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Desde antes de eleito, a mídia e as classes falantes apontam pretensos indícios de que Jair Bolsonaro estaria acalentando um projeto populista autoritário e representaria, portanto, um sério risco à democracia.

Nesse momento de crise e pânico generalizado, as suspeitas seguem sendo fomentadas, criando-se narrativas e interpretações a bel prazer de cada ato presidencial, escrutinando intenções subjetivas que estariam por trás de qualquer ação do governo.

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E é aí que reside o paradoxo. Aproveitando-se do clima apocalíptico, e invocando a desculpa usual da excepcionalidade – utilizada pelas ditaduras para se instalarem, são na realidade os governadores e prefeitos que decretaram medidas típicas de regimes totalitários para combater o soi-disant inimigo comum, com o endosso cego da imprensa inteira, lastreando-se na autoridade inatacável dos organismos internacionais – os mesmos que recomendam dietas à base de insetos; com efeito, o encerramento de empreendimentos comerciais e a consequente asfixia da iniciativa privada, o policiamento social, o recolhimento forçado de idosos das ruas e, last not least, o rastreamento de celulares com a coleta de dados financeiros e pessoais, sob o pretexto de controlar a disseminação do vírus e o fluxo de pessoas.

Veja-se, pois, que a inversão da ordem constitucional não parte da bête noire dos setores sedizentes democráticos – o governo Bolsonaro; a bem da verdade, são as draconianas medidas administrativas tomadas pelos outros entes federados que tolheram o mais elementar direito de ir e vir, o direito de livre reunião, a liberdade religiosa, além da privacidade, contra as quais, aliás, o presidente vem criticando.

O ataque à privacidade, especialmente, deveria provocar arrepios em qualquer pretenso autoproclamado defensor das liberdades civis, visto que a ingerência sobre a geolocalização pessoal, além das informações íntimas do cidadão, é uma clara opressão travestida de preocupação social, e uma mostra do soerguimento do Estado Leviatã sobre as individualidades. Os periódicos (sempre eles) chegaram a noticiar – na mais absoluta naturalidade, giza-se – a ideia de implantar chips de monitoramento nos cidadãos como salutar medida de saúde. Acabou o disfarce: é o grande irmão em estado puro, a concretização da utopia globalista escancarada.

A claque universitária, tão ciosa em escarafunchar de baixo da cama indicativos de opressão pelos poderosos empresários capitalistas, silencia pusilânime e conformada. Quiçá acostumada a focalizar miudezas e diversionismos, tolera esses abusos, não recorrendo aos arroubos de seus consagrados clichês automatizados pseudo intelectuais academicistas, tais como a docilização dos corpos foucaultiana, “sociedade de controle”, “sociedade neo panóptica”, “vigilância líquida”, “tecnologias do poder”, ou ainda pontuando o indefectível e polivalente neoliberalismo. Essa dita elite pensante, do alto de suas valorosas cátedras, ou é efetivamente cega para qualquer coisa que escape o seu limitado horizonte mental, moldado ao longo de anos dentro de asfixiantes parâmetros marxistas e  frankfurtianos, ou é estrategicamente ardilosa para saber quando calar. Ambas vertentes não são mutuamente excludentes – é bom consignar; ao invés, complementam-se e se nutrem autofagicamente, demonstrando uma torpe estreiteza moral.

Ironicamente, o vergastado e injustiçado presidente, sem dar vazão a qualquer iniciativa populista, muito pelo contrário, como o próprio já assinalou não se preocupar com sua popularidade, vem sendo uma das pouquíssimas vozes dissonantes contrárias às iniciativas repressoras adotadas. Ora, qual déspota se oporia a tão grandes controle social, invasão de privacidade e vigilância? A justificativa volátil da exceção ou emergência do momento foi e continua sendo um pernicioso precedente para a perseguição e a tirania, como diferentes momentos históricos demonstram por si só. Como diria Edmund Burke, “os meios criminosos, uma vez tolerados, tornam-se rapidamente preferidos, pois apresentam um caminho mais curto para o objetivo do que a estrada das virtudes morais.[1]


[1] BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França. Tradução, apresentação e notas José Miguel Nanni Soares. São Paulo: EDIPRO, 2014, p.101.

 

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