O “fica em casa” é até quando? O dilema médico do isolamento horizontal ou vertical

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Foto: Mike Hewitt/Getty Images.
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O Brasil e o mundo passam pelo maior desafio de nossa geração. A pandemia provocada pelo coronavírus provocou uma total desestruturação do sistema como o conhecemos. Isso é causado pelas muitas mortes que já houve e de muitas outras que estão por vir nos próximos meses, além de um golpe destruidor na economia. E exatamente por ainda desconhecermos muitas das faces do inimigo que é o vírus, não temos ainda as soluções para sair dessa encruzilhada. A primeira premissa que temos que ter em mente é que qualquer que seja a solução, salvo o surgimento de uma droga milagrosa em um curto período de tempo (improvável), teremos muitas e muitas mortes. A outra opção, que seria uma vacina, é praticamente impossível antes de um ano ao menos devido a todos os processos obrigatórios que envolvem a administração de uma vacina numa população de sete bilhões de pessoas. Então estamos num dilema real e não num falso dilema como alguns querem fazer crer baseados em premissas falsas: vai morrer mais gente se partirmos para o isolamento vertical mantendo distanciados idosos e grupos de risco ou se ficarmos meses com a economia em frangalhos? O Brasil precisa decidir isso e apostar na sua decisão por meio de um pacto social. O presidente precisa decidir o caminho e seu ministro quem quer que seja usar a ciência para se obter o melhor resultado. O que não pode ocorrer por ser quase uma distopia é o ministro da Saúde ter um pensamento diferente do presidente num regime presidencialista. Nesse momento de troca de ministros é importante se ter em mente que o próximo ministro deve ser alguém técnico baseado na ciência e que prepare o Brasil para o momento da saída do isolamento horizontal com segurança. Há vários respeitáveis nomes sendo cogitados para ministros, mas não vi nenhum se manifestar de forma clara sobre o tema. Noto muitas tergiversações.

Muitos dos estudos utilizados para cenários apocalípticos no Brasil de milhões de mortes como o do Imperial College inglês fizeram uso de premissas literalmente “chutadas” sempre se utilizando o cenário mais grave e sem conhecerem a realidade brasileira. Um artigo publicado na BMJ (Wynants e cols) em abril, uma das revistas científicas mais importantes do mundo, mostrou que esses estudos que nortearam os governos a formularem suas políticas de combate ao coronavírus são ruins metodologicamente e com muitos vieses. Esses números foram comprados pela mídia e por alguns médicos como cenários fiéis da realidade. Quem os questionava era instado a ter de provar o contrário com dados robustos. Dados esses que não existem já que todos nós estamos num cenário desconhecido e conhecendo a doença aos poucos. Mas até o momento nunca vi a mídia ou os pesquisadores propagadores do isolamento social horizontal duradouro terem de provar que suas ditas verdades têm fundamento científico. Sempre se defendem dizendo que é o que a OMS e o Ministério da Saúde sugerem. A verdade é que essa tática nada mais é que uma imitação do que a China fez na região de Wuhan com todas as limitações de avaliação externa que o regime chinês traz com ele. Importante dizer também que quando alguns desses pesquisadores se arvoram no sentido de dizer que falam por todos os médicos quando defendem o isolamento horizontal por longos períodos de tempo, eles estão mentindo. Eles não têm esta legitimidade. Eles falam somente por eles. A instituição que poderia ter essa legitimidade é exclusivamente o Conselho Federal de Medicina por ser a única eleita por todos os médicos e mesmo assim nós tomamos muito cuidado no que falamos. Eu, por exemplo, mesmo sendo o representante eleito pelos médicos do Rio de Janeiro para os representar em Brasília, jamais na vida falei que minha opinião representava a de todos os médicos do meu estado. Seria muita petulância de minha parte. O governador Doria repetiu várias vezes que busca um isolamento social de 70%. Então de onde tiraram o número de 70%? E por que a mídia não questionou este valor? Mas baseado em que ele inventou esse número?! Hoje mesmo, dia 16/04, foi publicado um estudo de pesquisadores do Butantan e da Fiocruz que chegou ao número de 40% de isolamento baseado em modelos matemáticos para se ter segurança no enfrentamento ao coronavírus. Se repararem, 40% é mais ou menos o somatório da população de idosos com os outros grupos com fatores de risco no Brasil, o que sugere que o isolamento vertical protegendo esses grupos poderia por si só fazer o controle da pandemia, contanto que o Estado dê condições para que o isolamento seja bem feito.

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A mídia que é tão rápida em dar como fake news dados que ela não concorda, mas é inoperante em discutir as atuais políticas do Ministério da Saúde. Hoje também foi noticiado que a Alemanha e outros 13 países da Europa estão saindo de suas quarentenas mesmo sendo muito mais ricos e com mais casos. Já aqui no Brasil falar de saída virou tabu.

Dito isso, é importante dissertarmos sobre as soluções que são propostas a curto e médio prazo para a pandemia. A primeira solução é cópia do que foi feito na China: isolamento social com diversas matizes de rigor. Os epidemiologistas e infectologistas que são tão rígidos em exigirem evidências científicas de tudo quando eles não concordam, não mostraram nenhuma evidência científica de que isso funciona. Partem do princípio óbvio de que o vírus é transmitido de pessoa para pessoa e que sem contato não há infecção. Perfeito! Não estão falando nada de genial e só repetem o óbvio que qualquer criança sabe. Muitos desses discordaram quando eu e outros defendemos a educação sexual baseada também na abstinência sexual embasados na premissa de que sem relação sexual não há gravidez. Óbvio também. Mas não para eles que fizeram chacota de quem a defendeu! Voltando à questão do isolamento social. A premissa é perfeita. Só se esquecem de dois pontos. O primeiro é que é impossível um isolamento perfeito impedindo as pessoas de não terem contato umas com outras. Existem as ocupações ditas essenciais que englobam milhões de pessoas para servir aquelas que ficam em casa e abarcam inclusive os jornalistas que rapidamente conseguiram incluir sua profissão no rol das essenciais. Muitos desses jornalistas que ficam diuturnamente falando “fica em casa” estão liberados de seguirem essas regras. As audiências inclusive batem recordes dia após dia já que há muito mais gente nos domicílios. Foram escolhidos para morrer também médicos e enfermeiros que trabalham muitas vezes sem equipamentos de segurança com taxas de infecção e mortalidade altíssimas quando comparadas com as da população.  Além de caixas de supermercado, lixeiros, entregadores de comida, policiais, bombeiros e milhões de outros. Além daqueles que se seguirem esse mantra vão morrer de fome. Então a premissa de que o vírus não vai circular bastante é falsa como uma cédula de 3 reais, ainda mais no Brasil se levando em conta fatores econômicos, culturais, educacionais e demográficos. A segunda questão é que a destruição da economia levará muito rapidamente ao caos nas finanças públicas e a um enorme desemprego que aumentarão em muito as mortes advindas de um sistema de saúde que não terá dinheiro para pagar seus profissionais, da violência urbana, do desemprego que levará mais gente ainda para o SUS e da falta de pagamento de aposentados. Esses mesmos especialistas que parecem só servir para ficarem repetindo fica em casa provavelmente sumirão quando se tiver que arrumar as soluções para um sistema de saúde destruído por falta de dinheiro para pagar salários, inclusive os deles já que a maioria é funcionário público também. Certamente não serão juízes e políticos que ficarão sem salários já que como ocorreu na crise recente no Rio de Janeiro, eles faziam arrestos de contas públicas para pagarem seus salários enquanto a saúde chorava e continua sofrendo. Artigo publicado na The Lancet Global Health, em 2019 mostra o impacto da recessão econômica no Brasil com o aumento da mortalidade em populações vulneráveis, entre 2012 a 2017. Houve aumento das taxas de mortalidade adulta em 4,3% entre 2012 e 2017, de acordo com a pesquisa. A economia do Brasil contraiu quase 8% entre 2014 e 2017, o que resultou em aumento do desemprego e maior pobreza. Os pesquisadores descobriram que isso levou a uma maior taxa de mortalidade, concentrada em negros e pardos, homens, e pessoas em idade ativa. O estudo examinou as taxas de mortalidade em 5.565 municípios brasileiros entre 2012 e 2017. Os pesquisadores atribuem 31.000 mortes adicionais à recessão. Percebam que uma recessão que provavelmente terá sido de muito menor magnitude do que a que está por vir provocou mais de 30000 mortes! É importante citar um exemplo brasileiro de revista respeitada porque os estudos internacionais de forma geral mostram que em países desenvolvidos com forte proteção social, as recessões embora aumentem as taxas de suicídio (na recessão de 1929, chegou a dobrar nos EUA), até diminuem a mortalidade. Isso ocorre provavelmente porque há diminuição no consumo de álcool. Então é um fato que acalma bastante os países ricos a ficarem em casa por longos períodos. Mas no Brasil a história é outra! E eu estou falando como um médico do estado do Rio de Janeiro que recentemente passou por uma grave crise que desestruturou até hoje o sistema de saúde com falta de pagamento de médicos provocando demissão em massa, contratação por organizações sociais, hospitais e clínicas da família sucateados, contratos trabalhistas precários com alto índice de calote e população desassistida sem conseguir acesso a médicos nem para fazer um simples pré-natal. Durante muitos meses o estado do Rio de Janeiro parcelou salários e até hoje não pode dar aumentos de salário por estar em programa de recuperação financeira. O discurso de que a União vai ter que dar dinheiro me causa estranheza porque até há poucas semanas atrás, só se falava que o Brasil estava falido, que se tinha que fazer reformas disso e daquilo, privatizar tudo, que o SUS tinha que ser destruído, que funcionário público era parasita. Afinal, senhores economistas, o Brasil tem ou não tem dinheiro? Se tem dinheiro, sou o primeiro a defender que tem que ficar todo mundo em casa e o governo pagando as contas. Mas se não tem, precisamos estudar muito profundamente qual tática iremos usar: isolamento horizontal por muitos meses ou isolamento vertical o mais rápido possível.

É importante a gente avaliar as variáveis que nos permitiriam sair do isolamento horizontal. O primeiro seria uma vacina eficaz e segura. Mesmo os mais otimistas dizem ser impossível surgir antes de um ano. O segundo seria um remédio eficaz seja na prevenção ou no tratamento. Nada até o momento. E o terceiro seria a dita “imunização de rebanho”. Vamos nos alongar mais nesse tópico porque é o único que podemos atingir com menos tempo sem depender de nada “milagroso”. Imunização de rebanho é quando se atinge uma parcela X da população que após infectada tende a impedir o avanço do vírus por começar a “faltar” pessoas para impedir sua propagação em larga escala. Estima-se que isso vá surgir quando cerca de 60 a 80% da população já tiver tido contato com o vírus. No atual cenário de isolamento, isso vai demorar muitos meses. Para tornar o debate mais complicado, saiu essa semana um estudo na prestigiada revista científica Science que mostra que, sem vacina, o distanciamento pode ir até 2022. Mais um detalhe: não há nenhuma garantia de que se terá vacina. Basta se ver o exemplo do HIV. E para piorar, esse mesmo estudo usando modelos epidemiológicos supõe que a imunidade ao novo coronavírus pode ser temporária. Ou seja, alguém infectado pode se contaminar novamente. Isso sendo realidade, o isolamento teria de ser eterno sem vacina ou medicação. É óbvio que isso não se sustenta. A história da humanidade é repleta de epidemias de patógenos muito mais agressivos que matavam mais de 50% dos infectados. Recentemente, tivemos o Ebola que ocorreu em um perímetro geográfico localizado. Mas já tivemos a Peste Negra que foi em toda a Europa vinda da Ásia. Veio, matou e sumiu. A Gripe Espanhola ceifou a vida de mais de 50 milhões de pessoas em todos os continentes. Na cidade de São Paulo durou cerca de dois meses, infectou cerca de dois terços de seus 500 mil habitantes, matou 5000 e sumiu. Uma taxa de mortalidade muito semelhante à do atual coronavírus. Mortalidade essa difícil de saber e que varia país a país muito mais pela variável testagem que pelo comportamento do vírus porque até onde se sabe não houve ainda alguma mutação que o tenha tornado mais ou menos letal em diversas partes do planeta. E aí vem o outro grande ponto para se pensar numa saída do isolamento: os testes!

Lamentavelmente, o Brasil nesse quesito está atrás da maioria dos países desenvolvidos do mundo. É muito baixa a testagem da população. Para compensar a incompetência em oferecer testes em larga escala para a população, o Ministério da Saúde fez uso de protocolos que autorizam testar somente casos graves e mortos. Isso aumenta em muito a mortalidade já que os casos leves e assintomáticos que não morrem nem sequer são testados. Não é aceitável essa falta de testes com a desculpa surrada de que os insumos vêm de fora. Não é possível que o Brasil tendo tantas empresas públicas e privadas nessa área não consiga produzir esses reagentes. Importante lembrar que desde dezembro que já se sabia que o vírus iria chegar. E as semanas vão se passando e a desculpa não muda e sempre completadas com as promessas que chegarão milhões de testes de forma e, até agora, nada. Mas o problema não é só esse: os testes não são tão confiáveis para se permitir uma saída segura. Basicamente há dois tipos de testes: PCR e sorológico. O PCR vê se a pessoa está com o vírus no momento seja assintomático ou doente. Sua sensibilidade depende de onde ele é coletado. O mais realizado é pela nariz e orofaringe que tem uma sensibilidade segundo estudo publicado na JAMA de 65%. Ou seja, ele erra em um terço de quem possui o vírus. É um teste caro que a maioria da população não tem como pagar e o governo não disponibiliza em grande número. Mas reparem que os políticos e os ricos fazem com grande frequência contrariando os protocolos que eles mesmos fizeram para a população pobre de só realizar em pacientes graves. São inúmeros as entrevistas de políticos e médicos gestores assumindo que fizeram o teste em si ou em seus familiares mesmo sem sintomas ou com sintomas leves. Eles não têm pudor em assumir que não seguem os protocolos criados por eles mesmos. A grande utilidade desse teste é isolar os positivos e testar os contatos para isolar possíveis infectados, mas com a baixa disponibilidade para a população e a sensibilidade de diagnóstico não tão boa essa estratégia fica prejudicada. O outro tipo de teste é o sorológico que tem sua utilidade maior em detectar anticorpos em quem já foi infectado e muitas vezes já está curado. Ele serve para atestar uma suposta imunidade que em alguns países se cogita dar um “passaporte da humanidade” para passe livre de quem já tem anticorpos. Isso fica temerário com o fato de não se saber se a imunidade é duradoura. Reparem que no atual momento os testes não estão nos ajudando muito a sair do isolamento dito horizontal com segurança, mas é provável que com o passar do tempo esse cenário melhore. Outras medidas importantes para uma saída segura do isolamento seria um isolamento eficaz dos infectados, o que é bastante difícil em cidades com grandes áreas pobres com muitas pessoas em pequenos cômodos, testagem de todos os contatos, notificação eficaz dos casos e isso não vem ocorrendo sendo comuns casos de pessoas infectadas circulando livremente. Em outros países essas pessoas são monitoradas pela polícia. Não temos tecnologia mínima de monitoramento de casos e contactantes como há em outros países que migraram para um isolamento vertical. A própria cultura do “jeitinho brasileiro” é péssima nesse momento de haver muitas vezes desprezo com a coletividade com pessoas infectadas não se preocupando com os outros e leis pouco eficazes em impedir isso.

Podemos usar como bússola experiências de outros países, mas isso não vem ajudando muito. Temos desde países que liberaram tudo e nada muito grave ocorreu até o momento, como a Nicarágua e outros como Japão e Suécia que mantiveram uma rotina com poucas mudanças e nenhuma catástrofe ocorreu além de infecções numa curva esperada, até países que num primeiro momento tentaram não ter muitas mudanças e entraram numa espiral catastrófica de casos como Espanha, Itália e parte dos EUA, notadamente países muito turísticos de pessoas do exterior. Temos também países como a África do Sul que se prepararam de forma similar ao Brasil e, até o momento, os casos são mínimos. Temos o exemplo da Coreia do Sul que fez testagem maciça e conseguiu rapidamente melhorar seu cenário. Portugal também é um caso interessante de ter fechado e impedido de chegar ao caos do seu vizinho, a Espanha. Mas de uma forma imparcial, eu não consigo ver avaliando os diversos exemplos de vários países, um modelo que se possa chamar de ideal. Inclusive, nem se sabe ainda se a temperatura tem influência na taxa de infectividade do vírus. Se tiver, o Brasil estará com o isolamento empurrando o pico da curva para o inverno. Pode ser catastrófico. França e Itália já estão tentando sair de forma gradativa do isolamento social horizontal. Por aqui, a mídia vem tratando isso como tabu e os especialistas ouvidos por ela fogem da pergunta de quando o isolamento horizontal irá acabar sempre repetindo o bordão do “fica em casa” e a cada semana empurrando o “pico da curva” para cada vez mais longe, já sendo motivo inclusive de memes. Já há um que coloca um político de cabelo branco dizendo que o pico será em 2030. É preciso uma resposta. Há necessidade de previsibilidade.

Outro problema que temos é que as instituições que a mídia resolveu colocar como perfeitas na condução da pandemia, tiveram suas falhas e têm suas reponsabilidades no alastramento: OMS e Ministério da Saúde. Comecemos pela OMS. A OMS é uma instituição de forte viés ideológico progressista. Há tempos defende a descriminalização do aborto e pautas progressistas. Sempre teve uma tolerância grande com países de esquerda, inclusive chancelou recentemente a declaração da Coreia do Norte de que está livre do vírus. Como saber se é verdadeira qualquer informação advinda da Coreia do Norte? A OMS diminuiu a gravidade da doença quando surgiu na China, só reconheceu a transmissão por humanos um mês após ter surgido na China, demorou a declarar pandemia e demorou a orientar a fechar aeroportos, ignorou as advertências de Taiwan quanto à gravidade. O presidente Trump acertou em cortar verbas para essa instituição. Vamos ao MS. Lembremos que o Brasil teve um carnaval como se não houvesse amanhã. A mídia ainda não deu a importância que isso merece. O vírus comprovadamente já circulava no Brasil no carnaval já que o primeiro caso confirmado no Brasil entrou vindo da Itália dia 21 de fevereiro, um dia antes do carnaval. O caso foi confirmado dia 26. Seria óbvio que voos lotados de turistas ávidos por multidões de beijos na boca em uma população jovem seria um caldeirão de vírus que lançariam a infecção nas semanas seguintes. O carnaval teria de ser cancelado no Brasil todo e os aeroportos fechados. Mas o que se viu foi o MS dizendo na época que fechar aeroportos não era efetivo. Como não é efetivo impedir entrada do vírus no Brasil? Aliás, se não é efetivo, por que os voos internacionais estão cancelados agora? As próprias pessoas que voltaram para o Brasil nessa época têm suas parcelas de culpa. O próprio ministro da Saúde disse em 26/2 que “fechar aeroportos é ineficaz. É só uma gripe”. Lembrar isso não é ser crítico de obra pronta como disse o ministro quando criticado. É se constatar o óbvio e digo isso com muita tranquilidade porque eu fui um dos poucos que falou na época de forma peremptória que o carnaval deveria ter sido cancelado. Não vi nenhum desses prefeitos e governadores hoje cheios de autoridades cogitando fazer isso na época. Talvez por ser impopular ou medo de perder receitas. É assustadora a informação de que na última semana de fevereiro desembarcaram no Brasil vindas de países focos do coronavírus 92 mil pessoas sem qualquer controle! Imaginem quantos desses não estavam infectados? O carnaval no Brasil foi a mesma irresponsabilidade das comemorações das feministas na Espanha defendendo o aborto quando no dia 8 de março saíram às ruas defendendo o aborto já no meio da pandemia e os estudiosos dizem que foram estas passeatas que foram uma das culpadas pelo caos na Espanha. Passeatas essas louvadas pela imprensa progressista e defensora da descriminalização do aborto, lamentavelmente. A defesa da morte de bebês trouxe a morte pelo coronavírus.

Talvez o maior gargalo para uma saída segura seja a construção de um sistema de saúde capaz de atender ao grande aumento de casos que se espera que ocorrerá. Sabe-se que a COVID-19 tem uma grande capacidade de saturar o sistema por provocar internações muito prolongadas e que precisam de UTIs em cerca de 10% dos casos. Então se tem um leito de UTI ocupado por semanas impedindo uma rotatividade que mantenha o sistema de saúde saudável. Para piorar, cerca de metade desses casos que vão para a UTI morrem. Então se coloca como medida necessária para se sair do isolamento horizontal se ter um número X de leitos de UTI que permita o sistema nunca entrar em “colapso”, ou seja, não haver falta de leitos para quem precisa. Concordo, mas algumas digressões são necessárias. Este termo “colapso” como sinônimo de não se conseguir leito de UTI como sendo algo novo me causa estranheza. Como médico que sou há 19 anos, desde que me entendo por gente, há dificuldades de a população pobre conseguir esses leitos e, muitas vezes, nem com determinação judicial conseguem quando precisam. Então acho que o sistema sempre esteve em colapso e não nos avisaram. Agora, a mídia coloca como colapso quando a ocupação de leitos está em 100%. Mas sempre esteve em mais de 100%!! Quem inventou esse critério? Se estou mentindo, por que só se conseguia muitas vezes leitos em UTI com pedido na justiça e, muitas vezes, mesmo com ordem judicial não se obtinha. Os políticos passaram os últimos muitos anos só preocupados em tirar especialistas da assistência para baratear às custas de mortes da população pobre, só falavam em saúde básica colocando outras profissões fazendo o serviço de médico, pondo técnicos em saúde cubanos e formados fora para enrolarem a população, abrindo faculdades de medicina de fundo de quintal como se formar médico bom fosse algo trivial, achincalhando a medicina e os médicos com salários horríveis e sem condições de trabalho, não fizeram carreira de estado e ignorando o que a gente falava. A Inês agora é morta.  Certamente, muitas das mortes ocorrerão por essa falta de estrutura. Estamos fazendo o possível e continuaremos a salvar vidas, mas se até nós não estamos conseguindo nos proteger, imagine a população. A conta chegou. Realmente, não há especialistas nem equipamentos suficientes. Aprendam a nos ouvir. Medicina não é brincadeira. Temos então não só o gargalo de leitos de UTIs e de respiradores, mas também temos o de pessoal especializado para os manusear e simplesmente não teremos a curto e médio prazo pessoal especializado para isso já que a formação desses especialistas demora anos e nem se tem como trazer de fora, O Brasil ficou anos enrolando a população preocupado em colocar alguém vestido de branco para fazer de conta que a atendia com ideias absurdas como trazer cubanos e médicos formados na América do Sul, mas agora que se precisa de especialistas de verdade, foi pego com calças curtas. Ou seja, esse problema da falta de leitos com pessoal especializado também não será resolvido a médio prazo. É necessária uma política de estado responsável para isso pensando no futuro. Há necessidade de uma carreira de estado federal que o presidente nos prometeu e o ministro da Saúde não a fez. Criminoso gestores contratarem médicos para a pandemia por vínculos trabalhistas precários que já estão deixando desassistidos os que adoecem e famílias dos que morrem. No Rio, já são 25% de profissionais de saúde doentes por falta de EPIs e protocolos de segurança fajutos que priorizam a economia e falta de teste mesmo para quem adoece. Além de não ter segurança que vá receber. E nessa questão de protocolos de segurança, há mais uma falha do MS que ficou meses dizendo que máscaras deveriam ser usadas só por profissionais de saúde sendo que sempre se soube que elas dificultam a contaminação por impedirem o espalhamento das gotículas. Mas por questão meramente econômica, demoraram a falarem isso. Os próprios protocolos de equipamentos de proteção priorizam o custo ao invés da segurança como por exemplo no uso das máscaras N95 que o CDC americano preconiza o médico usar atendendo casos suspeitos ou contaminados e o MS até hoje diz não ser necessário. Obviamente pelo único motivo de eles não conseguirem disponibilizar para quem precisa. Para corrigir isso, o CREMERJ fez uma resolução obrigando o gestor a dar para o médico nesses casos no estado do RJ.

Outra forma de se sair da encruzilhada seria o surgimento de uma droga milagrosa seja para a prevenção ou para o tratamento. Embora haja diversas pesquisas em curso e alguns resultados promissores, não podemos dizer baseados em um nível de evidência razoável que alguma droga seja realmente efetiva. Portanto, no momento, não temos como ter uma decisão segura para nenhum lado. Hoje, aprovamos pelo CFM no qual sou conselheiro uma nota autorizando que o médico use a cloroquina se julgar necessário. O médico deve ter sua autonomia preservada em adotar uma droga off-label.  Com uma letalidade muito provavelmente de em cerca de 1%, a pendemia provocará danos, mas sobreviveremos se agirmos com coragem e seguindo os rumos da ciência. Aproveitar o tempo desse isolamento para conhecer melhor o inimigo e preparar-se para a guerra que será longa. É importante comprar respiradores, aumentar número de leitos e de testes, capacitar profissionais, comprar equipamentos de proteção para nossos médicos e enfermeiros que foram jogados para morrer pelos governantes desprotegidos para atenderem a população e cuidar dos nossos idosos e com fatores de risco. Fazendo isso tudo, vamos voltar!

É preciso honestidade intelectual nesse debate. A verdade é que faltam dados robustos para embasar qualquer decisão. Então nesses momentos a precaução exagerada é sempre mais indicada. Só estou sentindo falta de a mídia perguntar para seus especialistas o que os gestores farão daqui a uns dois meses quando com a quebra da economia não houver dinheiro para pagar médicos e policiais como ocorreu recentemente no Rio. Porque assim como milhares de mortes são esperadas se acabar o isolamento, outras milhares ocorrerão sem salários e sem aposentadorias para se pagar aos idosos. Vou dar um exemplo: há dois anos denunciei que a mortalidade materna na cidade do Rio em 2017 tinha explodido pelos números oficiais da prefeitura para 84 em cem mil nascidos vivos (depois o número da prefeitura foi corrigido pela própria prefeitura para 81). No Japão é 3. Bom, o número oficial de 2019 é de 84! Ou seja, aumentou. Praticamente, não há mais obstetras atendendo no pré-natal público. Conseguir ser atendido por médicos na rede básica é tarefa muito difícil. Alegam falta de verba. O dinheiro não vai brotar. Então eu peço que esses especialistas tragam estudos nesse sentido nesse período necessário de isolamento para podermos decidir melhor. Dito isso, é fundamental sim um período de isolamento horizontal de cerca de um mês para entendermos melhor a doença, as experiências dos outros países em estágios mais avançados e principalmente preparar o SUS e comprar equipamentos e material de proteção para profissional de saúde. Os hospitais precisam ficar com movimento menor para atender esses casos. Está claro que estão menos cheios. Fiz diversas fiscalizações e o movimento de trauma está muito menor. Assim como cirurgias eletivas foram canceladas desafogando o sistema, mas em algum momento terão de ser feitas. Já há relatos de aumentos de mortes por infartos, mortes em casa por vários motivos e suicídios. Isso dá tempo para se preparar se forem competentes. Mas e o amanhã? Não se terá como fugir dessa decisão salvo surja uma cura muito rápida (difícil) ou uma vacina em poucos meses (difícil também). Eu proponho se preparar para um isolamento dos grupos de risco com vigilância estreita e com o governo pagando isso para famílias carentes, ao mesmo tempo que se faça formas de se diminuir atendimentos no sistema de saúde, tais como evitar festas, aglomerações grandes e bebidas alcoólicas para evitar traumas e agressões, além de controle de voos internacionais até a imunização de rebanho ocorrer ou a vacina surgir. Nem eu nem ninguém nesse momento é o dono da verdade. O que se fala hoje amanhã já ficou ultrapassado. Mas é preciso se ouvir vários lados. As próprias autoridades de todos os governos e da saúde não ajudam a dar credibilidade às recomendações. Falam uma coisa um dia e outra no seguinte. Exemplo, dizem para a população para só testarem se for caso grave, mas basta um resfriado ou um contato com um infectado que eles já se testam. Enquanto isso colegas meus no front não conseguem testar mesmo bastante sintomáticos e precisam se afastar do atendimento. Os médicos, enfermeiros e o SUS que foram e continuam abandonados por nossos governantes e classe alta são linha de frente do combate à pandemia. Não haverá como políticos fugirem para se tratar em países ricos pois fronteiras estão fechadas. Com o sistema de saúde cronicamente em colapso, os médicos estão atendendo o número crescente de casos de COVID-19 em hospitais sucateados e muitas vezes sem os gestores darem sequer uma máscara. Os erros são das três esferas. O município do Rio e de quase todos os outros municípios do país têm muitas clínicas da família sem médicos onde até colher um preventivo é difícil, alta rotatividade por fazerem contratos PJ com muitos calotes e fim de várias equipes de saúde da família. O estado do Rio por pagar 1500 reais para médico estatutário sem aumento há anos provocando demissão em massa e o federal por não ter feito a prometida carreira de estado para médicos e agora ter de recorrer a medidas duvidosas como contratos emergenciais, telemedicina e querer que médicos deem atestados sem ver o paciente enquanto os ricos são vistos em casa. Nós médicos e outras poucas profissões estaremos no front enquanto quase todos estarão em casa porque é nosso dever. Mas após tudo isso passar, lembrem-se da saúde e parem de falar só em reformas e diminuir gastos.