Papa Francisco decepciona esquerda e ecologistas em exortação conservadora

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Escrita pelo Papa Francisco, a exortação apostólica pós-sinodal, intitulada Querida Amazônia, foi um balde de água fria na esquerda católica, em ecologistas e em globalistas que desejam a “internacionalização da Amazônia”. Além da rejeição total das propostas dos padres casados (viri probati) e da ordenação de mulheres, Francisco reserva aos índios amazônicos um tratamento semelhante ao proposto por Jair Bolsonaro: torná-los “realmente humanos”, referindo-se ao isolamento material e cultural proposto por ONGs e a própria esquerda católica.

O presidente Jair Bolsonaro foi duramente atacado pela imprensa quando disse que os índios vinham sendo tratados como animais. Recentemente, o presidente lembrou que em sua gestão os índios vêm sendo tratados como “seres humanos como nós”. Agora, o Papa Francisco publica uma exortação contrária ao isolamento e ao descaso com os povos nativos da Amazônia, além de defender a sua evangelização.

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Pedindo especial atenção à evangelização dos índios, o Papa recomenda inspirar-se na tradição missionária da Igreja na América Latina, como São Toríbio de Mogrovejo ou São José de Anchieta. Para isso, o Papa pede uma urgente mudança na formação dos agentes de pastoral da Doutrina Social da Igreja, reclamando de uma hipervalorização da dimensão social em detrimento da espiritual.

“É sumamente importante uma adequada formação dos agentes pastorais na doutrina social da Igreja”, diz o Papa. “…a inculturação do Evangelho na Amazônia deve integrar melhor a dimensão social com a espiritual, para que os mais pobres não tenham necessidade de ir buscar fora da Igreja uma espiritualidade que dê resposta aos anseios da sua dimensão transcendente”, sinaliza.

“Naturalmente, não se trata duma religiosidade alienante ou individualista que faça calar as exigências sociais duma vida mais digna, mas também não se trata de mutilar a dimensão transcendente e espiritual como se bastasse ao ser humano o desenvolvimento material.” (75 e 76)

A respeito das agressões à Amazônia, o Papa não dá nenhum ultimato a Bolsonaro, como esperavam os militantes, mas aponta os perigos dos interesses internacionais e de grupos interessados em obter lucro na região, que chegam ao ponto de “provocar intencionalmente incêndios florestais”, subornar políticos e nativos em nome de interesses estranhos: “Não podemos permitir que a globalização se transforme num novo tipo de colonialismo”, denuncia Francisco.

O problema da ideologia, sinalizado por diversas vezes pelo Pontífice, aparece aí como um claro alerta do novo tipo de colonialismo produzido pelos grupos internacionais que visam eliminar as fronteiras políticas como símbolo das fronteiras morais que os limita. Na própria encíclica Laudato Si, Francisco não se cansa de chamar a atenção para a falta de um cuidado com uma “ecologia integral”, humana, não apenas material, tema já trazido por seu antecessor, Bento XVI.

Citando ainda o papa São João Paulo II, Francisco pede “uma globalização sem marginalização”, clamando pelo protagonismo dos povos nativos da Amazônia, que devem ter o direito de dizer o que é, de fato, o seu “bem viver”, não cedendo às determinações de grupos alheios a eles.

O documento rejeita fortemente um “indigenismo completamente fechado, a-histórico, estático, que se negue a toda e qualquer forma de mestiçagem”. E acrescenta: “uma cultura pode tornar-se estéril, quando «se fecha em si própria e procura perpetuar formas antiquadas de vida, recusando qualquer mudança e confronto com a verdade do homem»”.

Francisco dá uma alfinetada nos ecologistas radicais ao rejeitar um “conservacionismo” que ignora as pessoas em benefício dos biomas. Na mesma linha, jogou areia nos que pretendiam usar o documento para defender a internacionalização da Amazônia.

“Com efeito, além dos interesses económicos de empresários e políticos locais, existem também «os enormes interesses económicos internacionais» Por isso, a solução não está numa «internacionalização» da Amazónia, mas a responsabilidade dos governos nacionais torna-se mais grave”.

Ordenação de padres casados e sacerdócio feminino

A exortação, que veio em resposta às milhares de reivindicações reunidas no Sínodo da Amazônia, cujo documento de trabalho teve a participação de Dom Claudio Hummes, também deixou a ver navios algumas propostas que ficaram mais conhecidas do público, como a ordenação de mulheres e a abolição do celibato sacerdotal, a chamada ordenação de padres casados (viri probati). Da mesma forma, o Papa reafirmou a importância dos Sacramentos ministrados pelos sacerdotes e o papel essencial do sacramento da Ordem.

Às mulheres, Francisco manteve o elogio ao seu papel na evangelização e como missionárias, elevando seu papel, mas lembrando que a proposta de sacerdócio é incompatível com a fé católica, além de não resolver os problemas.

“Jesus Cristo apresenta-Se como Esposo da comunidade que celebra a Eucaristia, através da figura de um varão que a ela preside como sinal do único Sacerdote. Este diálogo entre o Esposo e a esposa que se eleva na adoração e santifica a comunidade não deveria fechar-nos em concepções parciais sobre o poder na Igreja. Porque o Senhor quis manifestar o seu poder e o seu amor através de dois rostos humanos: o de seu divino Filho feito homem e o de uma criatura que é mulher, Maria. As mulheres prestam à Igreja a sua contribuição segundo o modo que lhes é próprio e prolongando a força e a ternura de Maria, a Mãe”.

“Eles têm direito ao anúncio do Evangelho”

Talvez as palavras mais fortes da exortação apostólica sejam as que se referem à necessidade da evangelização dos povos indígenas, chamando a atenção para o direito dos índios sobre o anúncio do Evangelho.

Perante tantas necessidades e angústias que clamam do coração da Amazónia, é possível responder a partir de organizações sociais, recursos técnicos, espaços de debate, programas políticos… e tudo isso pode fazer parte da solução. Mas, como cristãos, não renunciamos à proposta de fé que recebemos do Evangelho. Embora queiramos empenhar-nos lado a lado com todos, não nos envergonhamos de Jesus Cristo. Para quantos O encontraram, vivem na sua amizade e se identificam com a sua mensagem, é inevitável falar d’Ele e levar aos outros a sua proposta de vida nova: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1 Cor 9, 16).

63. A autêntica opção pelos mais pobres e abandonados, ao mesmo tempo que nos impele a libertá-los da miséria material e defender os seus direitos, implica propor-lhes a amizade com o Senhor que os promove e dignifica. Seria triste se recebessem de nós um código de doutrinas ou um imperativo moral, mas não o grande anúncio salvífico, aquele grito missionário que visa o coração e dá sentido a todo o resto. Nem podemos contentar-nos com uma mensagem social. Se dermos a vida por eles, pela justiça e a dignidade que merecem, não podemos ocultar-lhes que o fazemos porque reconhecemos Cristo neles e porque descobrimos a imensa dignidade a eles concedida por Deus Pai que os ama infinitamente.

64. Eles têm direito ao anúncio do Evangelho, sobretudo àquele primeiro anúncio que se chama querigma e «é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar duma forma ou doutra»[81]. É o anúncio de um Deus que ama infinitamente cada ser humano, que manifestou plenamente este amor em Cristo crucificado por nós e ressuscitado na nossa vida. Proponho voltar a ler um breve resumo deste conteúdo no capítulo IV da Exortação Christus vivit. Este anúncio deve ressoar constantemente na Amazónia, expresso em muitas modalidades distintas. Sem este anúncio apaixonado, cada estrutura eclesial transformar-se-á em mais uma ONG e, assim, não responderemos ao pedido de Jesus Cristo: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15).

65. Qualquer proposta de amadurecimento na vida cristã precisa de ter este anúncio como eixo permanente, porque «toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne»[82]. A reação fundamental a este anúncio, quando o mesmo consegue provocar um encontro pessoal com o Senhor, é a caridade fraterna, aquele «mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como discípulos»[83]. Deste modo, o querigma e o amor fraterno constituem a grande síntese de todo o conteúdo do Evangelho, que não se pode deixar de propor na Amazónia. É o que viveram grandes evangelizadores da América Latina como São Toríbio de Mogrovejo ou São José de Anchieta.

O Papa ainda decepcionou a esquerda católica em uma série de outros aspectos, como a inculturação, adaptações litúrgicas para os povos da Amazônia e a presença dos sacramentos como o batismo e, principalmente, a Eucaristia entre os povos nativos da região.

A liturgia, no que diz respeito às adaptações precisa estar atenta, segundo o Pontífice, sendo um sinal de valorização da cultura, mas que “não despreza a riqueza de sabedoria cristã transmitida ao longo dos séculos, como se pretendesse ignorar a história na qual Deus operou de várias maneiras, porque a Igreja possui um rosto pluriforme, vista «não só da perspetiva espacial (…), mas também da sua realidade temporal»”, assegura o Papa.

Assim, também o cuidado e a preservação daquelas culturas precisa estar atento ao fato de que a criação é instrumento da graça para “abraçar o mundo num plano diferente”, não podendo os sacramentos serem vistos como “separação da criação”, mas um “modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural”.

“Na Eucaristia vemos que, «no apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. (…) [Ela] une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação»”

Leia na íntegra a exortação apostólica pós-sinodal Querida Amazônia