simpáticos, calmos e contrariados. Eles estavam desconfortáveis com os próprios atos.

Ensacaram, lacraram e assinaram. Pronto, minhas coisas estavam indo para mãos desconhecidas, com objetivos escusos.

– A senhora precisa depor – e me entregou o papel o agente mais calado.
– Vou agora.
– Agora?
– Sim.
– A senhora não está sendo obrigada. Pode ir depois.
– Não. Vou agora. Vou me trocar.
– A senhora não está sendo levada de forma coercitiva. Pode ir depois. Com calma.
– Não. Agora. Vamos esclarecer isso.

Pensei: “Qual fake News que esta benção deve estar me acusando?” Não era referente ao inquérito das fakes e sim ao das manifestações. Estas manifestações que eu não fui, não falei sobre, não divulguei e nem pedi dinheiro para idealizá-las. Descobri ao chegar na sede da Polícia Federal.

Com a mesma educação e simpatia, o inquérito foi conduzido. Respeito imperou o tempo todo.

– A senhora está confortável?
– Quer água?
– Não. Está tudo bem.

Entre conversas curtas e sem objetivo, o agente ligou o computador.

– Vamos começar?
– Vamos.

Profissão, nome completo, estado civil, documentos. Tudo detalhadamente escrito.

– Você defendeu atos anti-democráticos nas redes?
– O que é ato anti-democrático?
– Intervenção militar e AI-5.
– Não. Tem diversos vídeos meus falando contrário a tudo isso.
– Esteve em alguma manifestação?
– Estive. Em novembro de 2019.
– Qual era a pauta?
– Impeachment do Gilmar Mendes
– É, pode ser isso – exclamou o agente.
– Pode ser por isso que eu estou aqui?
– É. Se você não foi nas manifestações desse ano, não é favorável à intervenção, não cooptou dinheiro e nem incentivou as manifestações, pode ser essa manifestação.
– Meu Deus! – disse.
– Conhece fulano?
– Conheço. Não tenho qualquer contato. Mas conheço.
– Quando você teve contato com ele?
– Em 2018, quando ele esteve na minha casa pegando material de campanha e em duas manifestações de 2018.
– Algo mais?
– Não e nem quero.
– E ciclano? Conhece?
– Não, nunca vi. Falei com ele uma única vez, ao telefone, para tirar uma dúvida sobre o meu canal.
– Nunca o viu pessoalmente? Não tem contato?
– Não.
– Conhece a empresa X e Y?
– Não.
– Recebeu dinheiro para estar nas redes sociais?
– Nunca.
– Como você ganha dinheiro?
– Trabalho para o Crítica Nacional, Estudos Nacionais, tenho adsense no canal, apoia-se e depósito em conta.
– Ganha fixo? Tem contrato?
– No Crítica é fixo. X reais por 10 artigos semanais. Nos Estudos é por produção. Não temos contratos. Sou “freela”.
– Tem contato com assessores?
– Só para tirar dúvidas sobre a veracidade das matérias veiculadas na grande mídia.
– Amizade?
– Nenhuma.
– Contato com deputados?
– Sim. Eu faço entrevistas. Entro em contato com deputados, senadores, ministros e secretários, para pedir pauta…
– Só pra isso?
– Só.
– Quer acrescentar algo?
– Posso mandar Alexandre de Moraes procurar o que fazer, esse cabeça de ovo?
– Não.
– Então não. Não tenho nada a declarar.

E foi assim que tudo aconteceu. Das 06h00 às 09h10, do dia 16 de maio de 2020. O dia que eu vi homens treinados para combater o crime envergonhados e contrariados ao fazer uma revista residencial. O dia que eu vi minha liberdade de expressão sendo calada. O dia que me senti invadida, exposta e criminalizada.

O dia que eu descobri que o Brasil é uma ditadura. A ditadura da toga, do judiciário. 1964? Não. 2020.

 

Inscreva-se em nossa Newsletter e receba novidades por e-mail.