A atualidade de Santa Joana D’Arc em tempos de globalismo

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Jeanne d'Arc au sacre du roi Charles VII, dans la cathedrale de Reims (1854)
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Hoje é o dia de Santa Joana D’Arc, a jovem heroína de Orleans que aos 17 anos libertou a França do domínio estrangeiro dos ingleses após ter recebido esta missão de Deus através de São Miguel Arcanjo. Isso nos traz um questionamento oportuno nesses tempos da colonização ideológica do globalismo: o que Deus espera das nações?

A santa que foi condenada pela própria Igreja, em um processo depois considerado nulo devido o comprometimento de parte do clero com os ingleses, inimigos dos franceses, simboliza a libertação da nação francesa, hoje palco de um conflito civilizacional. Não só a França. O mundo vive o assédio de grupos poderosos, potestades secularistas e anticristãs que veem nas nações meras ferramentas para o alcance de uma “paz global”, uma pax romana edificada na verdadeira Babel do multiculturalismo.

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Joana D’Arc representa uma importante intersecção entre religião e política, entre o espiritual e o temporal. Reivindicada por políticos nacionalistas da França durante a Segunda Guerra Mundial, a canonização pelo Papa Bento XV, em 1920, irritou a ala da esquerda da época.

O Papa Francisco, em homilia recente, sintetizou a importância das nações e do pertencimento a um povo como condição ao pertencimento à pátria celeste. Se não pertencemos a um povo, a uma nação, estamos presos ao individualismo de um “universalismo” etéreo e ausente em nossas culturas. Não há cultura global que toque o indivíduo ao ponto de levá-lo ao alto.

Santa Joana D’Arc nasceu em 1412, em Domrémy (atual França). Nunca aprendeu a ler e escrever, mas recebia com frequência os sacramentos, ajudava os doentes e era bondosa com os peregrinos. Nessa época, a Inglaterra invadiu a França. As cidades caíram uma após a outra e Carlos VII considerava que tudo estava perdido.

Santa Joana, aos quatorze anos, começou a ter experiências místicas e São Miguel Arcanjo, Santa Catarina e Santa Margarida apareceram a ela. Pediram a ela que salvasse a França e a jovem foi enviada a falar com Carlos VII.

Após uma série de obstáculos, conseguiu uma audiência. Carlos VII se disfarçou para confundir a santa, mas ela o localizou rapidamente. Mais tarde, Santa Joana partiu com uma expedição para salvar a cidade de Orleans, carregando uma bandeira com os nomes de Jesus e Maria e uma imagem do Pai Eterno.

Depois de árduos enfrentamentos, a cidade foi recuperada e posteriormente realizou-se a coroação de Carlos VII. Assim, Santa Joana terminou o que lhe havia sido confiado e a sua carreira de triunfos militares.

Bento XVI fala da “Donzela de Orleans” como um fenômeno vindo das massas simples da Europa medieval.

“Desde a infância, ela demonstra uma grande caridade e compaixão pelos mais pobres, pelos doentes e por todos os que sofrem, no contexto dramático da guerra”, diz o Papa.

“Através da «voz» do ancanjo são Miguel, Joana sente-se chamada pelo Senhor a intensificar a sua vida cristã e também a comprometer-se pessoalmente pela libertação do seu povo” (…). Um dos aspectos mais originais da santidade desta jovem é precisamente este vínculo entre experiência mística e missão política. Depois dos anos de vida escondida e de amadurecimento interior segue-se o biénio breve, mas intenso, da sua vida pública: um ano de acção e um ano de paixão”.

O Papa Emérito resume a paixão de Joana D’Arc como um verdadeiro martírio tanto para ela quanto para a Igreja, que na época não soube identificar a santidade e a virtude da santa.

A paixão de Joana tem início a 23 de Maio de 1430, quando cai prisioneira nas mãos dos seus inimigos. No dia 23 de Dezembro é conduzida à cidade de Rouen. É ali que se realiza o longo e dramático Processo de Condenação, que começa em Fevereiro de 1431 e termina a 30 de Maio, com a fogueira. É um processo grande e solene, presidido por dois juízes eclesiásticos, o bispo Pierre Cauchon e o inquisidor Jean le Maistre, mas na realidade inteiramente orientado por um numeroso grupo de teólogos da célebre Universidade de Paris, que participam no processo como assessores. São eclesiásticos franceses que, tendo feito uma escolha política oposta àquela de Joana, têm a priori um juízo negativo sobre a sua pessoa e a sua missão. Este processo é uma página devastante da história da santidade e também uma página iluminadora sobre o mistério da Igreja que, segundo as palavras do Concílio Vaticano II, é «simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação» (LG, 8). É o encontro dramático entre esta santa e os seus juízes, que são eclesiásticos. Joana é acusada e julgada por eles, a ponto de ser condenada como herege e enviada à morte terrível na fogueira. Diversamente dos santos teólogos que tinham iluminado a Universidade de Paris, como são Boaventura, são Tomas de Aquino e o beato beato Duns Scoto, dos quais falei em algumas catequeses, estes juízes são teólogos aos quais faltam a caridade e a humildade de ver nesta jovem a obra de Deus. Vêm à mente as palavra de Jesus, segundo as quais os mistérios de Deus são revelados àqueles que têm o coração das crianças, enquanto permanecem escondidos aos doutos e sábios que não têm humildade (cf. Lc 10, 21). Assim, os juízes de Joana são radicalmente incapazes de a compreender, de ver a beleza da sua alma: não sabiam que condenavam uma santa.

Leia o livro de Agnés Richomme sobre a santa libertadora da França.