Por onde andam os ludditas?

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fonte da imagem swis cognitive
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Calma lá, não sou nenhum adepto à filosofia anarquista, pura e simples. Mas confesso, às vezes, não vejo outra alternativa.

Nedd Ludd é um personagem fictício, que os trabalhadores ingleses, ao final do século XVIII, tomaram por patrono da luta contra a mecanização da produção — as máquinas.

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Ludd era um tecelão de Leicester que, após um ataque de fúria, quebrou as agulhas da máquina de tecelagem à marteladas. Anos mais tarde, grupos de trabalhadores revoltados com a queda de suas fontes de subsistência, usaram a fúria de Nedd Ludd como símbolo e começaram a quebrar máquinas e estruturas de estocagem das companhias. Os ludditas tornaram-se violentos, ateando fogo em edifícios, enfrentando o exército britânico, até ameaçando de morte magistrados e outras autoridades inglesas.

Aqui, no nosso mundo de hoje, o Portal do Agronegócio está anunciando que as exportações de soja e carne, entre esse ano de 2020 e 2021, esmagarão a economia interna do Brasil. Isso porque os chineses estão demandando por mais commodities e, os nossos empresários do agro, são reféns do capital chinês. Por outro lado, notícias da Reuters dão conta que empresas de varejo americanas andam substituindo mão de obra por máquinas. Se não bastassem as fábricas digitalizadas através de equipamentos inteligentes, ou ainda, a digitalização dos serviços destruindo setores como contabilidade e escritórios de advocacia; a operadora do caixa, o assistente da frutaria e o embalador do estoque estão sob contagem regressiva. Mais claro do que isso, impossível.

Quanto ao agronegócio, a indústria pecuária brasileira depende da ração de soja para engordar o seu rebanho, rebanho esse que pelo jeito fornecerá a carne para os chineses — mais de 50% da produção de carne vai para a China, a soja é mais de 70%. Não foi por acaso que no final de 2019 nossos açougues ficaram vazios, porque os chineses ancoraram vários navios e carregaram até as vacas magras dos nossos pastos. E por qual motivo a China precisa de tudo isso? Para alimentar os seus bilhões de trabalhadores enfurnados nas fábricas de lá. Em contra partida, os trabalhadores brasileiros seguem o caminho da míngua, inexoravelmente.

Agora, a automação do varejo é a última pá de cal sobre nós. As iniciativas da Amazon, Walmart e GAP, em colocar máquinas substituindo o serviço — na proporção de uma máquina por quatro pessoas — é um sinal de que os globalistas estão dizendo não aos trabalhadores e sim para inteligências artificiais, custe o que custar. Pelo o que estou entendendo, as forças ocidentais capitalistas descobriram que o Estado pode sustentar o mercado, e desta forma, não precisam mais fomentar as iniciativas empreendedoras e nem pagar extensas folhas de pagamento. Basta automatizar tudo e oferecer um “bolsa família” universal para cada chefe de família, como anda falando o senador José Serra e sua turma.

O resumo da ópera é: estamos ficando famintos e sem dinheiro.

O fato é que, não posso analisar estes movimentos pelas suas ações, simplesmente, mas pelo o que eles representam nos processos históricos. Isto é, como lembra o professor Olavo, tudo que começa em germe, mais tarde torna-se uma monstruosidade incontrolável.  A leitura radical que os ludditas fizeram não seria aconselhado aos nossos dias, uma vez que, do ano 1800 para cá, o mundo modificou-se em muitos sentidos. Os Estados se tornaram mais fortes e globalizados, as forças de esquerda sequestraram de vez a mente dos trabalhadores, e as empresas deixaram seu caráter unívoco de processadoras de insumos para um ecossistema de corporações transnacionais controlando leis, regulamentos, e um inabarcável número de normas sociais.

Alguém que se propõe ao ludditismo hoje, precisa ser mais inteligente que as Corporações, Estados e movimentos de esquerda. Esse ludditismo não pode ficar iludido com um nacionalismo utópico ou com um potencial apoio corporativo. O verdadeiro luddita de nossos dias não é aquele que quebra as máquinas — mesmo porque agora são códigos algoritmos —, nem o que enfrenta a polícia — pois a polícia será substituída por exoesqueletos autônomos. Precisamos de ludditas na cultura. Verdadeiros Nedd Ludds que carreguem o imaginário do povo para um novo patamar. Alguém que corrobore com as ideias do professor Olavo, no tocante a construir um rico imaginário popular. Aquele que pode abrir novas alternativas e possibilidades. Neste caso, seria um luddita às avessas, um luddita construtor e não destruidor. Alguém que tem como arma a perspicácia mental e não um martelo — muito menos a foice.

Neste sentido, eu pergunto: “por onde andam os ludditas?”.

Fontes citadas:

Reuters – https://www.reuters.com/article/us-health-coronavirus-gap-automation-foc/gap-rushes-in-more-robots-to-warehouses-to-solve-virus-disruption-idUSKBN22X14Y

Portal do Agronegócio – https://www.portaldoagronegocio.com.br/noticia/venda-de-soja-20-21-pode-chegar-a-50-ate-o-plantio-importacao-e-possivel-diz-safras-196289