Subserviência ou morte – Tudo na OMS, nada contra a OMS, nada fora da OMS

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Subserviência ou morte

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Tudo na OMS, nada contra a OMS, nada fora da OMS. Trata-se do axioma mandatório no Brasil, ao menos consoante o mantra midiático, repetido mimeticamente por diversas autoridades públicas, tais como governadores e prefeitos, e tornada aparentemente vinculante e inderrogável com a recente declaração do ministro do STF, Gilmar Mendes, no sentido de que qualquer iniciativa do governo federal destoante da Organização Mundial da Saúde não será validada pela corte. Em suma, a única escolha do país é submeter-se aos organismos internacionais –  convertidos na instância superior máxima.

Entre um misto de temor causado pela ignorância, e um apego ilusório na indefectibilidade dos organismos internacionais, as classes falantes convenceram-se e, por corolário, convenceram a população de que, seja qual for a orientação da OMS, deve ser religiosamente seguida. Para tanto, a mídia sistematicamente replica o protocolo da OMS e o endossa apenas com entendimentos confirmatórios de especialistas concordantes, limando, desse modo, o contraditório. Cria-se, pois, um consenso artificial, cujo propósito é desacreditar de antemão as oposições, em operação similar à praticada quando se discute o aquecimento global. A bem da verdade, nesses tópicos, a discussão nem é bem-vinda porquanto a impressão passada pela imprensa é de que há unanimidade, como quanto ao isolamento social, que seria fruto tão só da desapaixonada e desinteressada análise científica estrita.

O objetivo é evidente: excluir paulatinamente as vozes divergentes, erigindo pretensos dogmas científicos –  paradoxais per se, uma vez que a ciência é (ou deveria ser) intrinsecamente dialética e constantemente revisável. Ora – bradam os bem-pensantes – com ciência não se discute, afixando que a OMS é a ciência em si. Com efeito, prepara-se o terreno psíquico para quando inevitavelmente o dogma for questionado; por mais que se apresentem estudos, dados e posições que contraponham a visão dominante, eles serão sumariamente rejeitados, catalogados infamemente de teorias da conspiração e de anticientíficos, sofisticamente assim envenenando o poço, ou, retoricamente, aplicando o estratagema do rótulo odioso[1].

Logo, concebe-se uma fictícia dicotomia entre os defensores e os detratores da ciência – verdadeiro conceito-fetiche, acarretando uma nova espécie de polarização, outra palavra de ordem do debate público midiático. Interessante é que, ao mesmo tempo em que essa famigerada polarização é condenada e imputada na conta dos mesmos anticientíficos, ou “ideológicos”, ela é promovida pela própria imprensa ao bifurcar a discussão entre dois pólos – um cientificamente esclarecido e outro soi-disant obscurantista, sucedâneo direto da concepção marxista e divisória entre ciência e ideologia. “Para Marx, ciência é o oposto de ideologia e também a cura para ela […] Essa teoria é eficaz não apenas porque serve ao propósito de ampliar e legitimar o ressentimento mas também porque é capaz de apresentar as teorias rivais como ‘meras ideologias’.”[2]

Nesse compasso, até a crítica, inerente à democracia, passa a ser malvista, como se determinadas instituições estivessem imunes a ela: assinalar os equívocos da OMS seria, sob esse torpe viés, um sinal de maquiavelismo e psicopatia social em afronta à verdade absoluta. Ironicamente, tanto a imprensa quanto a OMS ou os demais organismos internacionais são eles mesmos pertinazes críticos, constituindo seu mister em apontar falhas e defeitos nas áreas em que se arrogam o direito e o dever de fiscalizar; contudo, postam-se como se estivessem divinamente acima do juízo do bem e do mal, e que divergências contra si são ataques injustificados, motivados pelos mais ignominiosos anseios, o que poria em risco as liberdades, a democracia, e a vida das pessoas.

Portanto, neutraliza-se a discordância, proibindo que se relembre ter a OMS declarado no princípio que a COVID-19 não se transmitiria entre humanos; que tenha aceitado passivamente os dados contestáveis da China; ou a hesitação em elevar o nível de risco de contaminação global do vírus por pressão chinesa, bem como que por essa mesma razão a OMS simplesmente ignora Taiwan. Esses são só alguns dos exemplos a serem censurados supostamente para que o vírus não seja politizado, como reagiu o diretor da OMS diante da ameaça de Donald Trump de cortar o financiamento americano ao organismo.

A fé cega nessa espécie de absolutismo pseudocientificista projeta a OMS como a liderança suprema e a necessidade de subserviência aos seus mandamentos sacrossantamente inquestionáveis.


Referências:

[1] SCHOPENHAUER, Arthur. Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão: Em 38 estratagemas (Dialética Erística). Introdução, notas e comentários Olavo de Carvalho. Tradução Daniela Caldas e Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, p.174.

[2] SCRUTON, Roger. Uma filosofia política: Argumentos para o conservadorismo. Tradução Guilherme Ferreira Araújo. 3.ed. São Paulo: É Realizações, 2017, p.184 e 188.